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7.6.05
Entre o Moderno e o Eterno

Em seu famoso ensaio sobre a Modernidade, Baudelaire a definiu como sendo o transitório, o efêmero, todos os elementos que sejam condicionados pela época, pela moda, pelas paixões. Mas, para além da volatilidade que lhe é inerente, há também na Modernidade o fascínio fugidio das metamorfoses, dessa tensão constante entre tradição e mudança. O papel do artista estaria, pois, em extrair a beleza misteriosa da fugacidade moderna, a fim de destilar-lhe o que há de eterno.

Ok, mas o que é que as mulheres têm a ver com isso?

Vivemos uma era caótica. O walkman de ontem é o iPod de hoje, que amanhã já estará obsoleto. Pertencemos a gerações precocemente nostálgicas, que têm saudades da Turma do Balão Mágico, do cubo mágico, TV Pirata e a zebrinha do Fantástico, simplesmente porque mal tiveram tempo de assimilar uma época que parece ter terminado precocemente, soterrada em meio a mudanças cada vez mais repentinas. Mas quem está na casa dos trinta anos até que teve sorte. Fico pensando nessa molecada que mal saiu das fraldas e já é condicionada a ter aulas de inglês, informática, japonês, natação e o que mais couber em suas agendas, a fim de se preparar para enfrentar os desafios profissionais nestes fucking times de downsizings e empowerments.

E se essa criança for do sexo feminino, sai de baixo. Haja 24 horas para a mulher que deseja construir uma carreira profissional, ter e criar filhos, controlar o próprio peso, encontrar um cara legal ou, na ausência dele, aprender a trocar pneus, ao mesmo tempo que lava pratos, retoca a maquiagem, cursa uma faculdade e curte a vida por aí. Sexo frágil é o escambau!

É bóbvio que nem todas as mulheres enquadram-se no perfil rascunhadamente traçado no parágrafo acima, vide as neoamélias, popozudas, marias-gasolina, mocinhas com a Síndrome de Cinderela que ainda sonham com o seu príncipe encantado (aquele mesmo que vira sapo logo após gozar) e executivas workaholics que acham que homens são todos iguais e não hesitariam em trocá-los por vibradores que também abram vidros de palmito.

Mas tergiverso, tergiverso. E eu, que sou apenas um rapaz latino-americano, percebo que é impossível definir todas as inquietações, idiossincrasias, trejeitos, nuances e sentimentos presentes no olhar feminino. Porque, diante do sorriso de uma mulher, sou subitamente remetido aos tempos em que eu era um garoto bobão repleto de espinhas e dúvidas existenciais por todos os lados (não que eu tenha melhorado muito desde então; tornei-me apenas um bobão mais experiente). Percebo, então, que neste curso inexorável da vida em que tudo fenece e morre, a eternidade está contida no tempestuoso céu dos olhos de uma mulher que talvez nunca mais reveja, descrita por Baudelaire como "efêmera beldade cujo olhar me fez nascer segunda vez". Mas como haverei de reencontrá-la, se a perdi em meio ao tumultuado turbilhão das multidões da modernidade?

E cá estamos. Entre o moderno e o eterno, vejo homens e mulheres perambulando por aí, confusos nesta era pós-utopias, de ideologias incertas e instituições fragilizadas. E eu, que facilmente me perco em ruas, corredores, pensamentos e tergiversações, encerro esta discussão divagando sobre Orkut, aparelhos de GPS e outras facilidades pós-modernas que nos permitem vagar menos perdidos por este mundo e reencontrar velhos amigos. Chegará o dia em que os avanços tecnológicos, tão incensados pelos poetas da modernidade, enfim desatarão o nó dos labirintos que separam casais extraviados pelo alarido frenético das ruas?