30.4.05 Cyber Movie, o dilema (ou: uma 9dade c/ legendas mto, mto lokas!)
Estreou, dia 2 de março, no Telecine Premium, a sessão Cyber Movie, que exibe semanalmente filmes legendados em "internetês" (também conhecido como "miguxês"), aquele estranho dialeto usado por adolescentes em chats e fotologs repleta de palavras abreviadas e corruptelas como "fzr" (fazer), "cmg" (comigo) e "9dades" (novidades). A intenção do canal é fazer uma programação mais "antenada" (odeio essa palavra) com o público jovem.
Bem, eu cometi o despautério de assistir algumas cenas do filme "+ Velozes + Furiosos" a fim de conferir como essa proposta funcionaria em vídeo. É certo que o filme não prima exatamente pela qualidade de seus diálogos, mas não agüentei ver mais do que cinco minutos de legendas como:
- Vc tá maluko, kra?
- Soh toh fazendu o q me mandaram.
- Ei, p/ onde eles estaum indu?
- Sei lah!
Quem já estudou lingüística já deve ter ouvido o papo de que não existe certo ou errado na língua. Segundo essa abordagem, o domínio das normas cultas deve ser analisado como um fato de dimensões sociais, que no fundo só serve para ressaltar a superioridade arbitrária de um grupo sobre outro. Segundo esse ponto de vista, os gramáticos seriam espécies de ditadores, sobrepondo sua visão sobre os demais. Mas o problema é o seguinte: sem a imposição de determinadas regras, a língua portuguesa torna-se uma barafunda, uma anarquia na qual vale tudo, até mesmo iXcReVeR dExXi jeItU intragável de se ler.
Ok, línguas são como organismos vivos que evoluem de acordo com os tempos, recebendo influências de outras culturas e idiomas, e acolhendo novos vocábulos criados pelas mudanças sociais e tecnológicas. É assim que incorporamos palavras surgidas relativamente há pouco tempo em nosso dia-a-dia, como "blog", "teleconferência", "apê", "downsizing" e "metrossexual", enquanto outras estão fadadas a cair paulatinamente no oblívio, como "vitrola", "soviético" e "malufar". Mas será que a melhor resposta à propagação desse dialeto já praticado por cerca de 7 milhões de internautas é, simplesmente, incorporá-lo como acabou de fazer o canal Telecine?
O fato é que, uma vez chocado o ovo da serpente, o bicho torna-se indomável. Eu, pessoalmente, execro a iniciativa dessa sessão Cyber Movie (talvez a primeira no Brasil, mas não na América Latina - a MTV Latina há tempos exibe "El Clic", programa interativo que adota as grafias alternativas criadas pelos internautas), mas ao mesmo tempo sei que é uma postura estéril, uma vez que não há como se controlar a difusão do "miguxês" - línguas se modificam naturalmente, por mais que legisladores e gramáticos tentem impor regras normativas.
Vale a pena, de qualquer modo, acompanhar os apaixonados debates travados no fórum do site do Telecine. Mais do que os previsíveis embates entre internautas indignados com a "imbecilização da humanidade", e outros que chamam os detratores da iniciativa de "fascistas" (taí uma palavra banalizada) e "tiranos da língua", chamo a atenção para aqueles que abordam o assunto da maneira como qualquer crítica deveria ser feita: com bom humor. Destaco aqui as sugestões de Gabriel Tacchi, de criar novas atrações como a Sessão Mussum (pra quem é fãnzis do saudoso trapalhãozis consumidorzis de mé) ou a Sessão Língua do Pê, e de Régis Felipe Schorr, que propôs a exibição de filmes legendados em "fanhês" (afinal "fanho também é gente"), mas não em "gaguês", porque senão o filme acabaria muito antes das legendas...
(texto publicado originalmente aqui, em 02 de março de 2005)