Depois de todo o imbróglio envolvendo o fechamento paulatino do Blogger Brasil a não-assinantes da Globo.com (ainda sobre o assunto, confiram esta matéria de Rodney Brocanelli) e a tentativa de cerceamento do conteúdo do blog de Cris Dias, dois novos episódios mostram que a liberdade de expressão exercida pela blogosfera tupiniquim começa a incomodar muita, muita gente.
Alessandra Félix, do Amarula com Sucrilhos, recebeu semana passada uma singela notificação dos advogados da empresa que fabrica o tal licor do título de seu blog, intimando-a a retirar do ar seu domínio sob a alegação de que o registro do mesmo implicava em "ato ilícito e danoso à nossa constituinte". Bem, de minha parte só posso dizer que faço questão de não tomar mais desse licor, sob pena de me tornar tão obtuso e bitolado quanto os (ir)responsáveis por essa causa.
O outro episódio envolve Edney Souza, do imprescindível InterNey. Por conta de dois posts sobre queixas de clientes mal-atendidos por empresas de recolocação de empregos, Edney recebeu ameaças por telefone de uma pessoa que se diz responsável por uma tal de HCO International. Com a palavra, Mr. Souza:
Será que chegará o dia em que cada internauta precisará recorrer a assistência jurídica antes de publicar qualquer texto em seu site? Espero eu que não cheguemos a tal grau de acefalia e cerceamento dos direitos de livre expressão. Caso contrário, blogueiros que advogam como minha namorada, Daniel Barros, Paula Foschia, Gravataí Merengue e Danilo Amaral começarão a receber muitas consultas em um futuro próximo...
8.3.04 Dia Internacional dos Clichês de Homenagens às Mulheres
Conheço pelo menos uma mulher que recebeu hoje nada menos que quatro rosas: de uma banca de jornais, do banco em que trabalha, do supermercado em que fez compras (e que lhe ofereceu o novo Sempre Livre com um desconto especial pelo Dia Internacional da Mulher) e de um posto de gasolina. Conclusão: terá ao final do dia um copo com quatro rosas meio murchas como recordação desta data.
Não vou remoer bobviedades, mesmo porque muitos já percorreram a estrada dos clichês e levantaram todo o pó possível a respeito da importância fundamental das mulheres em nossas vidas. E o mesmo posso dizer das infâmias cometidas em homenagem (?) à efeméride, vide as frases seguintes, todas elas lidas ou ouvidas por mim no dia de hoje:
- Amo as mulheres, afinal de contas vim de uma.
- Nada se compara à jornada e à grandeza dos seres femininos.
- No Dia Internacional da Mulher minha patroa não cozinha. Hoje vou pedir pizza!
- Mulheres merecem ser tratadas com todo o amor, respeito e carinho, porque elas são as pétalas de luz de nossas vidas.
- Ser mulher é amar e ser amada, cuidar e ser cuidada, tocar e ser tocada.
- Mulheres são demais, porque como bem disse o grande poeta Milton Nascimento (sic), todas elas possuem a estranha mania de ter fé na vida.
- Espero que finalmente uma mulher ganhe o Big Brother!
Ah, os pecados da retórica. Para nossos bombardeados neurônios, resta o consolo de saber que não seremos obrigados a aturar tais infâmias durante toda a impressionante gama de efemérides dedicadas à temática feminina. O calendário que encontrei nesta página lista uma série quase inverossímil de datas dedicadas à mulher, a saber:
24 de fevereiro - Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil
30 de abril - Dia Nacional da Mulher
28 de maio - Dia Internacional de Ação pela Saúde da Mulher e Dia de Combate à Mortalidade Materna
21 de junho - Dia Nacional de Proteção ao Direito de Amamentar e Dia Internacional da Educação Não-Sexista
25 de julho - Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha
6 de setembro - Dia Internacional de Ação pela Igualdade da Mulher
7 de setembro - Dia dos Direitos Cívicos das Mulheres
8 de setembro - Dia dos Direitos Cidadãos das Mulheres
23 de setembro - Dia Internacional Contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças
28 de setembro - Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe
10 de outubro - Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher
11 de outubro - Dia Internacional da Mulher Indígena
15 de outubro - Dia Mundial da Mulher Rural
25 de novembro - Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher
Sim, concordo com a total relevância de várias das causas defendidas, mas toda essa exagerada profusão de efemérides politicamente corretas que acaba por banalizar a seriedade dos eventos me leva à seguinte indagação: quanto tempo levará até que alguma militante feminista crie o Dia de Proteção às Anãs Albinas, o Dia Internacional de Proteção ao Direito de Discutir a Relação ou o Dia Mundial de Luta Contra as Piadas de Loiras?
* * * * *
Não é difícil intuir que encaro o Dia Internacional da Mulher com a mesma estranheza com que me depararia com os hipotéticos Dia Internacional do Homem, Dia do Blogueiro, Dia do Jornalista Free-Lancer ou Dia do Sansei. No entanto, trapaceio ligeiramente minhas convicções pessoais acerca do vazio destas datas, a fim de proferir cinco breves palavras para todas as mulheres que tanto enriquecem minha vida: muito obrigado a todas vocês.
Para finalizar este antipost de Dia Internacional da Mulher, seguem abaixo três indicações de links:
Que espécie de esquizofrenia acomete a figura Edson Arantes do Nascimento, que quando desvencilhado do seu codinome ludopédico Pelé não cessa de cometer uma sandice atrás da outra? A última delas foi a confecção da patética lista com os supostos 100 maiores jogadores vivos de futebol, tão mal-ajambrada que chegou ao cúmulo de deixar de fora nomes como Gérson, Tostão e Nilton Santos, limados para que fossem incluídos outros nomes do porte de Valderrama, Nakata, Saviola, Kluivert e Mia Hamm. Neste caso, "gol contra" é metáfora insuficiente para falar da presepada cometida por Edson-Pelé.
Mas, por falar em metáforas ludopédicas, aproveito o post para republicar um poema meu sobre o assunto, escrito muito antes de nosso presidente Lula recorrer a analogias futebolísticas para referir-se às realizações (ou não) de seu governo. Afinal de contas, como diria Pelé, "soccer is a small box of surprises"...
* * * * *
Futebol
É rapaz, o tempo passa no cronômetro e no placar eletrônico;
na aflição do time em busca do gol premente;
nas rugas do jogador que sai vaiado pela torcida;
na tensão do atacante na hora do pênalti;
no nervosismo do treinador alinhavando desculpas amarfanhadas;
no desconforto do artilheiro que não marca há várias derrotas;
na dor do torcedor que volta para casa envelhecido
carregando em cada perna o peso indelével da frustração.
Instável como técnico no cargo ou juvenil no time titular,
a vida ignora qualquer tática ou esquema de jogo.
E não adianta designar volante para marcação homem-a-homem
porque ela nos escapa, feito bola molhada nas mãos do goleiro,
com a graça de moleque que dribla toda a defesa:
desenho de luz no verde gramado.
Subterfúgios também não vão colar, colega.
Fazer cera, retardar os tiros-de-meta,
simular contusões com artes de canastrão,
trocar passes estéreis de um lado para outro afirmando "valorizar a posse da bola".
Cada momento será devidamente compensado nos descontos.
(O bandeirinha delator, o goleiro solitário,
o dirigente exaltado, o treinador teórico,
o gandula torcedor, o reserva conformado,
todos tecem vasta confusão de pernas, socos e palavrões no espaço,
estranha cerâmica no meio-de-campo.)
Esta competição, amigo, tem regras rígidas:
tão criticadas, tão vilipendiadas,
mas inevitavelmente obedecidas por todos.
Neste regulamento não há tapetão.
Futebol é paciência.
Agüentar as vaias uníssonas de hormônios desafinados.
Jogar sob a chuva pesada, o gramado pesado, a cabeça pesada.
Aturar as contas atrasadas e os bichos pagos com cheque sem fundo.
A semana na concentração longe da família.
O papo arrastado das preleções, o banco de reservas,
as perguntas imbecis dos repórteres.
Mas tudo logo se olvida e se justifica.
E como dá gosto de ver as arquibancadas lotadas,
as bandeiras tremulando, os fogos estralejando no céu.
O juiz já lançou a moeda pra o alto,
é hora de acabar o aquecimento
e entrar em campo com o pé direito.
Agora é hora de beijar a chuteira, fazer o sinal da cruz,
posar para as fotos do pôster,
rezar com os companheiros
e aguardar infinitamente pelo minuto de silêncio
que ninguém sabe por quem é.
Boa sorte, irmão.
E que tarde muito até que chegue o temido, o inevitável,
o inapelável Apito Final.
1.3.04 Livros imaginários, livros quase imaginários e livros que deveriam existir
No capítulo inicial de "Se um Viajante Numa Noite de Inverno", o personagem-narrador de Italo Calvino entra em uma livraria e tergiversa, dentre outras coisas, a respeito de:
- Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido;
- Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente;
- Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade Do Preço;
- Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada;
- Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim.
Há um espectro imenso de especulações que poderiam ser feitas em torno destas e de tantas outras classificações feitas por Calvino, mas neste texto discorrerei a respeito de uma espécie não catalogada pelo escritor italiano: a dos Livros Cujos Títulos Soam Tão Improváveis Que Você Mal Acreditaria Que Realmente Existem Caso Não Tivesse Se Deparado Com Eles.
O primeiro exemplo que me vem à mente é de um volume de contos espírita, que encontrei há alguns anos num desses balcões de saldo de balanço da Bienal do Livro: "A Vida Como Ela Continua Sendo Depois da Morte", que teria sido psicografado do espírito de Nélson Rodrigues em pessoa (ou alma, sei lá eu). Se eu não tivesse segurado esse livro em minhas próprias mãos, provavelmente acharia que se tratava de uma piada infame.
Outro achado foi ter encontrado o site da Matrix Editora. Seu catálogo é uma verdadeira compilação de títulos da estirpe "só acredito vendo". Por exemplo? "Não Use Livros Sobre Como Educar Seus Filhos", cuja autora, Iara Pasta, gasta 104 páginas de um livro para defender a tese de seu título. Da mesma editora, recomendo ainda uma visita às resenhas de "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas Contando Piadas", de Paulo Tadeu, e "Quem Mexeu no Meu Salame?", sátira à literatura (sic) de auto-ajuda cometida pelos Irmãos Bacalhau, mesma dupla (ir)responsável por "Diário Secreto de uma Portuguesa" e "Grande Enciclopédia Luso-Portuguesa".
Espero que os irmãos Pedro e Fabia Vitiello, ins-pirados pelos lançamentos da Matrix Editora, ponham no papel pelo menos um título desta ótima lista de best-sellers infantis imaginários criada por eles, tais como "Vovô Ganhou um Caixão", "Ploc! - Era Uma Vez um Hamster e Outras Brincadeiras Legais com o Microondas", "Colecionando Cabeças de Bonecas" e "Roberto, a Nova Namorada do Papai".
* * * * *
O Invisible Library é um catálogo online de livros imaginários. Romances, teses acadêmicas, capítulos apócrifos da Bíblia e toda uma gama de volumes não-escritos, não-lidos, não-publicados e não-encontrados que só existem citados dentro de outros livros constam deste imperdível site.
Como não poderia deixar de ser, um dos destaques da página são as criações de Jorge Luis Borges, que abrigou nos corredores e prateleiras de sua Biblioteca de Babel exemplares de todos os livros que já foram escritos, que serão escritos e também os que nunca serão. Neste, e em muitos outros contos, o escritor argentino cita volumes imaginários como o "Dom Quixote" re(escrito) por Pierre Menard, o "Jardim dos Caminhos que se Bifurcam" de Ts'ui Pen e a "História Geral dos Labirintos" de Silas Haslam (um dos inúmeros ficcionistas dentro das ficções de Borges).
Outro nome que não poderia deixar de constar do Invisible Library é Douglas Adams, autor muito mais comentado que lido no Brasil. Adams escreveu "The Hitchhiker's Guide to the Galaxy" (traduzido como "O Mochileiro das Galáxias" em uma edição brasileira há anos fora de catálogo), trilogia em cinco (!) volumes sobre um sujeito, Arthur Dent, que é salvo momentos antes de uma catástrofe pelo seu amigo Ford Prefect, um alienígena que viveu 15 anos no planeta Terra estudando nossos costumes para atualizar seu guia de viagens para turistas interestelares. Dentre outras coisas, Prefect revela ao seu amigo terrestre que Elvis Presley não morreu e pegou carona em uma espaçonave, que existe um peixe chamado Babelfish capaz de fazê-lo entender qualquer idioma falado no universo, que o presidente da galáxia é um ex-hippie de duas cabeças, que os verdadeiros seres inteligentes na Terra são os golfinhos, não os homens, e que a resposta para a vida, o universo e o tudo mais é... 42.
Além do "Mochileiro das Galáxias" propriamente dito, o Invisible Library destaca outros livros imaginários citados en passant na obra de Adams, como a trilogia filosófica de Oolon Colluphid (composta pelas obras "Onde Deus Errou", "Mais Alguns Grandes Erros de Deus" e "Quem é Esse Tal de Deus, Afinal?"), além de títulos como "A Vida Começa aos 550 Anos", "Tudo Que Você Nunca Quis Saber Sobre Sexo Mas Lhe Forçaram a Aprender" e o "Ultra-Completo Dicionário Maximegalon de Todos os Idiomas Existentes".
Em tempo: o título com o qual mais me identifiquei dentre todos os volumes imaginários discriminados no catálogo do site é "The Bestselling Romantic Spy Thriller I Used to Think About on the Bus That Would Sell a Billion Copies and Mean I'd Never Have to Work Again", concebido por Neil Gaiman.
Quanto a mim, confesso que cheguei a idealizar um dia um livro intitulado "História Universal da Estupidez", mas desisti a tempo. Só o primeiro capítulo renderia centenas de páginas...