Amanhã, dia 1º de março, é a data final que a Globlogger estipulou para que seus usuários limitassem a 10 MB de espaço para a construção e manutenção de seus blogs, sob o risco de vê-los apagados. Assustados, muitos de meus colegas já trataram de se bandear para outros hospedeiros como Weblogger (vive fora do ar), UOL Blog (não recomendo) e a opção mais estável, o velho e bom Blogger original.
Pois eu recomendo duas alternativas gratuitas muito melhores, uma vez que usam como ferramenta de publicação o Movable Type e ainda oferecem espaço para hospedagem de imagens. A primeira delas é o americano mBlog, originalmente criado para uso com tecnologia wireless. Graças à valiosíssima ajuda dada pelos tutoriais do Movable Type BR (criado por Luciana Misura e Evandro Maciel), fiz uma adaptação do mesmo template deste blog para o MT, e o resultado pode ser conferido em http://mblog.com/inagaki.
A outra opção de hospedagem é o Sapo, de Portugal. Ideal para usuários que não dominam o idioma anglo-saxão, possui alguns recursos a menos que o mBlog (não é possível, por exemplo, arquivar posts por categorias), mas não deixa ser uma ótima opção para os órfãos do Blogger Brasil. Aproveitei os serviços do Sapo para fazer um backup de meus textos sobre cinema, e acabei criando um blog temático intitulado Elucubrações Cinéfilas (no qual aproveitei para publicar meus palpites sobre o Oscar 2004), com um template gratuito para MT que encontrei no site da Eris Design. Confiram o resultado aqui, e aproveitem para dar seus pitacos sobre a premiação de Hollywood.
É importante ressaltar, porém, que não existe nem no mBlog nem no Sapo a opção de fazer a importação de posts publicados em outras hospedagens (em Elucubrações Cinéfilas fiz a republicação dos meus textos anteriores um a um - não façam isso em casa, crianças). É preciso, pois, salvar em seu computador os arquivos no Blogger BR se você não quiser perdê-los na mudança, para ver depois o que fazer com eles. Os tutoriais do Ivan Freitas e Movable Type BR ensinam passo a passo como fazer esse backup.
Last, but not least: se você gosta mesmo de blogar, talvez seja a hora de cogitar seriamente a aquisição de um domínio próprio e de um provedor pago de hospedagem. Há ótimas opções no mercado, como o Vilago de Cris Dias, a Festim de Amadeu Bocatios, o recém-criado Pixelzine de Luciana Misura, Gabe Misura & Evandro Maciel e ainda o serviço de hospedagem oferecido pelo Edney Souza, do InterNey. Porque o fato a constatar é infelizmente inequívoco: serviços gratuitos na Internet não possuem muito prazo de validade.
Às vezes as idéias pululam em minha cabeça como turistas desavisados descalços saltitando pelas areias estupidamente quentes de Ipanema.
Às vezes imagino como seria melhor se eu tivesse a capacidade dos budistas de libertar a mente de qualquer pensamento, mergulhar fundo em um mantra e flutuar na paz branca e translúcida de quem medita, hare hare aouuummmmm...
Às vezes penso muito, penso penso penso DEMAIS, centenas e centenas de pensamentos simultâneos ricocheteando pelos sete buracos da minha cabeça, zunindo feito papa-léguas pelo grand canyon dentro de mim, e me perco inutilmente tentando alcançá-los.
Às vezes chego a uma conclusão definitiva. Mudo de idéia trinta segundos depois.
Às vezes concebo Setenta Cavalos Alados Parindo Luzes Dodecafônicas pelo Céu de Liverpool Enquanto um Mulher de Beleza Exata Como os Quadrados de Mondrian Pisoteia Baratas Kafkianas Afiliadas à Liga das Pamonhas de Piracicaba Dissidentes Daquelas que Sonhavam com a Conquista da República de Vladivostok Entre Tabuleiros Sanguinolentos de War e Reproduções em Silk-Screen do Vice-Presidente do Reino Utópico dos Amantes Crucificados Que Se Flagelavam Enquanto Assobiavam Canções Empoeiradas de Cavaleiros Medievais Embevecidos com as Imagens Vagas de Ninfetas de Elevador Trajando Calças M. Officer e Saias com a Estampa Transcendental dos Pescoços de Modigliani.
Às vezes entupo minhas narrativas com piadas inconseqüentes, metáforas rebuscadas, digressões gratuitas, de forma que me esqueço completamente do que estava escrevendo, e então jogo tudo fora e deixo só as piadas.
Às vezes penso que deve haver um inferno ao qual são condenados todos os idiotas que deixaram um amor morrer, e eu, com certeza, serei flambado num caldeirão ad eternum, ouvindo Backshit Boys e assistindo a programas evangélicos no canal comunitário do limbo.
Às vezes meses parecem dias. Planos de anos são utopias.
Às vezes tartamudeio, gaguejo, vocifero, liquefaço, justaponho, defeco, repito, repito, latejo, trompeteio, esporro, grogrolejo, tremeluzo, redescubro, alicio palavras; depois, reescrevo-as.
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P.S.: Este é mais um post da sensacional série "A Arte de Reciclar Velhos Textos por Absoluta Falta de Tempo e Disciplina para Escrever Novos que Sejam Minimamente Apresentáveis". Porque, oras, republicar textos é mais simples que encontrar animais envenenados no zoológico de São Paulo.
Carnaval é uma época um tanto quanto nebulosa. Digo isso porque em meio às folias, fofocas e mulheres nuas que pululam nos sambódromos e manchetes de jornais por aí, notícias mais relevantes acabam sendo eclipsadas e relegadas a segundo plano. E assim, a madrinha da bateria da Mocidade Alegre ou os carros alegóricos de Joãosinho Trinta que foram censurados ganharam muito mais exposição na mídia que a Medida Provisória que fechou os bingos ou o escândalo envolvendo Waldomiro Diniz, Zé Dirceu e o Bispo Rodrigues. Exponho minha opinião sobre o assunto parafraseando as palavras do imortal mulatólogo Oswaldo Sargentelli: ê-lerê, ziriguidum, telecoteco, balacobaco, borogodó!
Pois bem, enquanto eu folheava os jornais e esbarrava com notícias sobre a passagem de Björk pelo carnaval baiano ou as gafes cometidas por Dan Aykroyd no camarote da Brahma no sambódromo carioca (dentre outras pérolas, o ator de "Irmãos Cara-de-Pau" e "Os Caça-Fantasmas" provou que é um tremendo dum relações-públicas ao afirmar: "É incrível o que esta cervejaria está fazendo para o cinema brasileiro. Trata-se de um cinema de enorme qualidade que nunca teve patrocínio suficiente. Precisamos agora fazer um filme sobre Carnaval."), descobri em uma nota de rodapé que morreu Pedro Bloch.
Você lerá nos necrológios que Bloch, ucraniano naturalizado brasileiro, foi médico e dramaturgo, autor de peças como "As Mãos de Eurídice" e "Dona Xepa", e que faleceu aos 90 anos de idade. Mas, para mim, ele ficará marcado como o responsável pela coluna "Criança Diz Cada Uma", publicada anos a fio nas revistas Manchete e Pais e Filhos, que eu costumava folhear em minhas perambulações por consultórios durante minha infância marcada por crises de bronquite, óculos quebrados e cáries inconvenientes.
Em suas colunas, Pedro Bloch compilava frases que lera ou ouvira durante os muitos anos em que conviveu com crianças em seu trabalho como fonoaudiólogo. Reunidas posteriormente em livros como "Dicionário do Humor Infantil", representam achados e definições que surpreendem pela espontaneidade e pela revelação de olhares ao mesmo tempo ingênuos e poéticos. Alguns exemplos:
- O que é ter fé?
- É uma menininha, na praia, esvaziando o mar com um baldezinho de plástico furado.
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- Eu sou otimista, sim. Nunca penso nos oito gols que deixei entrar, mas nos cinco que eu não deixei.
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Ouve-se o estraçalhar de um vidro no banheiro e o menino grita:
- É mentira do barulho!
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Garoto, ao ver irmãs gêmeas na rua:
- Mãe, eu vi duas meninas de cara repetida!
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- A cor do céu depende da hora, do tempo e de quem olha. Quem diz que o céu é azul, nem desconfia que, de noite, ele pode ser preto e, quando vai anoitecendo, pode até ser rosa ou vermelho. Quem diz que o céu é azul é analfabeto de céu.
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Pedro Bloch costumava dizer o seguinte: "Toda criança nasce para ser gênio. Nós, adultos, é que as estragamos". Embora a afirmação soe um tanto quanto rousseauniana demais para meus ouvidos, fica difícil discordar dela ao ler algumas das frases reunidas por Bloch em seus mais de 40 livros sobre crianças. Estas são algumas das minhas definições prediletas:
ADULTO - É uma pessoa que sabe tudo, mas quando não sabe diz logo: "veja na enciclopédia".
AMAR - É pensar no outro, mesmo quando a gente nem tá pensando.
BOCA - É a garagem da língua.
BORBOLETA - É uma flor que sabe voar.
CABELO - É uma coisa que serve pra gente não ficar careca.
CALCANHAR - É o queixo do pé.
CIGARRO - É chupeta de adulto.
COISA - É uma palavra que serve pra qualquer coisa.
DEUS - É a pessoa que dá os presentes pro Papai Noel.
ESPERANÇA - É um pedaço da gente que sabe que vai dar certo.
FÉ - É uma menininha, na praia, esvaziando o mar com um baldezinho de plástico furado.
FUTEBOL - É um jogo em que, às vezes, a trave joga melhor que o goleiro. Pega tudo.
FUTURO - É tudo que vem depois e, quando chega, já era.
HELICÓPTERO - É um carro com ventilador em cima.
NEVOEIRO - É poeira do frio.
PIADA - É uma coisa engraçada que perde a graça quando a pessoa avisa que vai ser.
REDE - É uma porção de buracos amarrados com barbante.
REFLEXO - É quando a água do lago se veste de árvores.
RELÂMPAGO - É um barulho rabiscando o céu.
SONO - É saudade de dormir.
STRIP-TEASE - É mulher tirando a roupa toda, na frente de todo mundo, sem ser pra tomar banho.
VEIAS - São raízes que aparecem no pescoço das meninas que gritam.
VIDA - A vida de muita gente é só gol contra.
Domingo passado, pouco antes da exibição de "Cold Mountain" (razoável épico romântico estrelado por Nicole Kidman e Jude Law), foram exibidos dois trailers na sala em que estive. O primeiro foi de "Secondhand Lions", com Haley Joel Osment, Robert Duvall e Michael Caine. Pelo visto, deve ser uma dessas produções para toda a família com mensagens edificantes. Mas o que mais me chamou a atenção foi a hora em que as legendas revelaram qual será o seu título em português: "Lições para Toda Vida" (sim, esta é uma comédia estilo Sessão da Tarde).
A seguir veio o trailer de "Ripley's Game", adaptação do romance homônimo de Patricia Highsmith com John Malkovich no papel principal. Pra variar, seguiu-se outra tradução de lascar: "O Retorno do Talentoso Mr. Ripley", título escabrosamente oportunista que pega carona em "O Talentoso Mr. Ripley", filme dirigido por Anthony Minghella em 1999 que simplesmente não tem nada a ver com esse "Ripley's Game" a não ser o fato de ambas as produções serem adaptações de livros com o mesmo personagem Tom Ripley, amoral assassino criado por Highsmith.
Curiosamente, "Cold Mountain" foi lançado no Brasil com o título original. Menos mal: do jeito que anda a criatividade de nossas distribuidoras não seria difícil vê-lo traduzido como "Montanha Fria, Coração Quente", ou algo do tipo. Vide o filme de Sofia Coppola, por exemplo, no qual o título mais do que adequado "Lost in Translation" (em transposição simples para o português, "Perdido na Tradução") foi transformado em "Encontros e Desencontros". Poderia ser pior? Sim: em Portugal as distribuidoras tiveram a pachorra de lançá-lo como "O Amor é um Lugar Estranho".
Diante de exemplos tão infames, eu e minha companhia ficamos especulando que males aprontaríamos para a sétima arte caso fôssemos contratados como tradutores de títulos de filmes. Eis alguns dos resultados de nossas tergiversações:
- Chicago - Sexo, Fama e Sucesso;
- Waking Life - Um Desenho Desanimado;
- Braveheart - Escoceses Muito Loucos;
- Patch Adams - Sociedade dos Médicos Mortos;
- Ghost - Os Fantasmas Também Amam;
- Fargo - Uma Policial Muito Grávida;
- Titanic - Amor em Alto-Mar;
- Signs - Os ETs Vêm Aí.
Entretanto, por mais que eu force minha imaginação, ainda não consigo imaginar um subtítulo mais infeliz do que aquele dado a "Brother", filme de Takeshi Kitano que ganhou no Brasil o complemento de redundância redundante "A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles", quase tão ridículo quanto chamarem um longa-metragem intitulado "The Sound of Music" de "A Noviça Rebelde". Mas enfim, o assunto é quase inesgotável, e eu mesmo já havia escrito anteriormente sobre outros casos esdrúxulos.
Rápida enquete: você assistiria (ou deixaria de assistir) a um filme por causa do seu título?
Ontem foi celebrado o Valentine's Day, Dia dos Namorados em diversas partes do mundo. Segundo o Guia dos Curiosos (utilíssimo compêndio de conhecimentos inúteis), a origem da efeméride data do século III. Reza a lenda que na Roma antiga, o imperador Claudius II proibira o casamento em tempos de guerra, por considerar que soldados solteiros eram mais eficientes (hoje em dia, são os técnicos de futebol que acreditam que seus comandados jogam com mais "vontade" estando, hmm, abstêmios - mudam os tempos, não as crenças).
Pois bem: Valentim era um padre que casava soldados às escondidas. Por sua desobediência às ordens do imperador, foi condenado à morte. A data da execução de sua sentença, 14 de fevereiro, acabou sendo adotada como Dia dos Namorados em diversas paragens como Inglaterra, França e Estados Unidos. Nossa Terra Brasilis, no entanto, escolheu para celebrar a efeméride o dia 12 de junho, por motivos bem menos heróicos. Aqui, o Dia dos Namorados começou a ser celebrado em 1949, quando o publicitário João Dória importou a idéia do exterior, optando pelo mês de junho pelo fato deste ser tradicionalmente um mês de vendas baixas. Mas por que o dia 12? Simples: nossos comerciantes usaram como pretexto "religioso" a véspera do Dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro.
Em homenagem atrasada ao Valentine's Day, republico mais abaixo um conto sobre o tal do Amor. A moral é um tanto quanto ambígua, refletindo meus próprios sentimentos sobre o tema. Em tempo: a ilustração é de Jason Sho Green, e o texto é dedicado à minha musa inspiradora, que recém-completou 29 primaveras no último dia 09. ;)
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Amar Emburrece
ADVERTÊNCIA: Quaisquer semelhanças entre as situações e personagens descritos a seguir com fatos reais NÃO são mera coincidência. Esta história foi originalmente produzida em preto & branco.
Como todos sabem, homens não são muito providos de inteligência natural. Apaixonados, então, tornam-se mais abobados ainda. Quando Alechandre viu Sessília pela primeira vez, seus olhos foram imediatamente fisgados. Nada como um belo par de pernas, cabelo chanel, mamilos querendo rasgar uma blusa justa e um sorriso sugestivo para ruir toda a racionalidade de um homem. Quando Alechandre encontrou Sessília pela primeira vez na pista de dança daquele barzinho, ele poderia jurar que todas as bocas se calaram, todas as estrelas se apagaram, o mundo todo caminhou na ponta dos pés e todas as rádios interromperam suas programações só para tocar The Killing Moon.
Mas enfim, amar é decretar uma chacina de neurônios.
Na condição de melhor amigo da vítima, fui testemunha privilegiada do processo de derrocada de Alechandre. Lembro-me muito bem de seu discurso derramadamente sentimental funcionando a todo vapor, comentando TODAS as suas afinidades com Sessília. Disse que ela lia Borges, Poe e Leminski; que seu jogo preferido do Atari era H.E.R.O.; que tinha a coleção completa de Sandman; que gostava de comer pão com manteiga e geléia de uva; que quando criança sonhara em ser chacrete, arquiteta e pintora antes de se tornar advogada; que gostava de yakult, Edward Munch e física quântica; que desistira de ler Ulisses porque cansava demais ficar carregando aquele calhamaço todo no ônibus; que seus ídolos eram Gaudi, Carl Barks e Clarice Lispector; que o que mais lhe doía na vida era a sensação de desamparo e vazio no peito toda vez que um amor acabava, e principalmente a sensação de pensar, "mas acabou de novo?"; que cantarolava Arnaldo Baptista enquanto tomava banho ("hoje percebi que venho me apegando às coisas materiais"); e que ao ouvi-la cantando justamente AQUELA música seu coração se encheu de ternura e seus olhos ficaram úmidos. E aí constatei, porra, o cara tinha caído direitinho na arapuca.
E depois de tudo isso, pra culminar, ele me diz: "putz Auberto, como é que NUNCA nos encontramos antes?". E aí fiquei pensando, quantas vezes já ouvi na vida variações em cima desta mesma frase? "I look at you and what I see is me", cantava o Pink Floyd, se é que minha memória pop não está enganada. Todos que se apaixonaram pelo menos uma vez na vida já passaram por essa fase de deslumbramento e assombro. Pena que quase sempre ela passa.
E mal sabia meu amigo que, a partir do momento em que seus olhos se umedeceram de ternura, começava ali sua derrocada na cadeia evolutiva, e que aquele rapaz promissor, um jovem jornalista recém-formado, em apenas duas semanas se veria transformado em um Neanderthal apaixonadão e completamente aparvalhado, capaz de brincar de mal-me-quer com um Haagen Dazs de cheesecake enfiado no meio da testa, com o sorriso mais alegre e estúpido do mundo estampado em um rosto subitamente repleto de espinhas.
Amar não é para amadores.
Quando a gente se esquece do tempo, é aí que ele passa mais depressa. Em questão de semanas Alechandre e Sessília percorreram todos os passos da via crucis da paixão. E de repente, tudo o que encantava tornou-se motivo de escárnio e ironias corrosivas. Citações de filmes tornaram-se "manifestações pretensamente intelectuais de erudição frustrada". Se antes os olhos brilhavam de paixão, agora faiscavam de rancor, sarcasmo, raiva. "Mas acabou de novo?".
Alechandre passou exatas duas semanas curtindo sua ressaca pós-amorosa em grande estilo. Estatelado em sua cama, olhando o teto branco de seu quarto na penumbra e ouvindo álbuns de Zezé di Camargo & Luciano, e o que é pior, identificando-se terrivelmente com TODAS as letras dos caras, e cantando em altos brados: "O tempo todo, o dia inteiro/ Sinto o seu corpo, sinto o seu cheiro/ E a minha vida é só pensar em você...". Fatos que corroboraram, definitivamente, a minha tese: amar emburrece.
Hoje, três meses depois, Alechandre não pára de falar na Jizele, que tem 25 anos, 271 CDs e "o sorriso mais cool do mundo", segundo suas próprias palavras. Por mais que ele quebre a cara, não aprende as lições. Discutindo sobre a imbecilidade da paixão, Alechandre disse que preferia ser o rei dos débeis mentais a insistir na "medíocre e conformada estupidez de um cético blasé neo-liberal", obviamente referindo-se a mim, tsc, tsc. Ah, a verborragia dos apaixonados.
Observando essas cenas, pergunto-me: será que um dia chegarei a tal estado de torpência mental? Espero eu que não. É preciso estar sempre alerta para os riscos da paixão: olho para os dois lados antes de atravessar a rua, atento a movimentos de estranhas, essas coisas. Mas já deixei minha família de sobreaviso. Se um dia eu for pego pela armadilha do amor, quero que os aparelhos sejam desligados. Não desejo sofrimentos desnecessários.
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P.S.: Atualizei a relação de "blogs da semana" na coluna à esquerda. Confiram!
- Viu que hoje é sexta-feira 13?
- Tanto faz. Concordo com o Garfield, muito piores são as segundas 13.
- Pra mim todo dia é sexta-feira 13... (suspiro)
Todos os usuários do Globlogger receberam (ou deveriam ter recebido) um e-mail avisando das novas mudanças: a partir do dia 1º de março, cada usuário terá até 10 MB de espaço para construir e manter seus blogs. Uma exigência até razoável, em minha opinião, tendo em vista que o UOL Blog, por exemplo, oferece ínfimo 1 MB para cada usuário não-assinante do portal. Mas uma leitura atenta às condições gerais de utilização do Blogger Brasil (que, mais uma vez, foram modificadas pela Globo.com) aciona o sinal de alerta:
"Caso o Usuário desobedeça ao espaço em disco ora estabelecido, a GLOBO irá avisá-lo, exclusivamente, quando do momento do login, ficando suas URL'S automaticamente bloqueadas. O Usuário deverá regularizar sua situação através do acesso à administração da 'Blogger' imediatamente após a identificação da infração. Os Usuários que regularizarem seus 'Blogs' terão os mesmos desbloqueados. Os Usuários que mantiverem seus 'Blogs' acima do limite permitido serão excluídos do Serviço e terão o conteúdo de seus 'Blogs' apagados. O Usuário, neste ato, autoriza, expressamente, a GLOBO a proceder com a exclusão do conteúdo dos "Blogs" que se enquadrem na situação ora descrita, sem que tal fato possa acarretar qualquer tipo de reclamação posterior do Usuário contra a GLOBO".
Conselho: se você mantém uma página no Blogger Brasil, faça o quanto antes um backup de seu conteúdo. A Helô, do Banana&Etc, dá algumas boas dicas neste post.
A propósito: o UOL Blog, provavelmente antecipando-se à diáspora que está para acontecer na Globlogger nas próximas semanas, oferece um serviço de importação de posts de outros servidores para lá. Pois bem, eu experimentei esse serviço, e devo dizer que os resultados não foram lá muito satisfatórios. Textos saíram incompletos, posts foram misturados uns nos outros ou apareceram duplicados, links saíram quebrados, enfim, foi uma barafunda só. Até tive a pachorra de consertar a formatação dos primeiros textos, mas depois desencanei ao perceber o trabalho tremendo que teria para arrumar a casa inteira (clique aqui se você quiser conferir o resultado da migração de Pensar Enlouquece para o UOL). É preciso ainda ressaltar que como sou assinante do UOL estou fora do limite de 1 MB oferecido pelo portal.
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Capítulo 2 - "Eu Não Acredito nos Homens"
Em um precendente pra lá de estranho, a mais recente seleção de Blogs of Note (que indica toda terça-feira os melhores weblogs abrigados no Blogger Brasil) foi modificada no meio da semana: até então, nunca testemunhara algo parecido acontecer. A primeira imagem, que mostra o Amarula com Sucrilhos da Alessandra Félix dentre os destaques, registra a seleção original. A segunda imagem exibe o BON um dia depois: onde foi parar o Amarula?
Antes de mais nada, é preciso registrar que não deu para entender por que cargas d'água o Amarula, a despeito de ser um dos melhores blogs brasileiros, foi parar na página inicial do Blogger Brasil, uma vez que há meses está instalado em um servidor próprio com o domínio www.amarulacomsucrilhos.com.br. Sua URL original (amarulacomsucrilhos.blogger.com.br) fôra mantida apenas para redirecionamento automático para o novo endereço. Pois bem: aparentemente algum funcionário do Blogger Brasil percebeu a situação e retirou a indicação da semana. Mas o pior foi o que aconteceu a seguir: Alê Félix teve todas as suas contas na Globlogger suspensas e apagadas. Eis a sua descrição das explicações dadas pelos atendentes do Blogger BR:
"Liguei, paguei trinta centavos por minuto, pra ficar um tempão na linha e ouvir que minha conta havia sido bloqueada por falta de pagamento. - Pagamento? Que pagamento? Nem assinante deles eu sou! - Me encaminharam pra outro setor. Os caras transformaram o meu cadastro em um cadastro de assinante por livre e espontânea falta de profissionalismo, indicaram meu blog duas vezes por pura falta de atenção, deletaram todos os meus arquivos que estavam lá e ainda fizeram o meu endereço antigo (amarulacomsucrilhos.blogger.com.br) de refém! Disseram que só vão liberá-lo caso eu faça uma assinatura. Caso contrário, eles liberam o nome daqui a seis meses pra qualquer usuário que queira registrá-lo. Isso, mesmo eles tendo assegurado em contrato, que os usuários antigos do Blogger teriam direito a um dos blogs criados antes da mudança de regra".
A pérola final: segundo os atendentes que falaram com a Alê, todos os blogs que não forem de assinantes da Globo.com serão deletados nos próximos dias. Se a informação procede eu não sei, e torço para que eles tenham se equivocado (embora os fatos das últimas semanas levem às conclusões mais pessimistas), mas por dúvida das vias vale a pena ir registrando um domínio no Blogspot desde já, como fez meu cumpadi Matusalém Matusca, outro blogueiro que sofreu nas mãos dos atendentes da Globo.com (confira aqui).
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Capítulo 3 - "A Usurpadora"
Vários blogueiros que moram no exterior, como a Flávia e a Vanessa, reportam a impossibilidade de acessar qualquer página abrigada no Blogger Brasil. Essa sensação de déjà vu é particularmente incômoda a todos que já viram esse mesmo filme (sites inacessíveis fora do Brasil) acontecer com os sites do Kit.Net, que oferecera espaço gratuito para a criação de páginas por algum tempo antes que a oferta de seus serviços fosse limitada exclusivamente a assinantes da... Globo.com. Contudo, há uma maneira de driblar esse bloqueio, devidamente esclarecida por mestre Fábio Sampaio neste post.
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A seguir: cenas dos próximos capítulos?
(imagem devidamente surrupiada do blog de Mr. Caryorker)
Não posso deixar de dizer que lamento toda essa história que parece descambar para um unhappy end. Primeiro, porque apesar dos pesares gosto dos serviços do Blogger Brasil, servidor que ainda oferece benesses invejáveis como espaço para armazenamento de imagens e interface amigável. Segundo, porque foi neste lugar que alcancei visibilidade suficiente para ganhar reconhecimentos bacanas como a inclusão na blogteca do Portal Literal, na lista de blogs favoritos do No Mínimo e na relação dos 10 finalistas do prêmio iBest Blog deste ano (vote djá!).
Se tiver que sair daqui para fomentar meu vício em outras paragens, que assim seja. Mas eu só digo uma coisa: não serei eu quem sairá perdendo mais com a proeminente saída minha e de muitos outros blogs deste servidor.
Nós, brasileiros, estamos tão acostumados em ver mamilos expostos na TV que até estranhamos quando a mulata Globeleza aparece com os seios cobertos. De memória, posso citar diversos outros momentos em que mulheres exibiram suas partes mais pudendas em horário nobre. Por exemplo, os diversos banhos que Juma Marruá e a Mudinha tomavam na novela "Pantanal" da finada TV Manchete, ao lado dos tuiuiús e do Velho do Rio. Ou os stripteases pra lá de fajutos que as garotas Tutti-Frutti faziam em "Cocktail", programa pra lá de tosco capitaneado por Miéle todas as quartas-feiras no SBT? E o que dizer da campanha de prevenção do câncer de mama estrelado por Cássia Kiss na qual a atriz fazia exame de toque nos próprios seios, encampada por ninguém menos que o Ministério da Saúde?
Diante dos, hmm, permissíveis padrões tupiniquins, o que dizer de toda a celeuma causada pela exibição do seio de Janet Jackson durante uma apresentação no intervalo do Superbowl? Ainda se fossem os mamilos da Naomi Watts... Mas tergiverso, tergiverso. E o fato é que não é preciso ser um expert em Estados Unidos para discorrer sobre o puritanismo W.A.S.P. e toda a dificuldade histórica que a terra do Mickey possui em falar sobre Sexo, esse tema-tabu da mesma sociedade que abriga a maior indústria de filmes e artigos pornográficos do planeta.
Ah, as contradições americanas. Menos mal que nem todos são pudicos ou imbecis feito presidentes com sobrenome Bush ou pilotos da American Airlines. E enquanto parlamentares republicanos aproveitam o Tetagate para defender a adoção de mecanismos eletrônicos capazes de eliminar materiais considerados "obscenos" em transmissões ao vivo (por exemplo, qualquer palavra que possa sair da boca de Michael Moore), não posso deixar de recordar o nome de Lenny Bruce, que certa vez afirmou: "If a titty is pretty, its dirty but not if its bloody and maimed".
Não conhece Lenny? Então você nunca prestou a devida atenção na letra de It's the End of the World As We Know It (and I Feel Fine) do R.E.M., nem assistiu à sua cinebiografia dirigida por Bob Fosse e estrelada por Dustin Hoffman (procure em sua locadora). Saiba, pois, que Lenny Bruce foi um dos expoentes da stand-up comedy. Conhecido pelo jeito contundente com que discorria sobre sexo, racismo, religião e política, foi no começo dos anos 60 o comediante mais conhecido da América, vivendo em um casarão em Hollywood e lotando teatros de todo o país.
A primeira prisão de Lenny aconteceu em 1962, acusado de ato obsceno por ter proferido a palavra "motherfucker" durante uma apresentação em São Francisco. Foi absolvido depois, mas esse precedente acabou servindo como o estopim para uma série de processos movidos por membros "distintos" em praticamente todas as cidades nas quais se apresentava. A perseguição por parte dos setores conservadores dos EUA, incomodados com o jeito loquaz de um comediante que desatava a tecer piadas sobre marijuana, gonorréia, judaísmo e políticos hipócritas, chegou ao ponto de impedir seu trabalho (os proprietários de night clubs que ousassem contratá-lo corriam o risco de perder seus alvarás e ainda serem co-responsabilizados por crime de obscenidade). Resultado: levado à falência depois de tantos gastos com processos e advogados, e ainda com a carreira praticamente encerrada, Lenny chafurdou nas drogas até morrer de overdose de morfina em sua casa em Los Angeles, aos 41 anos de idade.
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Nem toda história possui um final edificante. E não posso deixar de chamar a atenção para o fato de que enquanto as famílias norte-americanas sentiram-se abaladas pela aparição de um mamilo, uma das atrações mais festejadas no intervalo do Superbowl foi o Lingerie Bowl, singela atração na qual dois times formados por modelos disputaram uma partida de futebol americano trajando unicamente sutiãs, cintas-ligas e calcinhas rendadas. Ok, o espetáculo foi exibido apenas por pay-per-view, mas é de se perguntar: o peito da Janet Jackson é tão mais "imoral" que esse mero pretexto para exibição de mulheres-objeto?
Em tempos tão contraditórios e hipócritas, não posso deixar de recordar outra frase de Lenny: "The truth is what is, not what should be. What should be is a dirty lie".
Aproveitei o fim-de-semana para resolver algumas pendências, uma delas de cunho bloguístico: dei uma ajeitada geral nos links da coluna à esquerda. O leitor mais atento logo notará a lipoaspiração geral que fiz, diminuindo consideravelmente o número de sites linkados. Em compensação, criei uma seção intitulada blog back, que automaticamente incluirá todos os blogs que porventura linkem para esta página, desde que pré-cadastrados nos diretórios do BlogStreet, Technorati e Top Links. Subdividi ainda meus sites prediletos em diversas categorias: vícios, pop cabeça, cinefilia, fait divers, d'além-mar e in memoriam. Outra novidade é a seção blogs da semana: todo domingo pretendo destacar dez weblogs que chamaram minha atenção durante minhas navegações pela Web.
Bem, agora só falta organizar a zona da minha vida pessoal. Enquanto isso, adianto alguns temas que pretendo trabalhar nos próximos posts:
- Lenny Bruce e o escândalo Tetagate;
- Besteiróis americanos têm o seu valor;
- Como eu odeio bebidas;
- Saudades de Marina Lima;
- Pedagogia do medo no metrô de SP.
Janet Jackson pagou peitinho no Superbowl, uma mulher morreu afogada na cozinha da própria casa em São Paulo, o Risco Brasil subiu novamente, um ativista do Hamas foi morto em Gaza, Bush Júnior finalmente reconheceu que as tais armas de destruição em massa não foram encontradas no Iraque, um nerd batizou o filho com o singelo nome de Jon Blake Cusack 2.0, um acidente de carro matou cinco pessoas da mesma família em Bebedouro, um apostador de Brasília ganhou sozinho na Mega-Sena e Drew Barrymore ganhou uma estrela na calçada da fama de Hollywood, mas tudo que consigo pensar é em como seria bom passar minhas próximas férias em um grotão perdido no qual eu deixasse de me empanturrar com a dieta infernal dos noticiários, porque quatro dias sem acessar a Internet não foram suficientes para a libertação completa de meu vício por informações.
1.2.04 Troféu Imprensa o caralho, meu nome é Oscar, porra!
Após testemunhar in loco a empolgação de certos amigos com as quatro indicações de Cidade de Deus, me veio à cabeça a imagem de Galvão Bueno transmitindo a cerimônia da premiação:
- Cidade de Deus é o Brasiiiiil no Oscar! Vai que é tua, Fernando Meirelles!!!
Por que brasileiro precisa torcer por qualquer coisa como se estivesse em um estádio de futebol? O espírito acefalamente ufanista que assolou considerável parcela dos cinéfilos em fóruns e listas de discussão fez com que eu me deparasse com algumas das mensagens mais asininas que já li nos últimos tempos, vide os excertos abaixo que encontrei dispersos pela Web tupiniquim:
- "Finalmente Hollywood se ajoelhou aos pés do talento brasileiro!"
- "Se Cidade de Deus não ganhar os quatro Oscars, a Academia cometerá a maior injustiça de todos os tempos".
- "Espero que vença um filme que retrata a realidade, e não uma fantasia boboca sobre hobbits, orcs e outros seres imaginários".
É de se perguntar se "patriotismo" não é sinônimo de "lavagem cerebral". Mas enfim, arroubos passionais à parte, o fato é que Cidade de Deus lavrou um feito significativo para um longa-metragem que não é falado em inglês: quatro indicações em categorias nobres como Direção, Roteiro Adaptado, Montagem e Fotografia. Os maiores méritos, sem dúvida nenhuma, vão para a excelência artística do filme; mas até os patriotas oportunistas não podem omitir o papel desempenhado por Harvey Weinstein, dono da Miramax, a distribuidora de City of God no exterior. Mestre do conchavo junto aos votantes da Academia, Weinstein, o mesmo produtor que alavancou outros filmes para o Oscar como Shakespeare Apaixonado, A Vida é Bela, O Paciente Inglês e Gênio Indomável, foi fundamental ao arquitetar a campanha de Cidade após o insucesso da candidatura a Melhor Filme Estrangeiro em 2003.
Segundo uma mudança das regras da Academia implantada em 1999, um longa-metragem que postulou uma indicação à categoria de produção estrangeira pode concorrer no Oscar do ano seguinte desde que tenha estreado comercialmente nos EUA nesse mesmo período. Assim, como o filme de Meirelles só foi lançado nos EUA em janeiro de 2003, ele se tornou automaticamente elegível para as categorias principais do Oscar deste ano. Tendo essas regras em mente, Weinstein (que antes de ser emérito lobista é cinéfilo dos mais engajados, e admira Cidade de Deus desde a primeira vez que o assistiu) elaborou uma cuidadosa campanha que incluiu o relançamento do filme no circuito comercial americano em novembro, projeções especiais para os membros da Academia e publicação de anúncios elencando todos os prêmios internacionais conquistados, informando aos votantes as principais categorias para as quais Cidade merecia concorrer. O próprio Fernando Meirelles reconhece: sem o empenho de Harvey Weinstein, dificilmente Hollywood se lembraria das peripécias de Buscapé e Zé Pequeno.
Agora vai?
O leitor incauto se pergunta: será que posso preparar meus rojões para estourá-los dia 29 de fevereiro, quando serão anunciados os vencedores do Oscar? Pois eu lhes digo: a parada será dura, mas há boas chances em pelo menos duas categorias.
Mas antes de mais nada, é bom dizer que O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei, indicado a 11 Oscars, deve (e merece) levar diversas estatuetas, inclusive as de Melhor Filme e Melhor Diretor para o neozelandês Peter Jackson. Antes que os ufanistas de plantão me encham o saco, é bom transcrever as palavras de Fernando Meirelles: "Dirigir um filme tem muito a ver com a capacidade de criar um universo, e Jackson fez isso de forma fenomenal". Assino embaixo, em cima e dos lados dessa declaração, e a complemento: a trilogia de O Senhor dos Anéis resgatou a capacidade que o cinema mainstream possui em mesmerizar o espectador não apenas através de efeitos especiais, mas também por um bom roteiro, atores competentes e uma direção simplesmente impecável. Clint Eastwood e Sofia Coppola que me desculpem, mas o Oscar merece ir para as mãos de Peter Jackson.
Descartadas as categorias de Direção e Roteiro Adaptado (nesta, o páreo será duro entre Senhor dos Anéis e Sobre Meninos e Lobos), o que resta a Cidade de Deus? O uruguaio César Charlone, indicado ao prêmio de Melhor Fotografia, já desempenhou belos trabalhos em outros longas nacionais como Feliz Ano Velho e O Homem da Capa Preta. É zebra, porém, embora as indicações deste ano já tenham surpreendido ao não incluir os nomes de Andrew Lesnie por Senhor dos Anéis e John Toll por O Último Samurai. Despontam como favoritos, pois, o australiano John Seale por Cold Mountain (vencedor desta mesma categoria em 1996, pela cinematografia de O Paciente Inglês), e o português Eduardo Serra por Girl With a Pearl Earring (fotógrafo de filmes como Asas do Amor e O Marido da Cabeleireira).
As melhores chances de Cidade de Deus estão, pois, depositadas nas mãos de Daniel Rezende, indicado a Melhor Montagem. No ano passado, Daniel venceu o Bafta (principal prêmio do cinema britânico), batendo concorrentes do porte de Chicago, As Horas e O Senhor dos Anéis - As Duas Torres. Um reconhecimento justo a alguém cujo trabalho é fundamental na narrativa ágil e criativa do filme brasileiro. Não é impossível, pois, imaginar Rezende levando a estatueta, apesar de disputar a premiação com O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei, Mestre dos Mares - O Lado Mais Distante do Mundo e Cold Mountain (cujo montador é Walter Murch, vencedor de três Oscars).
A outra grande chance do Brasil ganhar o Oscar está em sua quinta indicação: Carlos Saldanha, diretor de Gone Nutty, que concorre ao prêmio de Melhor Curta-Metragem de Animação. Após ter co-dirigido A Era do Gelo, produção da Fox que disputou a estatueta de Melhor Longa Animado em 2003 (cuja continuação será dirigida unicamente por Saldanha), este carioca de 35 anos vai à cerimônia com boas chances de abiscoitar a premiação ao lado do produtor John C. Donkin.
Injustiças e torcidas
Deixando os brasileiros de lado e analisando a lista completa de indicados ao Oscar, é bóbvio que ausências serão mais ou menos sentidas. Eu, de minha parte, elenco o meu rol particular de ausências particulamente lamentadas, a começar por Scarlett Johansson, cuja atuação em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, é irretocável. Pena que na campanha para o Oscar a distribuidora optou por trabalhar a indicação de Johansson para o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante quando ela é claramente a atriz principal do filme, dispersando possíveis votantes em sua atuação. Tal fato abriu brecha para a surpreendente menção de Keisha Castle-Hughes, que aos 13 anos de idade tornou-me a mais jovem candidata à estatueta de Melhor Atriz por seu papel em O Encantador de Baleias. Nesta categoria em particular não disfarço minha torcida pela vitória de Naomi Watts, maravilhosa em 21 Gramas, do mexicano Alejandro González Iñárritu. Entretanto, é quase certo que a estatueta irá parar nas mãos de Charlize Theron, que ao interpretar uma serial killer em Monster repetiria o mesmo itinerário de Nicole Kidman, que só venceu o Oscar após ser enfeiada pela maquiagem para personificar Virgínia Woolf em As Horas.
Lamento ainda as não-indicações da dociamarga comédia alemã Adeus, Lênin a Melhor Filme Estrangeiro, Bill Nighy (que rouba a cena como o cantor decadente em Simplesmente Amor) a Melhor Ator Coadjuvante, do script de Guillermo Arriaga para 21 Gramas para Melhor Roteiro Original e de Ônibus 174, o contundente documentário dirigido por José Padilha. No entanto, posso dizer que se a trilogia de O Senhor dos Anéis for finalmente laureada com os prêmios de Melhor Filme e Direção, já sairei satisfeito com a cerimônia. E que o Brasil, que anteriormente perdeu chances de amealhar uma estatueta com O Pagador de Promessas, O Quatrilho, O Que é Isso, Companheiro e Central do Brasil, traga enfim um Oscar para a terra de Gláuber Rocha, Luís Sérgio Person, Joaquim Pedro de Andrade e Roberto Santos.
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P.S.: Antes que alguém me venha com aquela chorumela repetitiva de que Oscar é uma premiação política que não vale nada, não custa lembrar que ela é decidida através dos votos de mais de 6.000 membros espalhados pelo mundo inteiro. Muito mais democrática, portanto, do que qualquer júri dos festivais de Cannes, Veneza ou Gramado. O Oscar é a principal premiação da maior indústria cinematográfica do mundo, e a simples indicação a uma de suas categorias deve ser celebrada como reconhecimento inequívoco da qualidade de um filme (mas sem as patriotadas hiperbólicas de costume, por favor).