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31.12.03
2003

Duplo twist carpado. Lula tomou posse. Romário bateu no torcedor. Belo, que coisa feia. Você participou de uma flash mob? Mataram Marcinho VP. Tô nem aí, tô nem aí. O Papa não morreu. Haroldo de Campos desnasceu. Espetáculo do crescimento? A pomada de Maurren Maggi. Saddam Hussein saiu do buraco. Freedom fries. Schwarzenegger governador da Califórnia. O Brasil conheceu Sérgio Vieira de Mello. A Columbia explodiu. Terremoto no Irã. Preta Gil ficou pelada. Dóris maltratava os avós. Crazy in Love. Meligeni ganhou a medalha de ouro. Michael Jackson foi algemado. Silvio Santos não morreu, Roberto Marinho sim. Hebe Camargo mataria Champinha. A Sars assustou o mundo. Jogaram uma galinha preta na Martaxa. Jayson Blair inventava notícias. Rodrigo Santoro entrou mudo, saiu calado. Quer pagar quanto? Marc-Vivien Foe morreu no meio do jogo. Quem chega em Windhoek não parece que está em um país africano. Alexandre Pires chorou na Casa Branca. Ali Ismael Abbas perdeu o pai, a mãe, o irmão e os dois braços. Al-Sahaf, Ministro da Desinformação. Farah Jorge Farah esquartejou a amante. O resgate de Jessica Lynch foi forjado. Maria Rita foi hypada. Luana Piovani fuma e traga. Paris Hilton, musa pornô da Web. Celulares também servem pra telefonar? Michael Moore ganhou o Oscar. Explosão na Base de Alcântara. Tríplice coroa para o Cruzeiro. Experimenta, experimenta! Descobriram o THG. Morreu o chinês espancado na cadeia. Egüinha Pocotó. David Kelly foi suicidado? Operação Anaconda. 130 mil desempregados queriam ser garis. Os juros vão baixar? Ricardo Berzoini não gosta de velhinhos. Palmeiras e Botafogo não viraram a mesa. Maluf foi detido em Paris. Benedita da Silva viajou para a Argentina. Júnior amarelou no Corinthians. Britney e Madonna se beijaram, Clara e Rafaela também. Dhomini ganhou o Big Brother. Schumacher hexacampeão. Justin Timberlake popstar. Chineses vão ao espaço. O alemão comeu literalmente seu amigo da Net. O domingo ilegal do Gugu. A onda dos fotologs. João Gordo brigou com Dado Dolabella. Luciana Vendramini voltou. Heloisa Helena foi expulsa do PT. Gabeira sonhou errado? ACM grampeou o telefone da ex-namorada. Morreu Rolando Lero. Faltou luz em Florianópolis. O presidente da Bolívia renunciou. Ronaldo se separou da Milene. Onde estavam as armas de destruição em massa? Bush Jr. trouxe peru no Dia de Ação de Graças. A Parmalat faliu. William Bonner chorou no Jornal Nacional. Johnny Cash, the man comes around. Gabriela, sou da Paz.

2004 será melhor. Feliz Ano Todo!



29.12.03
Quando eu era criança...

Não é fácil ser adulto. Basta dar uma passada de olhos pelas manchetes dos jornais para que o ceticismo corroa nossa alma: violência, desemprego, recessão, terrorismo. Às vezes é até uma tarefa inglória alimentar sonhos, quando estamos tão ocupados procurando maneiras de como arranjar dinheiro para pagar as contas no final do mês. Como diria meu amigo Mário, "a vida é que nem rapadura, é doce mas é dura".

É por essas e outras que admiro tanto as pessoas que, mesmo batalhando no dia-a-dia pela sobrevivência, conseguem manter viva a criança dentro delas. Não é tão difícil identificar alguém assim em meio à multidão acinzentada: procure por alguém com riso espontâneo, capacidade de rir de si mesmo, mousepad com estampa do Snoopy e que possua a mania de fazer origamis no meio do serviço ou encontrar nuvens com formato de Bart Simpson pairando no céu.

Imaginação, eis o diferencial. O aspecto que mais admiro na infância está na capacidade desconcertante que as crianças possuem em enxergar cada detalhe do dia-a-dia de maneira espontânea, talvez por ainda não terem sido bitoladas pela visão acachapante dos adultos. Porque uma criança possui a mente aberta, seja para acreditar em Papai Noel ou coelhinho da Páscoa, seja por recriar as coisas do mundo de acordo com o poder de sua imaginação.

Clique na figura e visite o excelente site I Used to Believe.Ins-pirado no site I Used to Believe, que descreve crenças e recordações infantis de internautas do mundo inteiro, faço a seguir um Top 10 de reminiscências e coisas nas quais acreditava quando era criança. Algumas lembranças podem soar tolas hoje, mas ao mesmo tempo me dão saudades de uma época na qual eu era menos cético e mais inocente.

* * * * *

1) Quando eu era criança, acreditava que as estrelas eram os olhos de Deus, que piscavam de vez em quando para a gente apenas para que soubéssemos que havia um cara lá em cima de olho nas traquinagens que aprontávamos.

2) Quando eu era criança, assistia aos desenhos do Ligeirinho e me encantava ao ver aqueles feijões mexicanos que pulavam sozinhos. Uma das maiores frustrações de minha infância foi essa: nunca comi feijões que pulam.

3) Quando eu era criança, meu pai dizia que eu devia cuspir longe as sementes de melancia, porque se engolisse uma delas por acidente nasceriam outras melancias dentro do meu estômago. Pensava comigo mesmo: "ué, será que é assim que as mães ficam grávidas?".

4) Quando eu era criança, mantinha sempre os meus olhos atentos ao chão, porque acreditava piamente que um dia encontraria uma lâmpada mágica igual à do Aladim. O único problema é que o gênio provavelmente só saberia falar árabe, e eu ficava angustiado pensando em como conseguiria me fazer entender. Aliás, eu tinha na ponta da língua o primeiro pedido que faria ao gênio: "quero que o senhor me conceda mais cinqüenta desejos!".

5) Quando eu era criança, assisti a uma reportagem sobre um tal "morto que riu". A matéria relatava que durante um velório um dos presentes resolveu tirar uma foto do morto dentro do caixão. No entanto quando ele foi revelar os negativos levou o maior dos sustos, porque o morto aparecera sorrindo na fotografia. Até hoje sinto calafrios toda vez que lembro da cara do finado (sim, o "Fantástico" exibiu o retrato do mesmo no final da matéria). A propósito, eu também tinha medo de qualquer reportagem apresentada pelo Hélio Costa.

6) Quando eu era criança, acreditava que sempre chovia nos dias de Finados. E que essa chuva era na verdade as lágrimas derramadas pelos mortos que ficavam emocionados ao ver suas famílias visitando (ou não) seus túmulos.

7) Quando eu era criança, minha mãe dizia que se eu imitasse um gago por mais de cinco minutos, ficaria assim para sempre. Desde então, toda vez que eu imitava um ga-ga-gago, ficava de olho no cronômetro do meu relógio digital e esperava até que dessem exatamente quatro minutos e cinqüenta e nove segundos, para cessar a brincadeira bem em cima do deadline.

8) Quando eu era criança, me apaixonei irremediavelmente pela Daphne da Turma do Scubidu. Talvez seja essa a razão da minha atração por ruivas, sejam elas pintadas ou não.

9) Quando eu era criança, morria de medo de ficar engasgado com uma bala Soft. Certo dia, batata: realmente me engasguei com uma que ficou entalada na garganta. Fiquei tão desesperado que comecei a correr estabanado pelos corredores da casa da minha avó procurando por ajuda; no susto, acabei engolindo a maldita. Nunca mais pus uma Soft na boca.

10) Quando eu era criança, não conseguia entender como funciona o tal do Amor (aliás, o adulto aqui continua sem entender patavina nenhuma). Ficava imaginando: "pôxa, mas e se a minha alma gêmea morar na Finlândia ou na Nova Zelândia? Como a gente vai fazer pra se encontrar?".

P.S.: versão remixada e remasterizada de antigo texto reeditado em formato de Top 10 especialmente para o site das Garotas Que Dizem Ni.



26.12.03
Tempus fugit

"Quem mata o tempo injuria a eternidade".
(Henry David Thoreau)

Estamos no limiar de um ano novo, mas o que isso significa? Na prática, a troca de datas no calendário não muda muita coisa, a não ser o fato de que precisaremos ficar mais espertos na hora de preencher cheques. O tempo não muda, hoje é o amanhã de ontem.

Relógio encontrado entre os escombros de Hiroshima. Os ponteiros pararam no exato momento em que a bomba atingiu a cidade: 08:15.Relógios, calendários, agendas e cronômetros não passam de artifícios que nos recordam de compromissos assumidos e carnês de prestações pra pagar. Tentativas pífias de algemar o Tempo, esse bicho esquisito que teima em escapar por entre nossos dedos enrugados. É assim que nos prendemos ao calabouço dos ponteiros, à senzala das agendas, à penitenciária do rádio-relógio que diariamente violenta nossos ouvidos e decapita sonhos antes que saibamos como terminam seus enredos oníricos.

A história de nossos tempos é a saga de uma sociedade de pessoas bocejantes. Indivíduos que dormem cada vez mais tarde e acordam cada vez mais cedo, na necessidade premente de driblar congestionamentos e esticar dias cujas 24 horas mal dão para dar conta de todo o serviço, mastigar decentemente as refeições, ir à academia, lavar a roupa, levar as crianças ao colégio, fazer os deveres de casa, ir à happy hour com o pessoal do serviço, assistir à novela das oito (que só começa às nove), dormir e ter algumas parcas horas de sono antes que o desgraçado despertador toque novamente.

Nossos relógios biológicos são reajustados a fórceps. A pressa com que tudo muda faz com que apertemos enésimas vezes o mesmo botão do elevador, zapeemos os canais de televisão sem possível repouso dos olhos, apressemos nossos passos além do nosso ritmo natural, engulamos pedaços mal mastigados de fast food. Poucos fatos simbolizam tão bem a loucura de nossos dias quanto a artrite precoce da ovelha Dolly. É, meus caros: nem a ciência é capaz de retardar a inexorabilidade da natureza. Não se acelera impunemente a passagem natural do Tempo.

Tempus fugit. Frente à volatilidade contemporânea, nossos metabolismos escangalhados pedem por uma redinha preguiçosa pra deitar. Este é um dos meus objetivos para 2004: buscar resgatar a capacidade de contemplar os sorrisos extraviados na multidão que atropela a si mesma na digestão precoce do cotidiano.



25.12.03
Coelhinho da Páscoa mandou avisar...

Encontrei a ilustração aqui: http://www.stormy.org.
Contudo, a despeito das lorotas que contaram pra você com o intuito de te tapear e fazer com que você parasse de puxar o cabelo da irmãzinha e de queimar formigas no quintal com uma lupa, espero que você tenha se comportado bem em 2003, e que alguém lá em cima saiba reconhecer isso de alguma maneira. Torço ainda para que você não tenha exagerado no chester da ceia desta madrugada, e que você tenha sorrido e feito alguém bacana sorrir ontem, hoje e sempre. Apesar de minha crença em Deus não ser atrelada a nenhuma religião em especial, admiro a figura de Jesus Cristo, e quero acreditar que o espírito da esperança que perpassava as palavras daquele cujo nascimento celebramos hoje não tenha se dissipado em meio a faturas de cartão e reprises de filmes melosos na TV.

P.S. 1: Encaminhei nestes dias um e-mail a todos os meus contatos com o título "Mensagem de Desnatal". Se você não o recebeu, das duas uma: ou o seu endereço está desatualizado, ou a minha desorganização fez com que eu deixasse de cadastrar seu e-mail. Aos que não receberam ainda meu texto, peço um enorme favor: ajude a colocar um pouco de arrumação em meu caótico universo pessoal e escreva-me um e-mail com o subject "Você me esqueceu mas ainda há tempo de te perdoar".

P.S. 2: A quem já recebeu a mensagem e ficou um tanto ressabiado com o tom impessoal da mesma, peço desculpas: nem se contratasse uma secretária eu daria conta de mandar e-mails pessoais a cada um de meus contatos. O devido toque pessoal será dado a partir dos feedbacks que receber de vocês. Aliás, foi este o motivo pelo qual optei por mandar um e-mail em vez de simplesmente postar o texto por aqui: uma das minhas resoluções de ano novo é de restabelecer um contato mais decente com cada um que me escreve. Freqüentar uma academia e ganhar o iBest são outras resoluções que espero cumprir no ano que vem. :)

P.S. 3: Em sua mais recente atualização, o belo site pessoal da escritora Sara Fazib publica alguns textos que escrevi. Clique aqui para conferir minha breve coletânea, mas não deixe de navegar por toda a página, repleta de poemas, contos e artigos de colaboradores da mais fina estirpe.



19.12.03
Drops

Clique na imagem e envie a foto de Sergio Fonseca como webcard para um amigo.

- Será que Deus apiedar-se-ia de minha alma se eu me regenerasse de vez?
- Depois dessa mesóclise, provavelmente não.

* * * * *

- Amor, perceba: foi apenas uma foda. Com você, eu faço amor. E isso faz toda a diferença.
- Diferença é o que você vai ver na sua conta bancária, depois da pensão que vou cobrar na Justiça depois do divórcio!

* * * * *

Quem diria. Depois de tanto tempo, você ainda é a mulher mais linda de todo o universo. Eu ainda me lembro de quando éramos namoradinhos de infância e andávamos de mãos dadas, os braços balançando como se fossem pêndulos de um relógio de parede. Será que você ainda se lembra de que brincávamos de esconde-esconde com a lua, e ríamos ao perceber que ela sempre nos encontrava? Sim, mocinha, você ainda tem o poder de mesmerizar meus sentidos. Mas agora você é casada, eu também, a vida nos separou e eu não quero lembrar dos porquês, agora sou feliz com minha esposa e meus três filhos, e eu jamais terei a coragem de dizer que em meu mundo nostálgico de céu azul e lembranças edulcoradas você ainda usa marias-chiquinhas, tem aparelho nos dentes e será para sempre a mulher da minha vida.

* * * * *

- Eu sou um babaca, eu sei, nem precisa me falar.
- ...
- Sei lá, acho que ainda sou muito imaturo pra mergulhar de cabeça num relacionamento.
- ...
- E, pôxa, você merece alguém muito melhor do que eu.
- ...
- Eu só espero que você possa pensar em mim com carinho.
- Olha Carlos, se você me prometer que vai calar a boca, enfiar esses teus clichês de fim de relacionamento no meio do seu cu, sair desta casa neste exato momento e nunca mais olhar para trás, talvez eu possa apenas te mandar à merda em vez de desejar que uma manada de elefantes sapateie em cima do teu saco. Porra, você consegue me deixar mais desbocada que filme brasileiro!

* * * * *

- Depois dessa, fiquei com a consciência pesada.
- Nem me fale. Se você conhecer um endocrinologista para a alma, me avise.

* * * * *

Créditos finais: escrevi os textos acima ins-pirado no formato de Crônicas de Quase Amor, livro de Fabia Vitiello que recomendo enfaticamente (clique aqui para adquiri-lo), o primeiro de uma série de aquisições literárias que fiz por conta do meu 13. salário. As nuvens foram clicadas por Sergio Fonseca (que além de fotógrafo também é escriba de mão cheia), e o gif animado ao lado é de cumpadi Matusalém Matusca.



17.12.03
Então é Nataaaaal

Antes de mais nada, uma pergunta para os leitores fora de São Paulo: é verdade que são só os paulistas que chamam amigo oculto de amigo secreto?

Pois bem, taí uma instituição natalina que não consigo entender. Qual é a lógica de participar de uma brincadeira na qual você não raramente sorteia um colega que mal conhece? Não seria muito mais bacana e prazeroso dar presentes a alguém que você genuinamente aprecia, em vez de se arriscar a ter de agradar algum desafeto? E isso para não falar nas ocorrências em que os participantes sondam os demais para descobrir quem sorteou quem, a fim de trocar os nomes de seus camaradas nem um pouco secretos.

Outra: por que participar de amigo secreto com lista de presentes? Isso não tira toda a espontaneidade da coisa? Há quem diga que esse procedimento serve para que ninguém fique frustrado com o mimo que ganhar; balela. Na última vez em que cometi o despautério de entrar em um organizado no trabalho, escrevi na lista que gostaria de ganhar um CD do Fab Four. Pois bem, fui presenteado com um singelo "Orquestra Tabajara Interpreta The Beatles", com versões mais toscas que a cover de "Happy Xmas (War is Over)" na qual Simone assassinou John Lennon pela segunda vez.

Amigos secretos com limitação de preço para os presentes são complicados (o que vai ter de incauto ganhando CD pirata...). E as tais trocas de mensagens anônimas entre os participantes não raramente acabam em barafunda (já testemunhei de tudo, desde admirador que aproveitou a ocasião para escrever bilhetes depravados que fariam o Marquês de Sade corar, até "amiguinhas" que desaguaram toda a sua encalacrada rivalidade em notas com fofocas sobre transas no banheiro com o chefe ou delações das colegas que empesteavam o lixo do banheiro feminino com absorventes ensangüentados).

Não me entendam mal: tirando os mercantilismos e as hipocrisias peculiares da época, eu gosto do Natal. Eu até participaria de bom grado de um amigo secreto, desde que conhecesse todos os participantes (não sou desses caras que simulam estar imbuídos pelo espírito natalino e fingem intimidade com qualquer um que aparece pela frente). Mas enfim, minha implicância com brincadeiras de amigo secreto talvez seja originária dos traumas fomentados toda vez que participei de um. A primeira ninguém esquece: foi na época em que eu estudava no Colégio Raio de Sol, e eu devia ter lá meus tenros 10 ou 11 anos de idade. Presenteei a Priscila com uma mochila do Snoopy, e em troca ganhei do Fábio uma caixa com 12 lápis de cor da Faber-Castell. Pfuf...

(ilustração de Délia, publicada originalmente no blog Bocejos)



15.12.03
Meninos eu vi

Simplesmente Amor

Existem dias em que você precisa desencanar das buzinas que ressoam em seu ouvido no meio do trânsito, do colega de trabalho que por algum motivo misterioso acha que você está interessado no problema de próstata do tio dela e lhe dá mais informações do que você gostaria de saber, da conta bancária que, feito o Pólo Norte, vive abaixo de zero... Enfim, você entendeu. Nesses dias, você vai ao cinema como quem mergulha em uma piscina num dia de calor senegalês, simplesmente porque merece curtir seu quinhão de ócio despreocupado e precisa sentir-se melhor em um mundo que não lhe dá tréguas ultimamente.

Pois bem, o que você precisa é de uma boa dose de "cinemão tarja preta": ou seja, aquele tipo de filme que faz você sair do cinema anestesiado, como se tivesse injetado Prozac na veia, sonhando com um mundo mais amoroso e beijos escandalosos em meio ao público, com pessoas batendo palmas à sua volta como numa daquelas comédias da Meg Ryan. Só que, em vez de Ms. Ryan, o filme em questão possui em seu elenco quase todos os atores britânicos conhecidos (e isso porque não arranjaram papéis para Judi Dench, Kenneth Branagh e Sean Connery).

Simplesmente Amor é a estréia na direção de Richard Curtis, roteirista de todas as comédias românticas inglesas bem sucedidas dos últimos tempos (Quatro Casamentos e um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill, O Diário de Bridget Jones). Forjado pela escola de roteiristas da BBC e calejado pelo sucesso de suas obras anteriores, Curtis cercou-se de um elenco repleto de estrelas e cunhou um roteiro que entremeia oito ou nove histórias de amor em meio a gags que quase sempre funcionam. De quebra, embrulhou tudo em uma trilha sonora que reúne diversas pepitas pop, arrematando com a obra-prima God Only Knows, dos Beach Boys. Tinha como dar errado? As salas de cinema lotadas no mundo inteiro provam que não.

Simplesmente Amor é um filme que deve ser desfrutado deixando-se o senso crítico de lado. Não ligue para as situações inverossímeis, apenas mergulhe em um mundo paralelo em que é possível a um inglês aprender o idioma português em apenas uma semana, ou no qual um primeiro-ministro inglês resolve ignorar décadas de subserviência britânica aos interesses dos Estados Unidos tão somente porque o presidente norte-americano assediou a funcionária por quem está secretamente apaixonado. O filme de Richard Curtis está aí para nos lembrar que tudo que necessitamos é de Amor, e frente a isso os cânones que movem o universo são totalmente reconstruídos. Reitero meu conselho: não cobre realismo. Simplesmente permita-se sair do cinema com um sorriso nos lábios. :)

Para encerrar, uma curiosidade inútil: a piada em que o garçom chavequeiro fala mal da comida do bufê do casamento é reciclagem de uma gag que Curtis havia criado para o roteiro original de Quatro Casamentos e um Funeral que não havia sido aproveitada por mera falta de contexto no filme (só quem possui em casa o livro que a Editora Rocco publicou com o script original sabe disso). Cinema, assim como em toda arte contemporânea, vive disso: uma constante reciclagem de idéias.

* * * * *

As Invasões Bárbaras

Ao contrário de Simplesmente Amor, Invasões Bárbaras, filme franco-canadense dirigido e roteirizado por Denys Arcand, é voltado a platéias mais restritas. É uma obra típica para exibição nos Espaços Unibancos e Mostras de Cinema da vida: pretensiosamente artística, discorre sobre o inefável tema da morte, e a partir desse pressuposto aborda outros assuntos como conflito de gerações, o soçobramento das utopias comunistas e a correspondente crise da intelectualidade a partir dessa crise ideológica. No entanto, ao fim da sessão, pessoas saem dos cinemas com olhos marejados, exatamente como em Simplesmente Amor. E o fato é o seguinte: As Invasões Bárbaras, a despeito do seu verniz intelectual, não passa de mais uma obra destinada a arrebatar platéias.

Muito longe de ser uma obra-prima, é um filme extremamente conservador e conformista, que narra, basicamente, as últimas semanas de vida de um professor universitário que sofre de um câncer terminal. Amedrontado diante da proximidade da morte, olha para trás e constata o fracasso de seus ideais socialistas, ao mesmo em que aceita o amparo financeiro de um filho com quem nunca se deu bem: um yuppie que ganha dinheiro especulando com commodities, a personificação do capitalismo que sempre combateu.

Bobviamente pai e filho acabarão por se reconciliar no final, com direito a cenas proibidas para diabéticos. Nesse ínterim, veremos o bom garoto especulador subornando o sindicato dos funcionários da instituição médica no qual seu pai está internado, custodiar melhorias exclusivas para seu leito hospitalar (e os outros pacientes que se virem com o sistema público de saúde) e ainda financiar a heroína que dopará seu velho a fim de poupá-lo das dores da morte (afinal de contas, dinheiro não é problema: é solução).

Você pode (deve) me perguntar: oras, mas o que há de tão diferente entre Simplesmente Amor e As Invasões Bárbaras, que faz com que você releve o universo edulcorado pelo primeiro, enquanto mostra certa indignação com as situações retratadas pelo segundo? Simples: enquanto o filme de Richard Curtis é explicitamente uma obra de entretenimento (com piadas notadamente burlescas, vide as seqüências do inglês metido a Don Juan nos EUA), o segundo almeja ser um retrato artisticamente realista do quadro ideológico contemporâneo. Entretanto, por trás de seu roteiro bem ajambrado, o filme de Arcand traça um quadro assustador de conformidade com o individualismo de nossos dias: enquanto o sonhador comunista aguarda pela morte dopado o tempo inteiro, o capitalista bem-sucedido observa com complacência as idiossincrasias "bestas" do pai, enquanto resolve quaisquer imbróglios que surgem com uma propina aqui e ali.

"Oras, mas é apenas um filme", você me diz. Não sei, eu realmente não sei. Afinal, enquanto um filme discorre a respeito da importância do Amor em nossas vidas, o outro parece tentar afirmar a todo instante que o neoliberalismo é a resposta mais adequada aos dilemas filosófico-ideológicos da contemporaneidade, e que as lutas travadas pela geração dos 60s caíram em um vazio anestesiado por drogas e destinado à aniquilação. Não posso deixar de me sentir incomodado pelo discurso por trás de As Invasões Bárbaras, filme tão semelhante (na capacidade de entreter e comover seu público) e tão distinto (nas ambições artísticas e no discurso ideológico) de Simplesmente Amor. Entre a ridicularização desqualificante de toda uma geração de utópicos engendrada pelo primeiro, e o escapismo descompromissado do segundo, opto sem dúvida nenhuma pela comédia inglesa.



14.12.03
Rápidas rasteiras

- Stálin não morreu, encarnou no Zé Dirceu!
- Genoíno é um bom companheiro, ninguém pode negar, senão vai expulsar!

Gritos de guerra de MILITANTES DO PT, em manifestação contrária à expulsão do partido da senadora Heloísa Helena (AL) e dos deputados Luciana Genro (RS), Babá (PA) e João Fontes (SE), que votaram contra a reforma da Previdência defendida pelo governo Lula. De nada adiantaram os protestos: a ala dos "radicais" foi expulsa do PT. Sobre a senadora alagoana, faço uma recomendação especial: a leitura da crônica Heloísa de Tróia, de Paulo Polzonoff Jr.

* * * * *

- Senhoras e senhores, nós o pegamos!

PAUL BREMER, administrador americano no Iraque, ao anunciar a captura de Saddam Hussein, o homem mais procurado no mundo depois de Osama Bin Laden e Wally. Após a prisão do ex-ditador, tevês do mundo inteiro deleitaram-se ao exibir as imagens de seu exame médico, descrevendo como seus dentes estavam podres e seus cabelos, repletos de piolhos. Aguardem as cenas dos próximos capítulos: a eminente reeleição de Bush Jr. entremeada pela veiculação de tapes "inéditos" com a suposta voz de Osama Bin Laden veiculados através da Al Jazzera.

* * * * *

- Eu não sou essa bonequinha, essa santinha que vive num mundo cor-de-rosa e prega a virgindade. Nunca preguei virgindade, entendeu? Nunca fiz nada com a intenção de ser exemplo.

- Nos últimos cinco anos tive quatro namorados e fiquei solteira por apenas seis meses. Posso dizer que tive várias oportunidades de fazer o que quis. Conheço os métodos anticoncepcionais e nunca fiz nenhuma loucura. Se eu transei e com quem é coisa que nem a minha mãe sabe. Cada um que pense o que quiser.

Algumas das declarações da cantora SANDY dadas em entrevista à revista Isto É concedida à repórter Sara Duarte, em um claro movimento de redefinição da sua persona pública. De resto, mais uma reedição de um clichê surrado da cultura pop: a mulher pueril que "descobre sua sensualidade". Como nos casos de Britney Spears (ex-garota do "Clube do Mickey", assim como Christina Aguilera), Angélica, Simony (ex-Turma do Balão Mágico), Wanessa Camargo, Meg Ryan (que aparece nua em In The Cut, filme ainda inédito no Brasil), Julie Andrews (a eterna Noviça Rebelde, que exibiu os seios em S.O.B., de 1981), Regina Duarte (ex-"namoradinha do Brasil", que chocou muitos fãs ao protagonizar cenas de sexo em Além da Paixão, de 1985), Drew Barrymore (que ainda era mais conhecida como a garotinha do filme "E.T." antes de posar para a Playboy em 1995)...



"Mas eu te disse, eu te disse..."

Se você não lembra dessa motoquinha pentelha do desenho de Hanna Barbera Carangas e Motocas, é porque não é do meu tempo. Ai, minhas costas...

Não quis dar uma de Mãe Dinah, mas eu bem que cantei a bola em post do dia 2 de dezembro: o Blogger Brasil passará a ser exclusivo para assinantes da Globo.com a partir do próximo dia 16. Por enquanto, os usuários já cadastrados poderão continuar tendo acesso ao serviço. Até quando, sabe-se lá.

A todos os usuários do Blogger tupiniquim, recomendo fortemente uma leitura atenta em seus Condições Gerais de Utilização. Em especial, às seguintes passagens:

- "A GLOBO não realiza e não se responsabiliza por realizar a armazenagem e backups do conteúdo dos blogs dos Usuários, pelo que recomenda aos mesmos que realizem uma cópia extra de todas as mensagens de texto, arquivos de imagem e som que porventura disponibilizem no blog e desejem manter arquivado."

- "Caso a GLOBO venha a instituir qualquer forma de cobrança pela prestação do Serviço, o Usuário será previamente notificado neste sentido, sendo concedido ao mesmo prazo razoável para que este decida se deseja, ou não, continuar a usufruir do Serviço, sem que seja necessário realizar qualquer pagamento à GLOBO durante o período de aviso prévio. Findo o prazo de aviso prévio, e caso o Usuário não deseje continuar a utilizar o Serviço de forma onerosa, a GLOBO irá deletar todos os seus arquivos presentes em seus servidores".

- "A GLOBO se reserva o direito de colocar anúncios de qualquer natureza automática e randomicamente, quando for acessado qualquer blog de qualquer Usuário. Ao aceitar as presentes Condições Gerais o Usuário confere à GLOBO o direito de fazê-lo. Os anúncios poderão ser realizados nos formatos de 'banners' e 'pop-ups'".

Ninguém poderá reclamar que não foi avisado com antecedência: a Globo.com, após incutir em seus usuários o vício por blogs, desde já avisa seus clientes cooptados que a fatura será cobrada em breve. Nada de condenável nessa prática: a despeito dos esforços dos Babás e Heloísas Helenas da vida, vivemos em uma sociedade capitalista, e é justo que os caras queiram garantir seu quinhão de lucro. Assim, recomendo desde já que todos os usuários do Blogger Brasil façam cópias de seus posts e imagens. Enquanto isso, preparem-se para ver banners da Coca-Cola e Casas Bahia invadindo o template de seus blogs (ou janelas de pop-up, à semelhança do que já acontece nas páginas hospedadas no Weblogger). "Olhou, levou!".



12.12.03
iBest 2004 (cabô)

Atenção: hoje é o último dia para votar em Pensar Enlouquece no Prêmio iBest Blog. Quem votou votou, quem não votou fica desde já convocado para participar da próxima fase da premiação, mas só no ano que vem. :)

Em tempo: meus agradecimentos a Beatriz Bandoli, Breno Pessoa, Christiane de Assis Pacheco, Claudia Letti, Daniel Rego Barros Junior, Déa Ramos, Drex Alvarez, Eduardo Nasi, Fabiano Lauar, Guto Rocha, Maria Elisa Guimarães, Nelson Moraes, Neuza Paranhos, Nicole Bernardes, Rafael Capuano da Cruz, Tiagón e Viviana Agostinho pela força dada nestes últimos dias!



11.12.03
Dia da Publicação de Textos sobre Cinema

Há exatamente um ano decretei, sem qualquer motivo especial, que 11 de dezembro seria para mim o Dia da Publicação de Posts Sobre a Sétima Arte. Repito, pois, a dose em 2003, e inicio a série de textos com um poema publicado originalmente no Spam Zine edição 013. Acomodem-se nas poltronas, tragam seus sacos de pipoca, desliguem celulares e... bom divertimento.

* * * * *

prendam os suspeitos de sempre

Isabelle Adjani em A História de Adele H, de François Truffaut

os olhos azuis de adele h. brilham na noite negra,
ela sempre aguardará por seu amado com lúcida e serena loucura.
- o amor é a mais negra das pestes, mas ninguém morre de amor, e quase sempre passa.

susan alexander kane grita para que forrest gump cale a boca.
norman bates observa deliciado a filha-neta de noah cross.
kowalski acelera seu dodge challenger em direção à luz perdida.
as luvas de gilda ainda evocam seu sexo doce e receptivo.
travis bickle sorri ao sentir o cheiro de napalm no ar.
blanche dubois sempre dependerá da bondade de estranhos.
michael corleone assobia melancólico a canção de nino rota.
norma desmond observa a tudo com olhos boquiabertos.
numa estrada empoeirada john huston orienta o seu elenco:
montgomery clift e clark gable entreolham-se cansados sem nada dizer,
mais uma vez marilyn esqueceu seu texto e ela cheira a mofo.

humphrey bogart morde a nuca suculenta de lauren bacall.
john wayne e steve mcqueen sorriem, sem pressentir o câncer ainda discreto.
pixote dorme, cego e inebriado, no colo de marília pêra.
toshiro mifune faísca estrelas ao manejar sua espada de samurai.
ginger e fred giram pelo salão disfarçando suas aversões mútuas.
bernard hermann assobia para hitchcock a trilha de vertigo.
ao fundo, james stewart personifica com perfeição um velho necrófilo,
devorando com o rabo do olho o decote de kim novak.
na sala do olvido, william holden agoniza, bêbado e solitário.

- nós sempre teremos paris.
aqui em texasville os mortos morrem de verdade, e precisam ser enterrados.
quanto a mim, sou apenas um figurante recortado um céu de celulóide,
que estraga todas as cenas sorrindo em direção à câmera.
(it's a wonderful, a wonderful life.)



Diálogos inesquecíveis

Quatro Casamentos e um Funeral, dirigido por Mike Newell e roteirizado por Richard Curtis em 1994. Segue abaixo a transcrição da seqüência em que a personagem de Andie MacDowell conversa com Hugh Grant sobre os amantes que teve na vida, e começa a contá-los nos dedos:

- O primeiro, é claro - difícil de esquecer. Agradável. Dois - pêlos nas costas. Três. Quatro. Cinco. Seis - foi no meu aniversário. No quarto dos meus pais.
- Que aniversário?
- Dezessete anos.
- Só chegamos aos dezessete?!
- Eu cresci no campo. Montes de feno para rolar. Tudo bem, sete - hummmm. Oito (faz com os dedos o sinal de alguma coisa muito pequena) - infelizmente, foi um choque e tanto. Nove - encostada numa cerca. Muito desconfortável, não tente. Dez - delicioso. Divino. Ele foi maravilhoso...
- Eu o odeio.
- Onze - evidentemente, dadas as circunstâncias, um desapontamento. Doze a dezessete - anos da universidade. Rapazes sensíveis, carinhosos, inteligentes, mas sexualmente falando, uma droga. Dezoito - partiu meu coração. Anos de sofrimento.
- Sinto muito.
- Depois veio o dezenove - que não me lembro, mas minha companheira de quarto afirma definitivamente que nós fizemos, duas vezes. Então, vinte. Meu Deus, não acredito que cheguei ao vinte! Vinte e um - língua de elefante. Vinte e dois - caía no sono a todo instante. Esse foi meu primeiro ano na Inglaterra.
- Sinto muito.
- Vinte e três e vinte e quatro juntos, foi uma coisa...
- O quê??
- Vinte e cinco - um encanto - francês. Vinte e seis - horrível - francês. Vinte e sete - ele não parava de gritar, foi constrangedor. Spencer, vinte e oito. O pai dele, vinte e nove...
- ?!?!
- Trinta - medonho. Trinta e um - oh, meu Deus. Trinta e dois - encantador. E então, meu noivo - trinta e três.
- Nossa! Então eu venho... depois do seu noivo?
- Não, você foi o trinta e dois. Enfim, aí está. Menos do que a Madonna, mais do que a princesa Di. Espero. E você? Com quantas já dormiu?
- Cristo, nada que chegue perto disso. A-hã. Francamente, não sei que merda tenho feito com meu tempo. Trabalho, provavelmente - é isso. Trabalho. Tenho trabalhado até tarde.

* * * * *

Fulaninha, dirigido por David Neves em 1986, em cena descrita impagavelmente por Gustavo de Almeida, jornalista e (ir)responsável pelo excelente blog Tem, Mas Acabou:

Roberto Bonfim está de camiseta sem manga, colar no peito, meio melado de suor, em uma cozinha de quinta categoria. Olha desconfiado para a mulher dele, a Zaira Zambelli, que frita um bife para um amigo do casal que passou mal. Intrigada com o olhar do marido, Zaira diz, "Que que é?". Segue-se uma breve pausa e Roberto Bomfim pergunta: "Que que é? Que que é? Que que é é o CARALHO!". Dito isto, acerta uma porrada na mulher. Todos aparecem para separar, Bomfim se desvencilha de todo mundo e começa o show: "AGORA EU É QUE SOU O ESCROTO AQUI, NÉ? EU QUE FAÇO FILME DE SACANAGEM, EU QUE DOU PORRADA EM MULHER? E VOCÊ, SEU BABACA QUE TÁ APAIXONADO POR GAROTINHA QUE NÃO TEM NEM PENTELHO? E VOCÊ, AÍ, SEU BROCHA, VAI FAZER TUA MULHER GOZAR, RAPÁ! E ESSE AÍ, BABACÃO, METIDO A INTELECTUAL? INTELECTUAL DE MEEEEEERRRRRRRRDA É O QUE TU É". Pano rápido ao fim da metralhadora giratória.

* * * * *

O Marido Ideal, boa adaptação da peça de Oscar Wilde, dirigida e roteirizada por Oliver Parker em 1999. A seguir, a seqüência em que os personagens de Rupert Everett e Minnie Driver duelam verbalmente:

- Está atrasado.
- Sentiu saudade?
- Demais.
- Então sinto não ter atrasado demais. Adoro que sintam saudade.
- Que egoísmo!
- Sou muito egoísta.
- Sempre me fala de seus defeitos.
- Ainda não contei a metade.
- E os outros são ruins?
- Terríveis. Não consigo dormir quando penso neles.
- Bem, eu gosto de seus defeitos, e não dispensaria um único.
- O que mostra seu bom gosto.

* * * * *

• Os diálogos abaixo, dignos de um Shakespeare, foram extraídos de um dos meus filmes de cabeceira, O Sétimo Selo, obra-prima de 1957 dirigida e roteirizada por Ingmar Bergman:

- É um inferno com as mulheres, e pior sem elas. A melhor coisa é matá-las enquanto se pode.
- Mulheres são inoportunas e insensíveis.
- Bebês e fraldas sujas.
- Unhas e palavras afiadas.
- Tapas, socos e uma sogra.
- E quando você quer dormir...
- Outra melodia.
- Lágrimas e gemidos que acordariam um morto.
- "Por que você não me dá um beijo de boa noite?"
- "Por que você não canta?"
- "Você não me ama mais como antes". "Você não notou a minha mudança". "Você apenas virou-se e cantou". Diabos! Agora ela se foi, seja grato.

(...)

- Talvez eu a ame.
- Talvez você a ame. Vou dizer-lhe uma coisa idiota, amor é uma palavra para luxúria, mais luxúria, trapaça, falsidade e comportamentos idiotas.
- Bem, mas isso machuca de qualquer maneira.
- O amor é a mais negra das pestes, mas ninguém morre de amor, e quase sempre passa.
- O meu não passa.
- É claro que passa. Raramente um par de idiotas morre de amor. Se tudo é imperfeito nesse mundo imperfeito então o amor é perfeito nessa perfeita imperfeição.
- Que animador. Toda essa conversa e você acredita nas suas tolices.
- Quem disse que eu acredito? Sou um sábio. Peça meu conselho e terá em dobro.

* * * * *

• Woody Allen não poderia estar de fora desta breve compilação. O diálogo abaixo, entre o personagem de Allen e uma monitora de um museu de arte, é de Sonhos de um Sedutor, filme de 1972 dirigido por Herbert Ross a partir de uma peça de teatro escrita por Woody:

- Este quadro é de Jackson Pollock, não é?
- Sim.
- O que ele representa para você?
- Ele representa a negatividade do universo. O abominável e solitário vazio da existência. O Nada. A condição do Homem forçado a viver em uma árida eternidade desprovida de Deus, como uma breve chama piscando no imenso vácuo com nada a não ser lixo, horror e degradação, presa em uma inútil camisa-de-força em meio aos cosmos negro e absurdo.
- O que você pretende fazer sábado à noite?
- Cometer suicídio.
- Ahn... E na sexta-feira?



Diálogos apócrifos

O cinema tem dessas coisas: algumas das citações mais famosas de filmes na verdade nunca foram ditas. Estes são os exemplos mais conhecidos:

- "Me Tarzan, you Jane"

Em Tarzan, o Homem-Macaco, filme dirigido por W.S. Van Dyke em 1932, a cena clássica que mostra o encontro entre Tarzan (interpretado por Johnny Weissmuller, ex-campeão olímpico de natação) e Jane Parker (Maureen O'Sullivan) apresenta o seguinte diálogo:

Jane: - (apontando para si mesma) Jane.
Tarzan: - (ele aponta para ela): Jane.
Jane: - E você? (ela aponta para ele) Você?
Tarzan: - (batendo com a mão no peito) Tarzan. Tarzan!
Jane: - (enfatizando a resposta correta) Tarzan...
Tarzan: - (apontando o dedo para lá e para cá) Jane. Tarzan. Jane. Tarzan...

* * * * *

- "Play it again, Sam"

Nem Rick Blaine (Humphrey Bogart), nem Ilsa Lund (Ingrid Bergman). O diálogo mais famoso de Casablanca, clássico dirigido por Michael Curtiz em 1942, não é falado no filme. Ao solicitar ao pianista Sam (Dooley Wilson) para que toque a música que marcou seu romance com Rick, Ilsa na realidade diz:

- Play it, Sam. Play "As Time Goes By".

Já o personagem de Bogart é mais ríspido:

- You played it for her, you can play it for me! If she can stand it, I can! Play it!

A fala "Play it again, Sam" na verdade foi pronunciada pela primeira vez em Uma Noite em Casablanca, filme que os irmãos Marx estrelaram em 1946. E no entanto, nove entre dez cinéfilos não pestanejariam em jurar que ouviram tal diálogo da boca de Bogart ou Bergman. Coisas do cinema...

* * * * *

- "Elementary, my dear Watson"

O bordão clássico de Sherlock Holmes, personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle, jamais disse "Elementar, meu caro Watson" em qualquer um de seus livros. Desta vez, no entanto, estamos diante de um diálogo que sim, foi pronunciado em um filme. No caso, em O Retorno de Sherlock Holmes, dirigido e roteirizado por Basil Dean em 1929. O longa, apesar de ter recebido críticas negativas na época, possui o mérito de ter cunhado a frase que se tornaria a marca registrada do personagem, apesar de não aparecer em nenhum dos romances escritos por Conan Doyle.



10.12.03
Ah, Vendramini

Nelson Rodrigues dizia que todo homem tem as suas obsessões. Bem, "obsessão" talvez seja uma palavra exagerada, mas o fato é que sim, eu tenho lá as minhas manias e idiossincrasias particulares. Um exemplo besta: adoro cutucar meus ouvidos com grampos de cabelo, mesmo sabendo que esta não é lá uma atitude muito saudável. Outro: repito, recorrentemente, certos termos ad nauseam em meus textos, como "incauto", "bóbvio", "tergiversar", "inconteste", "beijabraço", "lobotomizado" e advérbios terminados com o sufixo "mente". Enfim: tergiverso, tergiverso.

Os leitores mais antigos deste blog já sabem que Luciana Vendramini ocupa um espaço em meu imaginário pessoal equivalente ao da garotinha ruiva para com o Charlie Brown. Contudo, não chegaria a qualificar minha admiração pela beleza de Ms. Vendramini como "obsessão". Para mim, é um mero amálgama de nostalgia com platonite aguda. Mas enfim, o fato é o seguinte: hoje, dia 10 de dezembro, minha eterna musa platônica completa 33 anos de idade. E, a julgar pelo ensaio assinado pelo fotógrafo francês Jérome Sainte-Rose na Playboy que está nas bancas, o tempo foi seu camarada.

Na primeira vez em que posou nua, Luciana tinha apenas 16 anos de idade e precisou da autorização dos pais para fazer o ensaio. Não fazia nem um ano que havia saído pela primeira vez da cidade natal (Jaú, no interior de São Paulo) a convite de Xuxa, que a conheceu em um desfile, simpatizou com aquela garota e a convidou para trabalhar em seu programa de TV como assistente de palco. Mal chegou à TV, Luciana Vendramini foi descoberta pelos olheiros da Playboy, que não perderam tempo e a convidaram para estrelar o mítico ensaio que marcou a puberdade de toda uma geração: nascia ali a ninfeta-mor dos anos 80. Detalhe: a revista aguardou quase um ano para publicar as fotos, procurando driblar eventuais complicações com o Juizado de Menores.

Após o sucesso do seu ensaio, Luciana Vendramini estrelou dezenas de comerciais (dentre os quais destaco um para os jeans Wrangler no qual ela interpretava uma freira rebelde que fugia do convento ao som de "Can't Take My Eyes Off of You", na voz de Frankie Valley, papel que consolidou minha paixão platônica pela garota de Jaú), foi Garota do Fantástico (repetindo os passos de outras beldades até então desconhecidas, como Paula Burlamaqui, Núbia de Oliveira, Mari Alexandre e Viviane Araújo), casou-se com o ex-vocalista do RPM Paulo Ricardo (com quem ficou por 9 anos), fez pequenos papéis em novelas globais como Vamp e Rei do Gado e em filmes como O Casamento dos Trapalhões.

Contudo, a contrapartida da fama lhe foi severa: Luciana sofreu por dois anos de TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), distúrbio que obrigava a modelo e atriz a cometer ações aparentemente sem sentido, como ficar sem abrir a porta de sua casa por um ano, lavar as mãos dezenas de vezes por dia ou ficar sentada em uma calçada por cerca de 26 horas. Durante esse período Ms. Vendremini desapareceu da mídia, chegando a ficar quase três anos sem ver TV, ler jornais ou ouvir rádio (o que me faz pensar que toda doença possui um lado positivo).

Recuperada, Luciana Vendramini voltou a atuar (em diversas peças de teatro) e, após insistentes convites anos a fio, resolveu finalmente aceitar um novo convite para posar nua (para o júbilo de fãs babões como eu). Uma rápida comparação entre as fotos da Playboy de 1987 e o ensaio desta edição de dezembro não me deixou réstia de dúvidas: a ex-ninfeta está muito mais bonita, sensual e apaixonante do que há 16 anos. Não que ela possua um corpo perfeito, como certas modelos com barriga definida e peitos siliconados. Olhos severamente críticos notarão que seus seios não exibem a mesma firmeza dos tempos de ninfeta, assim como algumas adiposidades em sua cintura. Para mim, são detalhes que tornam Luciana Vendramini ainda mais irresistível: uma passada d'olhos nas fotos da Playboy mostra que estamos diante de uma mulher de verdade, ao contrário das Barbies anoréxicas que se apresentam nas "fashion weeks" da vida.



8.12.03
Bizarrices do livro Guinness de recordes

Quando penso nos dias em que mais ri na vida, lembro de dois momentos. O primeiro foi quando assisti a "Um Convidado Bem Trapalhão", memorável comédia de Blake Edwards estrelada por Peter Sellers (conselho de amigo: se você estiver num daqueles dias macambúzios, tenha sempre à mão uma cópia deste filme. Os efeitos são mais eficazes que qualquer remédio de tarja preta). O segundo foi o dia em que Eduardo, um colega do 2. ano do colegial, mostrou seu talento para... arrotar.

Foi realmente expressionante: Eduardo era provavelmente o Roy Orbison ou o Pavarotti da arte de arrotar. Durante o intervalo entre as modorrentas aulas de química orgânica e O.S.P.B., ele deu seu show. Primeiro, ao proferir do fundo do âmago de seu estômago as letras do alfabeto de A a Z. Depois, desafiado pela roda que se formou ao seu redor, eructou um inacreditável arroto de exatamente 1 minuto e 37 segundos (jamais me esqueci dessa marca, cronometrada pelo Babão, outro de meus colegas de classe). A essa hora minha barriga já doía de tanto rir, mas os pratos principais ainda estavam por vir: interpretações musicais. Primeiro Eduardo proferiu a menos patriótica versão que já ouvi dos primeiros versos do Hino Nacional Brasileiro. Depois, para arrematar, regurgitou "Frère Jacques" de tal modo que cada vez que ouço essa musiquinha me contorço de rir só de lembrar daquela tarde. Não tenho mais notícias do Eduardo, mas penso que se ele fizesse recitais eu pagaria os ingressos com prazer.

Pois bem, todo esse preâmbulo nada edificante veio à minha memória depois que eu li a respeito do Livro Guinness dos Recordes, que recentemente comemorou a venda de seu exemplar de número 100.000.000. Primeiro, porque eu definitivamente gostaria de saber qual é o recorde mundial do arroto mais prolongado de todos os tempos. Segundo, por pensar nas pessoas que aparecem em suas edições por possuírem "talentos" tão inusitados quanto o do meu ex-colega Eduardo. Vide a figura ao lado, por exemplo: o inglês Garry Turner conseguiu o feito de colocar nada menos que 153 prendedores de roupa em seu rosto.

Mas o que leva pessoas a cometerem atos como colecionar 3.240 sacos de vômito de avião, comer 200 minhocas vivas em apenas 20 segundos ou colocar 1.903 piercings em seu corpo (caso da incauta da foto à esquerda, a brasileira Elaine Davidson, que posui inclusive um grupo de discussão na Internet reunindo seus fãs)? Com a palavra, Gilberto Cruz: "As pessoas que quebram recordes pessoais só estão mostrando para as outras que, se quisessem, fariam. Você não precisa fazer o que estou fazendo, mas pode bater seu recorde pessoal. O ser humano pode muito, é isso que a gente tem que botar na cabeça. Usamos pouco do nosso potencial".

Para quem nunca ouviu falar nele, Gilberto Cruz, 40, é formado em Marketing e possui nada menos que 150 certificados de cursos em seu currículo. Já exerceu dezenas de profissões, dentre as quais as de assistente de enfermagem, instrumentador cirúrgico de necrópsias e investigador de seguro. Nas horas vagas, busca alcançar sua meta sui generis: tornar-se o homem com mais recordes citados no Livro Guinness. Gilberto já teve a pachorra de ficar 55 horas montado em um cavalo, passar 67 minutos dentro de uma caixa de gelo, fazer 93.000 flexões e extensões de braços e pernas em 24 horas, ficar 4 dias inteiros sem dormir e 225 horas embaixo d'água. Entretanto, apesar de todas as marcas terem sido registradas oficialmente, os recordes batidos por Gilberto ainda precisam passar pelo crivo da equipe do Guinness antes de serem incluídos oficialmente no livro.

Enquanto nosso compatriota não é reconhecido pelo Guinness, o homem mais citado no livro permanece sendo o ídolo de Gilberto, o norte-americano Ashrita Furman, que já teve 78 recordes registrados, sendo que 20 deles permanecem insuperados até agora. Dentre outras façanhas, Ashrita passou 36 horas dando cambalhotas, caminhou 130 quilômetros equilibrando uma garrafa de leite na cabeça, fez 27.000 polichinelos ininterruptamente, deu 130.000 pulos de corda em 24 horas e equilibrou 75 copos de cerveja em seu queixo. A quem interessar possa: Ashrita na verdade nasceu com o nome de Keith Furman. Aos 15 anos, após uma crise existencial, conheceu um guru indiano, mudou o seu nome de batismo e começou a bater recordes com o intuito único de tentar atingir a "iluminação": haja nirvana...

Em tempo: você se interessou em ter seu nome imortalizado no Guinness? Então clique aqui e saiba como proceder, mas tenha paciência. A editora do livro, a inglesa Claire Folkard, recebe anualmente cerca de 65.000 pedidos de homologação de novos recordes. De repente, até o meu amigo Eduardo pode estar entre esses requerentes...



7.12.03
O maldito pão nosso de cada dia

Há um provérbio francês que afirma: "No mundo dos espertos, quem anda voa". Pois bem, a impressão que tenho é de que, se vivemos em um mundo realmente assim, pessoas honestas provavelmente rastejam. Não quero ser cínico ou desesperançoso, mas às vezes é uma tarefa árdua acreditar que vale a pena respeitar leis, não sonegar impostos e ser um cidadão exemplar.

Meu pai, por exemplo. Convencido por um amigo excessivamente empolgado, aplicou simplesmente todo o dinheiro recebido do FGTS (proveniente de uma firma de engenharia que o demitiu após quase trinta anos no emprego) nas tais Fazendas Reunidas Boi Gordo, sendo que o seu "camarada" chegara ao ponto de vender um apartamento no Morumbi para investir em títulos dessa empresa. Pois bem, o que aconteceu? O tal boi ficou raquítico, pediu concordata e foi literalmente para o brejo, arrastando consigo nada menos que trinta mil investidores. É ingenuidade minha perguntar onde foi parar todo o dinheiro dessas pessoas? Enquanto o "muy amigo" que aconselhou meu pai a entrar nessa roubada tornou-se dekassegui e toca a vida trabalhando no Japão, meu velho labuta na Prefeitura de São Bernardo do Campo e aos 59 anos de idade ainda luta muito para pôr as contas em dia.

Foram ingênuos? Tanto quanto as pessoas que depositaram suas economias no Haspa, Delfin, Nacional ou Brasilinvest, só para remeter a algumas instituições financeiras que faliram nos últimos anos. É de se perguntar: Paulo Roberto Andrade, o presidente do grupo Boi Gordo, também precisa trabalhar 10 horas diárias para pagar suas contas? Ricardo Mansur, responsável pela falência das lojas Mappin e Mesbla, já teve ao menos uma noite de insônia por conta dos pais de família que deixou desempregados? A advogada Jorgina Maria de Freitas, líder da quadrilha que fraudou o INSS em cerca de R$ 600 milhões, alguma vez fez doações a uma instituição de caridade? O juiz João Carlos da Rocha Mattos, flagrado pela Operação Anaconda, colaborava com o Criança Esperança ou o McDia Feliz e achava que assim cumpria o seu dever de bom cidadão?

Como costuma dizer uma amiga minha, "dinheiro é uma merda, principalmente quando não está no nosso bolso". Dinheiro degrada relações humanas, sacrifica a saúde de trabalhadores, cria toda uma raça de especuladores, trambiqueiros e assaltantes, engravatados ou não. Em meio a tudo isso, vejo pessoas da competência de um Jean Boechat desempregadas e crianças de sete ou oito anos dizendo que quando crescer desejam ser dançarinas de grupo de axé ou participantes de programas de reality-show, e quase sou obrigado a dar razão a elas, ao constatar que não basta ser honesto ou ter talento para garantir o maldito pão nosso de cada dia.

Não quero, não posso permitir que o desalento esmoreça minha esperança na humanidade. E torço para que nenhuma alma incauta (tão bem-intencionada quanto o "muy amigo" que aconselhou meu pai a investir na Boi Gordo) resolva me mandar arquivos com mensagens edificantes em Power Point afirmando que "basta ter fé para que o universo passe a conspirar a meu favor" (que Deus me perdoe, mas desejo que as pulgas de mil macacos infestem as axilas daqueles que repassam esse tipo de attachment).

Iniciei este texto com um provérbio francês, finalizo-o com um hindu: "O bem que se faz na véspera torna-se felicidade no dia seguinte".

(Que assim seja.)



5.12.03
"Eu podia estar roubando, em vez disso..."

Faltam 7 dias para o fim das votações na primeira fase do Prêmio iBest. E cá estou, enchendo-lhes o saco mais uma vez ao solicitar votos. Não porque eu ache que meu blog seja o melhor: não é, e digo isso sem falsa modéstia (dirija o cursor de seu mouse a qualquer um dos links no frame esquerdo desta página, e eu garanto que você encontrará no mínimo dez blogs dignos de serem incluídos entre suas páginas favoritas).

Quando me inscrevi pela primeira vez, fui movido por dois motivos dos mais prosaicos:

a) o desejo de divulgar meu site a um número maior de pessoas;

b) os prêmios oferecidos aos vencedores, que totalizam um valor de R$ 20.000,00.

Como mestre Paulinho da Viola sabiamente versou, "dinheiro na mão é vendaval". E este é o resumo da ópera: não aprecio o formato de "competição" do prêmio iBest, que vai de encontro ao espírito da comunidade blogueira (caracterizada pela solidariedade e troca de links e de informações entre si). Mas, já que é oferecida uma premiação em dinheiro, por que não tentar conquistar essa bolada, que viria tão bem a calhar às despesas daqui de casa?

E assim, cá estou.

Sim, eu sei que é um saco ter que preencher cadastros, e por isso não canso de agradecer a todos que votaram, votam ou votarão em mim. Para apoiar Pensar Enlouquece no iBest Blog, é preciso ter à mão os seguintes dados:

- E-mail;
- Data de nascimento;
- CEP;
- CPF.

Ah sim: todos os eleitores do iBest (inclusive aqueles que já votaram) podem concorrer a uma hospedagem de uma semana no Club Med de Trancoso. Para tanto, basta criar uma frase falando sobre "férias". As duas mais criativas serão premiadas, e os vencedores serão divulgados em 15 de janeiro de 2004 juntamente com a divulgação dos 10 finalistas (momento em que, se classificado, novamente encherei o saco de vocês solicitando mais votos).

Portanto, se você ainda não votou no iBest, cumpra com seu dever cívico! Se já votou, tente cooptar seus pais, irmãos, vizinhos, rolos amorosos, colegas de trabalho, primos de terceiro grau... E, se tiver um blog ou site, aproveite para pegar um dos banners abaixo, elaborados por meus camaradas André "Marmota" e Ian Black (meus colegas de Virunduns, outro concorrente ao iBest, mas na categoria Páginas Pessoais - Entretenimento). A casa penhorada solenemente agradece. ;)

Vote em Pensar Enlouquece no iBest 2004!


Vote em Pensar Enlouquece no iBest 2004!


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Em tempo: agradeço, mais uma vez, a todos que já declararam votos em Pensar Enlouquece em 25 de outubro e 16 de novembro. Obrigado, também, aos (e)leitores Breno Pessoa, Deize Andrade, Elis Marchioni, Ju, Jullye, Mafalda, Márcio Hachmann, Marco Antonio, Milton Ribeiro, Paulo Felipe, Rachel Kzirian, Rafael Reinehr, Ricardo Alfaya, Roberta de Felippe, Ruy Goiaba e Silvio Henrique.



3.12.03
O anúncio mais foderoso de todos os tempos


(clique aqui para visualizar o anúncio em tamanho maior.)

Antes de mais nada, um alerta: quem não conhece Johnny Cash (1932-2003) precisa preencher o quanto antes essa lacuna.

Pois bem: o singelo anúncio acima foi publicado na revista Billboard em 1998, em comemoração ao Grammy de Melhor Álbum Country que Cash recebeu por "Unchained", disco produzido por Rick Rubin (o mesmo de grupos como Run DMC e Red Hot Chili Peppers). O texto é saborosamente irônico: "American Recordings e Johnny Cash gostariam de agradecer a indústria musical e as rádios country de Nashville pelo seu apoio".

Na época da premiação, Cash, aos 65 anos de idade, estava indignado com o establishment musical: apesar da aclamação unânime da crítica, suas músicas eram simplesmente desprezadas pelas rádios country americanas, que consideravam seu som anacrônico (apesar de "Unchained" conter regravações de músicos contemporâneos como Soundgarden e Beck). Mas não apenas ele: seus colegas de geração, como os veteranos mestres do country Willie Nelson, Merle Haggard e George Jones, também eram sumariamente ignorados pelas FMs em geral.

Johnny, "The Man in Black", nunca foi de fugir a uma briga. Em 1988, Cash começava a sofrer as primeiras seqüelas do Mal de Shy-Drager, doença degenerativa semelhante ao Mal de Parkinson. Contudo, apesar da saúde debilitada, não deixou perder a oportunidade de criticar a mediocridade das estações musicais americanas (se a moda pega no Brasil...). Rick Rubin, seu produtor, tratou de financiar o anúncio, que foi primorosamente ilustrado com uma foto de Johnny Cash tirada em 1970, durante um show realizado na prisão de San Quentin, na Califórnia.

No rodapé da foto, outra frase significativa: "obrigado a todos que fazem a diferença: vocês sabem quem são". Johnny Cash, ignorando os problemas de saúde, gravou álbuns até os 70 anos (encerrando a carreira com o primoroso "American IV: The Man Comes Around", que inclui a antológica regravação de "Hurt", do Nine Inch Nails) e recebeu mais três prêmios Grammy após a publicação do anúncio (incluindo um pelo conjunto da obra em 1999). De resto, o que dizer do único homem incluído no Rock and Roll Hall of Fame, Country Music Hall of Fame e Songwriter's Hall of Fame? As canções de Johnny Cash transcendem décadas, gêneros musicais, premiações, palavras enfim.



2.12.03
Blogger Brasil de graça: fim de festa?

O Festim.Net é o servidor do site dos Virunduns: uma boa opção, se você está disposto a pagar para ter um domínio e um servidor próprio.

O início das atividades da versão brasileira do Blogger, em agosto de 2002, foi o empurrão decisivo para que eu começasse, enfim, a blogar. Afinal de contas, nenhum servidor gratuito (nem mesmo o Blogger original) oferecia tantas mamatas: espaço para a hospedagem de imagens, possibilidade de salvar rascunhos de posts, exposição na página inicial da Globo.com, ausência de banners publicitários... Muita, muita esmola a troco de nada.

Pois bem, de algumas semanas para cá todo usuário do Blogger Brasil, ao tentar atualizar seu tamagotchi virtual, já se fartou de bater a cara na indefectível mensagem de erro: "No momento nossos servidores estão sobrecarregados. Por favor, tente novamente mais tarde". Não querendo ser pessimista (mas já deixando aflorar o lado Hardy que existe dentro de mim), a impressão que tenho é de que a boca livre está enfim chegando ao final, e os DJs da Globo.com preparam-se para tocar aquelas músicas típicas de fim de balada talhadas para esvaziar a pista.

É significativo, pois, constatar que na página inicial do Blogger BR o link para o fórum de usuários foi removido, justamente ele que é o ponto de encontro principal de blogueiros indignados com a queda na qualidade dos serviços. Basta dar uma passada de olhos nos títulos dos debates para constatar a indignação de seus usuários: "Abaixo Assinado em Protesto ao Blogger (Participe)", "Serviço de merd*", "Porra, ces taum de sacanagem neh?", "BLOGGER - EXPIROU NOSSA PACIÊNCIA", "Servidores tão sobrecarregados? que se foda eu quero blogar", etc etc. Não que tais protestos servissem para alguma coisa além de seviciar a língua portuguesa, mesmo porque nunca ouvi nenhum funcionário da Globo.com se dignar a responder qualquer mensagem que fosse. Mas enfim, o fórum é o ponto de confluência de toda uma comunidade virtual (mesmo que esta seja extremamente rabugenta), e a atitude tomada pelos administradores do Blogger tupiniquim de remover o link para ele não me parece ser o prenúncio de tempos melhores para seus usuários.

Quem já foi usuário da Usina do Som ou do Kit.Net assiste a este filme com sensação de déjà vu. Ambos os sites eram totalmente gratuitos, ambos passaram a ser pagos. Nada de novo sob o sol, muito menos de condenável: afinal de contas, todos nós temos contas a pagar, que o digam os responsáveis pelos sites. Alexandre Cruz Almeida, em uma série de textos intitulada "Não Existe Almoço Grátis" (disponível aqui), resume bem o cerne da questão: "Existem empresas, empresas que empregam muitas pessoas, empresas que tiveram custos altos para desenvolver essas ferramentas de publicação de blogs, empresas que ainda têm custos altos todos os meses para manter milhares de blogs no ar. Essas empresas não têm obrigação nenhuma de oferecer de graça as ferramentas que lhes custaram tanto pra criar e lhes custam tanto pra manter". Conselho deste que vos escreve: pensem desde já em soluções alternativas para o Blogger Brasil, porque a qualquer momento a boca-livre pode terminar.

P.S. 1: Edney Souza, do InterNey, e Gilberto Knuttz, do Uêba, são dois blogueiros que estão sorteando hospedagens gratuitas para um site ou blog. Clique aqui para saber como concorrer à hospedagem oferecida pelo Edney, e aqui para se inscrever na promoção do Uêba.

P.S. 2: Acabei de (re)trocar o servidor do Falou & Disse, o (excelente) sistema de comentários deste blog. Por conta disso, alguns comments anteriores sumiram (mas voltam em breve).



1.12.03
Filho, árvore, livro

Domingo assisti a um filme franco-canadense, "As Invasões Bárbaras", que narra os últimos dias da vida de um professor de História, condenado por um câncer em estado avançado. Preciso ainda organizar melhor minhas idéias antes de escrever sobre este longa dirigido por Denys Arcand. Por enquanto, limito-me a extrair-lhe um gancho, a partir das reflexões do personagem do filme: qual é o legado que deixaremos a este mundo?

Há quem não dê a mínima, há que ache que sua permanência neste mundo será naturalmente continuada por seus filhos, há quem sonhe em perpetuar seu nome em uma praça, uma rua, um parque. Carlos Drummond de Andrade, em um soneto sobre essa questão, escreveu em um arroubo de humildade:

Ilustração de Dave McKean."De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
"

É inevitável recordar o chavão de que o homem totalmente realizado é aquele que teve um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro. Percebam: os três atos citados teoricamente transcenderiam as limitações da minha própria existência física. Meu filho asseguraria a transmissão de meus genes. Com uma árvore, perpetuo a vida em si mesma. E o livro garantiria a permanência de meus pensamentos. Mas tudo isso na teoria, é claro. Nada garante que meu rebento não seria um boçal apolítico ou um partidário do Prona, que a tal árvore não tombaria no cocoruto de um desavisado, ou que meu romance não desembocaria num balcão empoeirado de encalhes.

Ainda não me preocupo com essas coisas, mesmo porque preciso comer ainda muito feijão se quiser escrever um livro do qual não me envergonhe daqui a dez anos. Sobre crianças, assino embaixo do parágrafo final das "Memórias Póstumas de Brás Cubas": "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Ao menos árvore eu já plantei: uma muda durante uma excursão escolar que fiz a uma fazenda quando ainda estava no primário. Se ela vingou, não tenho a mínima idéia. Mas, que diabos, fiz a minha parte.

Talvez (certamente) mude (mudarei) minha postura daqui a alguns anos, quando eu começar a fazer a contagem regressiva para a minha morte. Por enquanto, ainda nutro a ilusão besta de que tenho todo o tempo do mundo pela frente. De resto, encerro estas tergiversações de mesa de bar virtual com uma excelente paráfrase de Stanislaw Ponte Preta sobre o assunto:

"Tinha um filho, plantou uma árvore, o filho trepou na árvore, caiu e morreu. Só lhe restou escrever um livro sobre isso".



Constatação bóbvia

Já aconteceu comigo, assim como a 98,37% da população mundial, de eu só dar o merecido valor a um relacionamento no exato momento em que ele não tinha mais volta. Clichês tão amarfanhados, mas tão verdadeiros.

Pois bem. Hoje, acometido de uma crise braba de sinusite, fico aqui macambuziamente a pensar em como é ruim demais estar doente: cabeça que zune, garganta que coça, nariz endubido, molesma geral por todo o corpo.

Quando eu encontrar um gênio preso numa garrafa, não posso deixar de fazer esse pedido: parar com esse negócio de valorizar retroativamente as coisas que me escapam. O fim-de-semana em uma ilha paradisíaca com a Mônica Bellucci pode ficar para depois.