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29.11.03
Foto que recebi por e-mail



A propósito, o título do e-mail era: "Quem rir não é uma boa pessoa". E eu, não satisfeito em gargalhar com essa bobagem photoshopada, ainda posto a imagem em meu blog. Leitores, apiedem-se de minha alma.



27.11.03
Déjà vu records

Na primeira vez em que publiquei o poema abaixo, simplesmente esqueci de postar as duas últimas estrofes, prova inconteste do esculacho com que trato meus próprios escritos. Segue adiante, pois, a versão na íntegra (director's cut) para os incautos freqüentadores deste boteco virtual.

* * * * *

O Código Secreto das Estrelas

Leio nas entrelinhas do teu sorriso
rumores, canções que falam em pássaros.
Teus passos soletram pelas calçadas
sussurros de sombras por entre pétalas secas.

Teu amor, miríade de galáxias sem sintaxe,
hoje tateia as lágrimas que não escorreram,
enquanto o tempo traça no vidro da memória
confusas lembranças que mordem ferozes.

Falo de sonhos como quem tange nuvens,
e releio tardes de primaveras sangrentas
em que teu calor se espalhava feito pólen,
decifrando o código secreto das estrelas.

Hoje sei que tudo passa, embora eu ainda durma
com memórias teimosas e perfumes apócrifos.
Recordo com gosto doce de espelhos na boca
tua pele, teu sexo, teu cheiro, teu sol.

O tempo é turvo. O tempo é turvo.
Mastiga utopias, cospe sementes de névoa,
esparge fagulhas de luz no passado
- brinquedo mimado nas mãos do acaso.

Mas não quero mais ser racional.
Deitado dentro de mim, hoje evoco
o momento único em que te encontrei,

e já começava a te perder.

São Paulo - novembro 1999/ janeiro 2000



24.11.03
Proust em quadrinhos e os clássicos que ainda não li

Sim, há muito o que ler. Confesso, por exemplo, que não consegui terminar o primeiro volume de "Em Busca do Tempo Perdido", do Proust. Interrompi a leitura para fazer não sei o quê, parei lá pela página 138 e, semanas depois, percebi que não conseguiria retomar o livro do ponto em que tinha parado sem reler tudo desde o começo. Desencanei, e segui minha vida adiante. Mesmo porque, caracoles, ainda há mais seis volumes para ler (e olhem que ainda não comecei a "Comédia Humana" de Balzac).

Os clássicos, ah, os clássicos. Se eu naufragasse em uma ilha deserta, certamente os devoraria. Mas atualmente, com a penca de trabalhos para fazer, as distrações da modernidade a dispersar minhas atividades e o vício por informações que me levou a cursar Jornalismo, quem disse que tenho disciplina para cumprir meu dever de bibliófilo? Nas estantes empoeiradas de meu quarto exemplares de romances de Tolstói, Joyce, Scott Fitzgerald, Wilde, Thomas Mann, Jane Austen e Guimarães Rosa me olham de soslaio, enquanto aguardam pelo momento em que finalmente eu resolver largá-los até o derradeiro parágrafo. E eu, como de hábito, procrastino minhas leituras.

Mas, oras, não é que me surpreendo ao saber que a Editora Jorge Zahar está lançando no Brasil a versão para os quadrinhos de "Em Busca do Tempo Perdido", adaptado por Stéphane Heuet? Na imagem ao lado, Heuet transpõe a famosa cena em que o narrador evoca suas memórias a partir da degustação de uma madeleine. É bóbvio que a leitura de sua versão em quadrinhos será incapaz de abarcar a complexidade do romance, assim como é ingenuidade pensar que a adaptação cinematográfica de um livro substitui o prazer de sua leitura (quem assistiu aos filmes derivados de obras como "Madame Bovary", "As Afinidades Eletivas" ou "Dom Casmurro" e já leu os originais, como eu, conhece bem o gosto de frustração ao fim da sessão). Contudo, considero que essa HQ é uma boa maneira de introduzir mais leitores à prosa de Proust (nada menos que 180.000 franceses adquiriram o álbum de Heuet), que, sim, é envolvente e caudalosa (ainda hei de chegar até o sétimo volume), mas exige de quem a lê disponibilidade de tempo (esse corcel xucro cuja arte do amestramento me é desconhecida) e total entrega (perceberam o quanto gosto de usar parênteses?).

Com relação aos que ainda consideram as histórias em quadrinhos uma "arte menor" e acham iniciativas como essa um sacrilégio, só posso pensar que essas pessoas falam isso porque desconhecem as graphic novels de quadrinistas como Art Spiegelman (vencedor do prêmio Pulitzer por sua obra-prima "Maus"), Neil Gaiman (cujo "Sandman: Endless Nights" recentemente emplacou a lista de best-sellers do New York Times em sua semana de lançamento), Will Eisner, Alan Moore, Daniel Clowes, Moebius, Joe Sacco, Scott McCloud ou Jeff Smith, só para citar alguns nomes de respeito. Recomendo, ainda, que fuce em algum sebo a impecável adaptação para os quadrinhos que Bill Sienkiewicz fez de "Moby Dick", a obra-prima de Herman Melville.

Em tempo: você já conhece Ulysses for Dummies?



Estranhos desígnios da fama virtual

Fama na Internet é virar autor desconhecido. Eu, por exemplo, perdi a conta de quantos textos meus foram repassados via e-mail sem qualquer crédito, assim como já me deparei com posts, crônicas e versos republicados em outros blogs e sites creditados ao onisciente Autor Anônimo; ou, pior ainda, assinados por outras pessoas que simplesmente surrupiaram minhas palavras na maior cara-de-pau. Enfim: situações chatas, mas inevitáveis a qualquer um que se disponha a publicar textos na Internet.

Semana passada um desses casos vitimou Patrícia Daltro, do blog A Criatura e a Moça. O que mais me impressionou nesse caso foi a velocidade e a profusão com que seu texto original, "Querido Diário", espalhou-se pela Web. É só conferir: digite no Google as frases iniciais do texto da Patrícia: "Hoje começo a fazer dieta. Preciso perder 8 kg". Quando não é assinado pelo tal do "Anônimo", a crônica de Patrícia Daltro é erroneamente creditada à atriz e comediante Heloisa Perissé (da mesma maneira como há muito texto apócrifo de Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges, Luis Fernando Veríssimo ou Clarice Lispector circulando por aí).

Dois casos similares que aconteceram comigo:

- Em 20 de janeiro de 2002, publiquei no final da edição 048 do Spam Zine uma nota boba e descompromissada sobre um produto novo que havia encontrado ao fazer compras no supermercado: os papéis higiênicos vitaminados da marca Neve. Pois bem: o texto, além de ter se transformado em spam, tornou-se um daqueles típicos casos de "correntes sem fio", no qual cada internauta que reencaminhaca a mensagem tratava de acrescentar ou modificar alguma frase a fim de torná-lo, hmm, mais "engraçadinho". Contudo, repare: se você encontrar algum texto que define o Neve Ultra Protection como "Rolls Royce dos papéis higiênicos", saiba que essa metáfora desconjuntada escapuliu por algum descuido de meus neurônios.

A propósito: através do Goggle, esse dedo-duro dos tempos pós-modernos, descobri que meu texto sobre os papéis Neve foi incluído em um e-book intitulado "O Humor do E-mail Nº 2 - O Retorno", coletânea que, conforme explicações do organizador Goulart Gomes, reúne textos enviados por e-mail como sendo de autores desconhecidos. Não que eu faça muita questão de ser creditado por algo tão besta, mas enfim...

- Em 21 de novembro de 2000 saiu no e-zine 700Km uma crônica de minha autoria intitulada "Pequeno Tratado Sobre a Mortalidade do Amor" (texto também publicado na revista eletrônica Viés). Pois bem, dessa crônica eu posso dizer que realmente fizeram a festa: até em jornal de cidade do interior de São Paulo ela foi parar sem que me avisassem (dois anos depois uma de minhas leitoras teve a delicadeza de me encaminhar por correio cópia do jornal no qual ela foi publicada - menos mal saber que meu nome constava como autor do texto). Fora isso, meu "Pequeno Tratado" foi creditado erroneamente a autores como Otto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos (motivos para que eu me sentisse lisonjeado, aliás), e ainda hoje é republicado em diversos sites, blogues e newsgroups, além de ter recebido uma horrenda versão de algum desgraçado que quis "melhorar" meu texto (vide este site apinhado de gifs animados, no qual minha crônica foi rebatizada como "A Morte do Amor").

O que fazer para diminuir os danos de tais situações? Antes de mais nada, é bom saber que qualquer texto, inclusive se publicado na Internet, é protegido pela Lei 9.610 de 19/02/2001, que afirma: "é expressamente vedada, sob pena de serem tomadas as medidas judiciais cabíveis, a reprodução, publicação, distribuição e/ou o uso indevido de qualquer dos textos ora em questão, seja na íntegra ou em partes, sem o expresso consentimento e concordância por escrito dos respectivos autores". Mas só isso não basta: todo autor que queira zelar pelos direitos autorais de sua obra necessita registrar oficialmente seus textos na Biblioteca Nacional.

Por último, mas não menos importante, vale a pena registrar a valiosa colocação da jornalista e professora Tina Andrade, que em seu artigo "Copy-paste: na web plágio (ainda) é muito relativo" escreve: "O poder das networks está disparando e na minha modestíssima opinião, a melhor maneira de evitar o plágio ainda é, foi e sempre será tornar a sua obra pública para o maior número de pessoas possível! Basta saber transformar internautas-de-carteirinha, 'listeiros', leitores assíduos, formadores de opinião em fiéis escudeiros... Como? Relacionamento: transparente, bem-humorado, interessante. Porque o bom quando se fala em web é mesmo saber lidar com gente".

Em tempo: aproveito para dizer que, de minha parte, autorizo qualquer reprodução dos posts desta página sem necessidade de pedido prévio, desde que juntamente com o texto sejam publicados os devidos créditos e link para esta URL.



Atenção: ontem à noite o servidor onde estavam hospedados os comentários deste blog saiu do ar. Provisoriamente, instalei meus comentários no outro servidor do Falou & Disse.

Aproveito a ocasião, porém, para recomendar uma matéria bacana sobre blogs: Escritoras Virtuais, publicada no jornal Zero Hora deste domingo. Escrita por Patrícia Rocha, a reportagem cita quatro escritoras que têm utilizado a Internet como laboratório virtual para a publicação de textos. Dentre elas, destaco uma das prediletas da casa: Rosane Aguirre, melhor conhecida na Web através de seu pseudônimo literário, Ane Walker. Em tempo: para ler a matéria da Zero Hora é necessário fazer um cadastro no site (não leva mais tempo que o do iBest).



23.11.03
Retrospectiva

A efeméride

Quinta, dia 20, foi celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, tendo inclusive sido decretado feriado em alguns municípios como Rio de Janeiro e Campinas: pura demagogia.

Antes que me acusem de ser um racista acéfalo (expressão redundante), digo que é inquestionável a importância da cultura africana e de seus descendentes no Brasil: basta recordar alguns nomes como Machado de Assis, Milton Santos, Paulinho da Viola, Emanoel Araújo, Mestre Valentim, Lima Barreto, Caetano Veloso ou Aleijadinho. No entanto, é de se perguntar: negros tornar-se-ão mais orgulhosos de sua raça por não trabalhar em seu dia? Como os skinheads e neonazistas usufruíram de sua folga? Já que é para ser politicamente correto (ou eufemisticamente hipócrita), por que não criar novos feriados, por exemplo, em 19 de abril (Dia do Índio), 18 de junho (Dia do Imigrante Japonês) ou 28 de junho (Dia do Orgulho Gay)?

A imagem

Foto de Anadolu Kudret.

A foto acima, publicada na Folha de S. Paulo, mostra o cenário logo após o atentado ao consulado britânico em Istambul, Turquia, dia 20. Dois carros-bomba, acionados quase que simultaneamente, mataram 27 pessoas e feriram cerca de 450. Aparentemente, os atentados foram idealizados pela Al Qaeda, organização que teria sido "desmantelada" pelas eficientíssimas tropas de Bush Júnior.

O diálogo

- As três paixões da minha vida são: minha mãe, meu filho e o Palmeiras.
- Mas... e a esposa?
- Mulher não conta. Se eu perco uma hoje, aparece outra amanhã...

(Zé Gonzalez, repórter do Lance!, e o pintor palmeirense Erinaldo Cadete de Oliveira, um dos encarregados da reforma dos vestiários do estádio Gigante do Agreste, em Garanhuns, PE, um dia antes do jogo em que a equipe paulista derrotou o Sport por 2 a 1 e consagrou-se campeã do Campeonato Brasileiro da Série B.)

A música

Em 1994 Johnny Cash (1932-2003) lançou American Recordings, um dos quatro álbuns que gravou com a produção de Rick Rubin. Deste CD, destaco a faixa "The Beast in Me", originalmente composta por Nick Lowe. Ouça esta regravação e note, em cada verso cantado por Cash, o quanto uma música é capaz de traduzir a vida de quem a interpreta.

The beast in me
Is caged by frail and fragile bonds
Restless by day and by night
Rants and rages at the stars
God help the beast in me

The beast in me
Has had to learn to live with pain
And how to shelter from the rain
And in the twinkling of an eye
Might have to be restrained
God help the beast in me

Sometimes
It tries to kid me that it's just a teddy bear
Or even somehow managed
To vanish in the air
And that is when I must beware
Of the beast in me
That everybody knows
They've seen him out dressed in my clothes
Patently unclear
If it's New York or New Year
God help the beast in me
The beast in me


A analogia

"Em dezembro do ano passado, inebriado pela vitória eleitoral, Lula agiu como um técnico de futebol que escala 34 jogadores, põe em campo dois goleiros, o massagista e o roupeiro. Num lance inédito, o time de Lula joga com duas bolas. Uma (preta) só para o comissário José Dirceu. Os bons técnicos respeitam o desempenho dos jogadores. Lula inova. Pula do banco, atravessa o gramado e vai abraçar o jogador que perdeu um pênalti. Fez isso com Benedita da Silva, Ricardo Berzoini e Humberto Costa".

Elio Gaspari, em sua coluna na Folha de S. Paulo de quarta-feira.



22.11.03
Síndrome de Rob Fleming

Para quem não conhece, Rob Fleming é o personagem principal de Alta Fidelidade, romance de Nick Hornby que foi adaptado para o cinema pelo diretor Stephen Frears. O principal hobby de Rob é fazer listas: cinco maiores foras que levou de ex-namoradas, cinco músicas bacanas para ouvir em uma manhã de domingo, cinco melhores episódios de Frasier, cinco empregos dos sonhos, etc etc. No mais, uma mania típica da cultura pop contemporânea e de pauteiros de jornais e revistas sem muita imaginação para matérias mais criativas. Vide, por exemplo, algumas das listas que foram publicadas nesta semana.

* * * * *

A revista britânica Q acaba de lançar edição especial com aquelas que seriam as "1001 melhores músicas de todos os tempos", eleitas por seus redatores e alguns músicos entrevistados. A lista é encabeçada por One, terceiro single extraído do álbum "Achtung Baby", lançado em 1991 pelo grupo irlandês U2. O Top 10 da Q Magazine é completado por:

2. Aretha Franklin - I Say a Little Prayer
3. Nirvana - Smells Like Teen Spirit
4. The Beatles - A Day in the Life
5. Elvis Presley - In the Ghetto
6. Eminem - My Name Is
7. Radiohead - Creep
8. Destiny's Child - Independent Women
9. Oasis - Live Forever
10. Ike and Tina Turner - River Deep Mountain High

Eminem e Destiny's Child entre os dez mais?! Sim, uma das funções primordiais de qualquer lista de melhores que se preze foi exemplarmente cumprida: fomentar polêmicas e indignações. Apesar dos pesares, a lista da Q Magazine (confira as 100 mais aqui) consegue ser menos pior que uma outra escolhida pelos ouvintes da BBC em dezembro de 2002, que consagrou uma certa A Nation Once Again (canção composta em 1840 em prol da independência da Irlanda) como a melhor música de todos os tempos, e que ainda teve Believe, de Cher, em 7º lugar (Cole Porter e os irmãos Gershwin levantaram-se de suas tumbas), e Bohemian Rhapsody, do Queen, na 10º posição (John Lennon e Tom Jobim dançaram o twist em algum local entre o céu e o inferno).

* * * * *

Encontrei outra lista altamente discutível através do Nemo Nox: os 40 melhores diretores de cinema do mundo. Segundo a enquete feita pelos críticos do jornal inglês The Guardian, David Lynch seria o maior cineasta da atualidade, seguido, respectivamente, por Martin Scorcese, Joel & Ethan Coen, Steven Soderbergh, Terrence Malick, Abbas Kiarostami, Errol Morris, Hayao Miyazaki, David Cronenberg e Terence Davies. Sei não, sei não. Lynch, o melhor (entre os dez primeiros vá lá, mas em primeiro?), Soderbergh à frente de Pedro Almodovar (classificado em 15° lugar), Morris como o 7° colocado (em se tratando de documentaristas, prefiro o nosso Eduardo Coutinho) e Terence Davies em 10° (à frente de Wong Kar-Wai, Paul Thomas Anderson e Lars von Trier) são outros evidentes exageros desta lista, que ainda deixa de fora nomes como Francis Ford Coppola, Bryan Singer, Roman Polanski, Steven Spielberg, Brian De Palma, Julio Medem e Manoel de Oliveira.

Em tempo: Walter Salles aparece como o 23° melhor diretor.

* * * * *

Bobviamente, essas listas não podem ser levadas muito a sério. O maior mérito dessas enquetes está em suscitar discussões a respeito de nomes esquecidos ou subvalorizados; além da diversão em elaborá-las, é claro. Para exemplificar, fiz uma lista dos 20 filmes (seguindo o exemplo de outro cinéfilo, Mr. Valletta) que formam a minha cinemateca ideal. Meus critérios levam em consideração méritos artísticos, mas não pude deixar de considerar também aspectos subjetivos como a memória afetiva e o modo como cada um desses filmes alimentou a cinefilia que me acompanha desde o primeiro filme que vi na tela grande (Os Trapalhões na Serra Pelada, dirigido por J.B. Tanko em 1982). Ei-los:

1 . A Palavra (Ordet, 1955) - Carl Th. Dreyer
2 . O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1957) - Ingmar Bergman
3 . Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) - Alfred Hitchcock
4 . Oharu, a Vida de uma Cortesã (Saikaku Ichidai Onna, 1952) - Kenji Mizoguchi
5 . Os Sete Samurais (Shichinin no Samurai, 1954) - Akira Kurosawa
6 . Tempos Modernos (Modern Times, 1936) - Charles Chaplin
7 . Umberto D. (1952) - Vittorio di Sica
8. Casablanca (1942) - Michael Curtiz
9 . A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939) - Frank Capra
10. Terra em Transe (1967) - Glauber Rocha
11. Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes del Círculo Polar, 1998) - Julio Medem
12. Doutor Jivago (Doctor Zhivago, 1965) - David Lean
13. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977) - Woody Allen
14. Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925) - Sergei Eisenstein
15. O Marido da Cabeleireira (Le Mari de La Coiffeuse, 1990) - Patrice Leconte
16. Brazil (1985) - Terry Gilliam
17. Amarcord (1973) - Federico Fellini
18. A Malvada (All About Eve, 1950) - Joseph L. Mankiewicz
19. Uma Aventura na África (The African Queen, 1951) - John Huston
20. Houve Uma Vez Um Verão (Summer of '42, 1971) - Robert Mulligan



20.11.03
Aqui jaz um post...



... mas o mundo não perdeu lá grande coisa. O que me preocupa, na real, é constatar que nunca os serviços do Blogger Brasil estiveram tão instáveis. Em outras palavras: uma fossa repleta de merda fumegante. Usuários do Blogger BR, preparem-se desde já: tem gente demais blogando e postando arquivos por aqui, e, pelo visto, os limites de banda e transferência de arquivo já foram pro espaço. Quem tiver di$po$ição suficiente para continuar blogando vai se bandear para provedores pagos, quem não tiver colírio usará óculos escuros de banca de camelô ou será obrigado a migrar para o Blogger gringo. Porque o sertão vai virar mar, e a vida é que nem rapadura; é doce, mas é dura.



19.11.03
Salve lindo pendão da esperança

Em tempos idos, as aulas de O.S.P.B. e Educação Moral e Cívica que tive me ensinaram que dia 19 de novembro é o Dia da Bandeira. Mas a primeira coisa que me veio à cabeça quando lembrei dessa efeméride foi a campanha encampada pelo grande Jards Macalé, que defende a inclusão da palavra "amor" na faixa central de nossa bandeira. Seu raciocínio é simples e lógico: os republicanos criaram a bandeira do Brasil inspirados em um lema da doutrina positivista cunhado pelo francês Augusto Comte, que defende "o Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim". Oras, se "ordem" e "progresso" estão estampados em nosso pavilhão, porque justamente o "amor" ficou de fora? Jards cunhou ainda uma explicação ótima para sua campanha:

- Isso (a inclusão da palavra "amor") alteraria a psique de toda a nação, porque só pode alcançar a ordem e o progresso o povo que nasce sob a égide do amor. O Brasil seria pioneiro, pois nenhuma outra nação tem um sentimento tão sublime em sua bandeira. Por isso lancei esta campanha cívica. Quero ver o Congresso Nacional discutindo o amor.

Em tempo: você sabia que a atual bandeira foi projetada em 1889 por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, com desenho de Décio Vilares, e que o céu de estrelas estampado em nosso pavilhão representa o céu do Rio de Janeiro, às 20 horas e 30 minutos do dia 15 de novembro de 1889, data da Proclamação da República? Essas e outras nem minha professora de Educação Moral e Cívica deveria saber, mas o Guia dos Curiosos tratou de explicar para mim. A propósito, hoje também é o Dia Internacional do Xadrez, o dia em que Pelé marcou seu milésimo gol na carreira e em que João Guimarães Rosa morreu (ou, como diria o escritor, "ficou encantado").



17.11.03
Prediletos da Casa - VII

Dorothy Rotschild Parker (1893-1967) escreveu contos, poemas e críticas que foram publicados em algumas das melhores publicações americanas de todos os tempos em seu auge de qualidade: The New Yorker, Esquire, Vanity Fair. Sua produção literária, porém, foi por muito tempo ofuscada pela ferocidade de suas tiradas verbais. Alguns exemplos:

- Um de seus desafetos foi Clare Booth Luce, mulher do editor da revista Time. Pois reza a lenda que ambas se cruzaram em uma porta giratória. Clare, mais jovem, deixou que Dorothy passasse primeiro pela porta, sem antes cutucá-la: "As velhas, antes das belas". Parker retrucou imediatamente: "As pérolas, antes das porcas". Não é preciso dizer que Dorothy por muito tempo foi boicotada das páginas da Time.

- Ainda sobre Booth Luce, quando lhe disseram que sua rival era gentil com seus inferiores, Mrs. Parker perguntou: "Mas onde ela os encontra?".

- Ao escrever sobre certa madame da socidade novaiorquina, Dorothy desferiu a seguinte observação: "Aquela mulher domina dezoito idiomas, e não consegue dizer 'não' em nenhuma delas". Nunca mais foi convidada para as festas da poliglota socialite.

- Ao resenhar um livro para a Esquire, resumiu sua opinião em apenas duas frases: "Este não é um livro para ser deixado casualmente de lado. É para ser atirado longe com toda a força".

Contudo, repito o erro que muitos cometem ao reproduzir suas deliciosas tiradas, deixando em segundo plano sua verve literária. Mrs. Parker é a mestre do humor amargo. Seus contos e poesias são impregnadas de reflexões sobre amor, tristeza e solidão. Dorothy, contudo, desfaz qualquer resquício de sentimentalismo cunhando tiradas humorísticas que fazem seus leitores gargalharem enquanto acalentam suas próprias melancolias. Imperdíveis, por exemplo, são os seus versos curtos, publicados em três livros: "Enough Rope", "Sunset Gun" e "Death and Taxes" (disponíveis na íntegra em http://www.suck-my-big.org/blah). Alguns exemplos:

Foto de George Platt Lynes tirada em 1943, quando Dorothy tinha 50 anos de idade.Resumo

Giletes machucam;
Rios são úmidos;
Ácidos mancham;
Drogas dão cãimbras.
Armas são ilegais;
Nós escorregam;
Gases fedem;
Acho melhor você viver.


Infeliz Coincidência

Enquanto você jura que é dele,
E treme, e suspira leniente,
E ele declara que infinita e imortal
É a paixão que sente -
Lady, faça uma nota disto:
- Um de vocês mente.


Entrelinhada em seus versos e prosas (leitoras, não deixem de conferir Um telefonema, dociamarga descrição da espera pela ligação de "alguém") está a vida de uma mulher que, após ter convivido com nomes como Noël Coward, os irmãos Marx, George Kaufman e Nathanael West, e viajado à Espanha durante a Guerra Civil apenas para apoiar os republicanos, morreu pobre e esquecida, de ataque cardíaco, aos 74 anos. Irônico: no auge do sucesso, durante a Era do Jazz nos anos 20 e 30, Mrs. Parker tentou o suicídio três vezes. Seu melhor amigo, o crítico e humorista Robert Benchley, proferiu-lhe um conselho: "Dorothy, pare com isso. Suicídios fazem mal à saúde". Pois Dorothy sobreviveu a quase todos da sua geração, inclusive a Benchley, que, morto de cirrose hepática em 1945, suscitou o seguinte comentário de Parker: "Coitado do filho da puta!".

P.S.: Conheça outros "prediletos da casa" clicando aqui ou visitando o Burburinho.



16.11.03
iBest Blog e Virunduns

Na nova parcial do Prêmio iBest, Pensar Enlouquece ainda é um dos cinco blogs mais votados. O único senão é ver que no site do iBest me chamam de "Inagali" (sic), mas tudo zen, o importante é o que importa. Aproveito a ocasião para reforçar meu processo de lavagem cerebral: experimenta, experimenta, experimenta clicar aqui e votar em mim no iBest Blog!. O cadastro para votação não demora mais que cinco minutos, e a causa é nobilíssima: concorro a 20 mil reais. :)

Em tempo, aproveito para agradecer a todos que já declararam voto em mim, mandando um abraço especial a alguns amigos especiais: professor Arquimimo, cumpadi Fábio Sampaio, Daniel Barros (o homem do Blogs Direito) e a minha querida Meg. Obrigado também a alguns amigos não citados anteriormente: Claudia Draper, Déa Ramos, Lú Ferraz, Márcio Hachmann, Marcos VP (compositor de mão cheia), Menina Má, Pequena Jornalista, Solange, Vania Beatriz e a sem-blog Tereza (todos com as devidas bênçãos do Santo da Casa).

Em tempo: o site dos Virunduns ganhou novo layout, novas seções e novas figurinhas by Ian Black, incluindo essa caricatura bacana ao lado, em que poso de baterista. Não deixem, por exemplo, de baixar o skin para Winamp dos Virunduns.



14.11.03
O amor, esse labirinto

"Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem-vindo ao coração
".

(poema de Guiraut de Borneilh, citado no livro "O Poder do Mito", de Joseph Campbell e Bill Moyers)


Uma pessoa racional, frente ao desafio da edificação de um labirinto, cartesianamente chegará à conclusão de que ele deverá ser construído de dentro para fora. Caso contrário, o arquiteto correrá o sério risco de se ver perdido dentro de sua própria criação.

Pois bem, o que faz o tal do amor? Contraria todas as regras mais básicas, inclusive essa.

Amar é construir um labirinto de fora para dentro.

* * * * *

Seguir por um corredor que não sabemos aonde vai dar.
Pender entre a esquerda, a direita ou o caminho à minha frente.
Escolher uma galeria, depois se arrepender.
Rever posições, dar alguns passos atrás, repetir os mesmos erros.
Acreditar que encontrou finalmente a saída, quando aquele era apenas o começo.
Zanzar para lá e para cá.
Sentir déjà vu.
Desesperar-se em meio às bifurcações, dispersar-se, fazer uma pausa em meio ao caos.
Aos poucos, aprender a sentir prazer no puro ato de caminhar.

Mas onde está minha Ariadne?

* * * * *

Segundo a definição de Luis Fernando Veríssimo, "labirinto é o caminho mais rápido entre o ponto A e o ponto B, para quem queira ir para o ponto C". Composto por corredores intrincados que se cruzam e entrelaçam, labirintos são escolas que ensinam o que é o Barroco. Em vez de uma vereda linear que leva o transeunte de um lugar para outro da maneira mais objetiva possível, o bom labirinto representa uma aventura que desafia seu oponente à perda e ao reencontro de si mesmo. Porque é preciso tatear caminhos, amalgamar lógica e intuição, parar para refletir sobre como percorrer da melhor forma possível divisões e galerias que parece levar a lugar algum.

Perder-se de si mesmo é uma boa maneira de se reencontrar.

Através do ímã de um olhar, surgem a atração e o desejo; fagulhas a partir das quais desencadeia-se a construção do labirinto. Entre conversas e confissões, carícias e convivência, corredores e galerias ordenam-se paulatinamente em complexa tessitura que, quando vai ver, já enredou mais um incauto no centro de sua arapuca.

* * * * *

Zelda Fitzgerald, antes de se desequilibrar na corda bamba da sanidade, escreveu: "buscar amor é buscar um novo começo, um novo ponto de partida na vida".

A melhor estratégia para explorar esse labirinto talvez seja agir com atenta distração. Escarafunchar o mundo com espírito de criança, com olhos que vaguem distraidamente atentos, capazes de se maravilhar com uma gota de orvalho no retrovisor de um carro, uma joaninha pousada no muro ou a raiz que rompe uma calçada. E, no ato de brincar, descobrir magia no que antes parecia ser tão banal, tateando o mundo como quem soletra pela primeira vez o alfabeto que arquiteta as estrelas.

Amar é perder-se e reencontrar-se no centro de um labirinto.



13.11.03
Sobre os noticiários

Clique aqui e conheça um site bacana de ilustrações a la Exploding Dog.

Conjecturo a respeito do futuro dessa geração de crianças que cresce tendo a tevê como babá, enquanto seus pais labutam em busca do maldito pão nosso de cada dia. Imagino essa molecada que acompanha diariamente a necrofilia desses programas vespertinos, que bombardeia seus telespectadores com notícias a respeito de pessoas assassinadas, violentadas, seqüestradas, vilipendiadas. Meu maior temor é de que esteja sendo fomentado o surgimento de uma geração mais niilista, cética e cínica ainda com relação à humanidade.

Enquanto um ministro imbecil obriga velhinhos de 90 anos a saírem de seus aposentos com medo de perder suas pensões, o mundo não dá tréguas a nossos sentidos e anuncia novos atentados, assassinatos torpes e crimes de colarinho branco. Um único pensamento me martela a cabeça: se "fé" pode ser definida como crença cega em alguma coisa, então nunca tivemos tantos motivos para ter fé na tal da humanidade, ao menos se nos pautarmos no que os jornais noticiam. Afinal, como nutrir esperanças nestes estranhos tempos nos quais não criticar a vida alheia é um ato quase que subversivo, e o cinismo generalizado é a tônica após tanta podridão veiculada em jornais, revistas e programas de televisão?

Não posso deixar de recordar uma crônica de Rubem Braga, em que ele lamentava a ausência nos jornais de parágrafos como este:

"Anteontem, cerca de 21 horas, na Rua Arlinda, no Meier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito ramos, de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: 'Meu amor', ao que ele retorquiu: 'Deolinda'. Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7,45 da manhã, isto é, 10 minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal".

Pois é quando o mundo mais teima em tentar esmorecer minhas esperanças que eu procuro pensar que tenho uma família, alguns bons amigos e uma namorada que não me permitem perder a fé de que ainda há mais amor, solidariedade e fraternidade na Terra do que a mídia insiste em não veicular.



12.11.03
Lady Murphy

Ando entupido de trabalho. Durmo pouco, e mal, há tempos. Sofro de uma incipiente tendinite. Tenho pencas de e-mails atrasados para responder. E, de quebra, quase toda vez que tento acessar o Blogger Brasil, sou barrado com uma daquelas mensagens indefectíveis de manutenção no sistema. É, assim fica difícil. Mas enfim, como diz o velho deitado, "tá ruim mas tá bão". E sigamos em frente...



9.11.03
Os criminosos mais estúpidos do mundo

O crime não compensa, principalmente se o ladrão é tão estúpido a ponto de esquecer o dinheiro que roubou na hora de fugir. The World's Stupidest Criminals, livro concebido pelos editores da Fortean Times (revista inglesa dedicada a textos sobre bizarrices, curiosidades e fenômenos inexplicados), compila 400 casos reais de crimes e criminosos descerebrados. Por exemplo, o de um assaltante de banco norueguês que retornou à mesma agência roubada a fim de depositar o dinheiro que levara horas antes. E o que dizer do iugoslavo que, temeroso de que pudesse se auto-incriminar, costurou os próprios lábios para não confessar nenhuma bobagem? A seguir, mais algumas pérolas da estupidez humana:

- Berna, Suíça, setembro de 1991: Joyce Lebrom desmaia no meio de um supermercado. Funcionários e clientes, crentes de que ela havia sofrido um ataque cardíaco, chamam uma ambulância. Porém, quando os paramédicos chegam, descobrem um frango congelado escondido dentro do sutiã da "vítima": seu desmaio havia sido causado por choque térmico.

- Wanganui, Nova Zelândia, março de 1996: um fã dos Muppets de 21 anos de idade invade uma estação de rádio local com um objetivo: fazer com que a canção "Rainbow Connection" (interpretada por Caco, o sapo) seja tocada por 12 horas seguidas. A polícia, alertada de que o tal muppetmaníaco teria uma bomba, evacuou todos os prédios nas imediações. Depois, descobriu-se que a bomba era tão pífia quanto as preferências musicais do meliante neozelandês.

- Munique, Alemanha, setembro de 1993: um violino de 300 anos de idade é roubado. Alguns dias depois o instrumento é devolvido, junto com um bilhete do próprio ladrão queixando-se da desafinação do mesmo. Detalhe: o violino é avaliado em cerca de US$ 80 mil.

- Covilhã, Portugal, setembro de 1994. O proprietário de um zoológico é preso. Seu crime: ter vestido três crianças com fantasias de macaco e anunciado-as aos visitantes de seu estabelecimento como "raros orangotangos de Sumatra". Que mico...

- Boston, Estados Unidos, dezembro de 1994. Winston Treadway decide roubar duas lagostas vivas do tanque de um supermercado, escondendo-as nos bolsos de suas calças. Nosso incauto assaltante só não contava com a resistência das lagostas. Segundo os relatos médicos da época, a conseqüência do roubo foi uma espécie de "auto-vasectomia". Winston, (in)felizmente, jamais terá filhos.



6.11.03
Homem-Inércia





O adorável super-herói da tira acima é uma criação do grande Scott McCloud, quadrinista de primeira e autor de dois livros fundamentais para a compreensão das HQs como arte seqüencial: Desvendando os Quadrinhos (a edição brasileira, lançada pela Makron Books, está infelizmente esgotada - corra até o sebo mais próximo, porque o meu exemplar eu não vendo) e Reinventing Comics. Em tempo: McCloud mantém um excelente site, e algumas de suas inovadoras HQs online estão disponíveis aqui e aqui.



4.11.03
En passant

Depois de um dormingão pluviosamente macambúzio, penei com a sebunda-feira friorenta que abateu Sampa City, e o resultado da manhã desta terça foi inevitável: dor de cabeça, nariz completabente endubido e o tal bichinho do "rram rram" atacando minha garganta. Que berda.

* * * * *

Soube, através do Diário de Lisboa, que o livro compilando posts originalmente publicados no blog português O Meu Pipi, lançado em 7 de outubro, já esgotou duas edições de 15 mil exemplares cada: expressionante! Duas editoras brasileiras já estão negociando os direitos de publicação por aqui. Enquanto isso, na Terra Brasilis, diversos lançamentos possuem condições de repetir (ou até mesmo superar, quem sabe?) o feito lusitano. Esperemos para l(v)er.

* * * * *

A Câmara Brasileira do Livro divulgou a sua lista dos 100 livros mais importantes do século XX no Brasil. E, como toda lista que se preze, certamente renderá polêmicas e discussões passionais. Por exemplo, esse "Top 100" não se atém à literatura: livros de direito, economia, sociologia, história e arquitetura também fazem parte desse rol, numa quizumba pra Rob Fleming nenhum botar defeito. Algumas observações sobre as escolhas:

- é nítida, principalmente na área econômica, a preocupação em se manter um equilíbrio ideológico entre liberais e socialistas. A cada Paul Singer é citado um autor como Roberto Campos. Para um Eugênio Godin, tome Maria da Conceição Tavares. E, se Fernando Henrique Cardoso foi lembrado, Paulo Freire também marca presença. Menos mal que Olavo de Carvalho e Marilena Chauí não foram citados...

- há dois dicionários na lista: de Arquitetura Brasileira (de Eduardo Corono e Carlos Lemos) e das Artes Plásticas no Brasil (de Roberto Pontual). Em compensação, onde foi parar o Dicionário do Folclore Brasileiro, elaborado por Câmara Cascudo, e, principalmente, o Dicionário de Aurélio Buarque de Hollanda?

- ao menos há boas surpresas na área de ficção. Contistas pouco conhecidos como J.J. Veiga e Murilo Rubião foram justamente lembrados, assim como o romancista Campos de Carvalho. A lista é quase irretocável no que tange aos autores citados; faria apenas uma troca e outra nas obras escolhidas (A Paixão Segundo G.H. em vez de A Hora da Estrela, Uma Faca Só Lâmina ao invés de Morte e Vida Severina, Antes do Baile Verde no lugar de Histórias do Desencontro) e em um ou outro autor (A Festa de Ivan Angelo no lugar do Canaã de Graça Aranha, por exemplo).

Quem quiser participar de maiores discussões deve clicar aqui para ler o artigo do site Capitu sobre essa lista.

* * * * *

O primeiro programa de TV que falava sobre blogs saiu do ar, devido ao seguinte diálogo:

Marcos Barrero (aos berros): "Esse cara não entra aqui. No ar ele não entra".

Enio: "Mas, tem um motivo?".

Marcos Barrero (berrando mais alto): "Esse cara é um FILHO-DA-PUTA e meu INIMIGO".

RR: "Que isso, tem censura aqui?".

Marcos Barrero (completamente descontrolado): "Sim!".

RR: "Então não tem programa. Acabou o Blog'n'Roll".

Marcos Barrero (transtornado): "Ainda bem!".


E foi assim que acabou a história do Blog'n'Roll na allTV.



2.11.03
"Quer pagar quanto?"

Clique aqui para ouvir uma entrevista de Fabiano Augusto ao programa Pânico da Jovem Pan FM.Fabiano Augusto, 28, já foi office-boy, animador de festa infantil (encenava "A Cigarra e a Formiga" para as criancinhas) e vendedor de livros. Na TV, apresentou a "Turma do Arrepio" na finada Rede Manchete, "Turma da Cultura" (ao lado de Cynthia Raquel, a.k.a. "Garota Tang") e, atualmente, um programa de auditório, "Intimação", na católica Rede Vida. Além disso, atuou em dezenas de comerciais. Num deles, "interpretou" uma geladeira ao lado de outros atores que apareciam vestidos de eletrodomésticos. Mas é bóbvio que você não o conhece por esses trabalhos.

Garoto-propaganda das Casas Bahia há quase dois anos, Fabiano Augusto é o homem (ir)responsável pela difusão do indefectível bordão "quer pagar quanto?". Que, repetido ad nauseam em rádios e TVs, tem fomentado o ódio de boa parte do público, vide a URL desta singela página:

http://www.odeiooidiotadascasasbahia.blogger.com.br

Discussões à parte, um fato é inegável para mim: a campanha publicitária das Casas Bahia é uma das mais eficazes dos últimos tempos.

* * * * *

O que de faz de uma propaganda uma boa propaganda? Depende. Existem aqueles comerciais que, mais do que vender o produto a que foram destinados, nasceram para amealhar prêmios. O que pode representar um problema: ponha-se no lugar do cliente que gasta milhares de reais ao contratar uma agência de publicidade, e recebe em troca um daqueles comerciais pós-modernosos, repleto de efeitos especiais, câmera tremida e direção de arte mirabolante. Você o assiste, e pode até ficar impressionado com o filme. Mas depois se pergunta: ahn... qual é mesmo o produto que esse comercial vende?

Nos últimos anos, prêmios de publicidade como o Clio Awards e os Leões do Festival de Cannes têm recebido crescentes denúncias de comerciais que são inscritos sem jamais terem sido veiculados na mídia. São as "propagandas fantasmas", feitas exclusivamente para festivais. Ou seja, comerciais totalmente desvinculados da sua função original de promover marcas, criados com o intuito único de alimentar o ego de publicitários.

Washington Olivetto, em um artigo sobre esse mesmo tema, afirma: "Muita gente tem cabeça de colonizado e acaba trocando a maravilhosa sensação de ter seu trabalho reconhecido e prestigiado por milhões de consumidores durante o ano inteiro, pela falsa ilusão de se sentir internacional entre meia dúzia de gatos pingados durante uma semana".

* * * * *

Pois bem: para mim, não há exemplo melhor de propaganda que sabe como se comunicar com o seu público-alvo do que a atual campanha das Casas Bahia. São comerciais que não ganharão prêmios em Cannes, não se destacam pela direção de arte ou fotografia e podem até irritar boa parcela dos telespectadores que não suporta mais ver a cara de seu garoto-propaganda. Mas, deixando preconceitos estéticos de lado, como deveria ser a campanha publicitária de uma rede de varejos voltada para consumidores das classes C e D, com renda mensal de até 10 salários mínimos, e que se não fosse por meio de intermináveis crediários dificilmente conseguiria adquirir móveis e eletrodomésticos?

A propaganda das Casas Bahia é para mim o exemplo perfeito de como se fazer publicidade eficiente: com informações simples e diretas, cunhou um slogan que gruda na cabeça e reforça o nome da marca que vende. Enquanto as Lojas Marabraz anunciam que "preço melhor ninguém faz" e usam a dupla Zezé di Camargo & Luciano para atrair sua clientela, as Casas Bahia consolidaram seu nome no Top of Mind oferecendo seus produtos da forma como seus consumidores podem pagar. Ou seja, como diria Fabiano Augusto: "quer pagar quanto?".

Os resultados são visíveis a qualquer analista de mercado: neste ano, as Casas Bahia terão um faturamento de mais de R$ 5 bilhões. Conseqüência dos investimentos em um filão de mercado formado por clientes de baixo poder aquisitivo, mas que são fiéis e, mais importante, extremamente preocupados em quitar seus débitos com pontualidade, porque se preocupam em manter o nome íntegro na praça.

Este, aliás, é um fato que diz muito a respeito de Brasil e da situação social que vivenciamos: ao contrário das classes economicamente mais "abastadas" (especialistas em sonegar impostos de renda e encontrar atalhos jurídicos para escapar de outras cobranças), pagar contas e carnês em dia é um ponto de honra para a maioria das famílias de renda mais baixa. Irônico? Trágico, certamente; e nem um pouco cômico.