Pergunte para um cinéfilo qual é o melhor musical de todos os tempos. De cada dez entrevistados, provavelmente dois (que não sabem das coisas) dirão que não gostam de musicais, dois citarão títulos que vão de A Noviça Rebelde a Os Guarda-Chuvas do Amor, e os outros seis cravarão na mosca Cantando na Chuva, clássico dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly em 1952.
Pudera: o filme é repleto de músicas marcantes ("Singin' in the Rain", "Good Mornin", "Moses Supposes", "Broadway Rhythm"), e seu roteiro, escrito pela dupla Betty Comden e Adolph Green, não é menos que brilhante ao retratar a transição do cinema mudo para a era dos filmes falados. Some-se ainda um elenco afiadíssimo liderado por Gene Kelly, Debbie Reynolds, Donald O'Connor e Cyd Charisse, e está fechada a química para a gestação de uma obra-prima.
Em vez da já consagrada seqüência de Gene Kelly sapateando debaixo da chuva, optei por destacar neste post o número solo de Donald O'Connor em "Make'em Laugh". Primeiro, porque a seqüência é tão brilhante quanto a de Kelly. Na cena em questão, O'Connor interage com todos os elementos do cenário de um filme (sofá, escada, paredes falsas) com a agilidade de um verdadeiro "clown", enquanto canta "Make'em Laugh", composição de Nacio Brown e Arthur Freed mais conhecida no Brasil pela versão em português cantada pelo palhaço Bozo em seu finado programa no SBT ("Sempre rir, sempre rir/ Pra viver é melhor sempre rir"...). No clímax da seqüência, O'Connor sobe (literalmente) pelas paredes do cenário, antecipando em quatro décadas as estripulias de Jackie Chan em seus filmes de ação.
Sobre as filmagens, O'Connor declarou em entrevista que na época, por filmar cerca de quatro maços de cigarro por dia, ficou completamente extenuado ao fim da seqüência, com o agravante do chão do estúdio ser de concreto, fazendo com que todo o impacto de seus pulos, giros e piruetas fosse canalisado diretamente para seus pés e joelhos. O'Connor só retornou ao set três dias após da filmagem dessa cena, em descanso merecido depois de todo o seu esforço. Quando pisou os pés no estúdio, foi recebido com palmas entusiasmadas de toda a equipe. No entanto, em off, Gene chamou-o para um canto e disse: "Você seria capaz de fazer esse número novamente? É que ninguém checou a abertura da câmera, e perdemos a película de toda a sua seqüência". No dia seguinte O'Connor filmou, enfim, o registro definitivo dessa cena. Seria o primeiro take superior ao que vimos no filme?
O segundo motivo pelo qual escolhi esta seqüência foi prestar uma homenagem a Donald, que faleceu no último dia 27 aos 78 anos de idade.
Gostaria de dominar melhor a arte da fotografia. Por enquanto, me atenho a admirar o trabalho daqueles que sabem como transformar fotos e retratos em imagens capazes de transcender o limite das molduras (por exemplo, o Sergio Fonseca). Quando assisti ao belo documentário Janela da Alma (2002), de João Jardim e Walter Carvalho, que aborda a questão do olhar através de depoimentos de artistas e intelectuais que sofrem de problemas de visão que vão da miopia à completa cegueira, não à toa a entrevista que mais me chamou a atenção foi a de Evgen Bavcar, fotógrafo esloveno.
Bavcar sofreu dois acidentes (uma queda e uma explosão de mina de guerra) que causaram a perda total de sua visão aos 11 anos de idade. Aos 15, tirou sua primeira fotografia: o retrato de uma colega de escola por quem havia se apaixonado. Após estudar História em Ljubljana e Filosofia em Sorbonne, Bavcar intensifica seus experimentos fotográficos, e seu trabalho ganha maior repercussão mundo afora, inclusive inspirando o roteiro de A Prova (1991), ótimo filme dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse, com Hugo Weaving e Russell Crowe. Mas fica a questão paradoxal: como é possível um cego fotografar?
Eis uma questão que ensejaria infindáveis discussões filosóficas, que envolvem tópicos como a autoria de uma obra de arte. Não seria Evgen Bavcar uma espécie de gigolô de imagens, cercado de assistentes que, ao auxiliarem na iluminação, foco, composição, revelação e manipulação das fotos, agiriam como "ghostwriters" (ou, no caso, "ghostphotographers") que fazem o trabalho todo para que outro alguém assine por suas obras?
Por outro lado, afirma Bavcar: ''Há imagens demais, ninguém consegue ver nada. É preciso voltar às trevas para encontrar as verdadeiras imagens". E aí entramos na questão do olhar em uma sociedade contemporânea que vislumbra o mosaico do mundo como quem engole imagens sem mastigar tudo que há para ser visto. Quem lê tantas notícias? Quem vê tantos sites, tantos canais de televisão, tantas placas, outdoors e luminosos na barafunda visual de nossos dias? Sobre o conceito de suas fotografias, Bavcar explica: "Busco a congregação entre os mundos visível e invisível, e a contestação dos métodos tradicionais de percepção da visão". A declaração faz sentido, se pensarmos que o papel da fotografia não se limita ao mero registro figurativo do real.
Criados de acordo com os padrões impostos pela clássica pintura figurativa, fomos programados a pensar em fotos como meios de apreensão da realidade exatamente como nós a enxergamos, "perfeita". Respeitando tais cânones, retratos em que alguém aparece piscando ou coçando o nariz devem ser descartados. No entanto, essas supostas "imperfeições" não retratam a realidade do modo como ela é. Claro, a não ser que alguém pense que a Gisele Bündchen nunca assoa o nariz, ou que a Luciana Vendramini jamais acorda com remelas nos olhos.
Mas a questão continua a incomodar: como pode um fotógrafo incapaz de enxergar suas próprias fotos defender a autencidade de seu trabalho? Tendo a ver (trocadilho involuntário) os trabalhos visuais de Bavcar como estudos que só ganham valor se acompanhados por seu manual de instruções. Como certas instalações de Bienal, que se localizadas em um terreno baldio seriam confundidas com sucatas abandonadas, as fotografias de Evgen Bavcar, embora plasticamente admiráveis (vale a pena, a propósito, conhecer as suas fotos), só ganharam a dimensão e o reconhecimento atuais por conta do discurso filosófico que as sustenta.
Tudo começou quando, em 31 de março de 2002, publiquei um editorial no Spam Zine intitulado "Trocando de biquíni sem parar". O texto, inspirado no site Kiss This Guy, discorria a respeito dos erros involuntários que cometemos ao cantar certas músicas. O exemplo clássico é o velho hit do grupo Brylho, "Noite do Prazer", do famoso refrão "na madrugada vitrola rolando um blues/ tocando B. B. King sem parar". Oras, quase ninguém canta esses versos corretamente. A maioria entoa "trocando de biquíni sem parar", embora haja quem cante "tocando Jimmy Cliff sem parar", "trocando de vitrine sem parar" e até mesmo a versão mais libidinosa: "na madrugada vitrola rolando, nus, trocando de biquíni sem parar".
O texto fez inesperado sucesso: recebi dezenas de e-mails com novos exemplos de virunduns. Após ter publicado doisposts neste blog sobre o mesmo tema (novamente com dezenas de feedbacks de leitores confessando outras viagens maionésicas), criei, junto com meus colegas Marmota e Ian, uma página exclusivamente dedicada aos virunduns. O blog fez mais sucesso do que o esperado: ganhou matérias na Folha de S. Paulo, O Globo, Jornal da Tarde, Correio Braziliense e Isto É Gente. Pudera: o que tem de gente que canta versos como "Scubidu dos sete mares", "Alagados, Nescau, Favela da Maré", "é você que é mal-passado e não vê", "alô alô lavem o Brasil", "solto a avó na estrada", "tira essa bermuda que eu quero ver seu sexo", "verás que um filisteu não foge à luta"...
Mas enfim, todo esse preâmbulo serviu apenas para informar que os virunduns agora tem domínio próprio. Atualizem seus bookmarks!
Em tempo, preciso confessar o virundum que mudou a minha vida, enviado por Carla Regina Zuquetto:
"Me lembrei de um virundum que já virou versão oficial. Em todo caso, quando eu descobri isso fiquei surpresa! É do poeminha da batatinha: 'Batatinha quando nasce ESPALHA RAMA pelo chão', não 'se esparrama'. Alguém consegue imaginar uma batata recém-nascida se esparramando pelo chão??"
Portas fechadas, portas fechadas: o psiquiatra e a mulher deixavam sempre aberta a do quarto das filhas e às vezes, enquanto faziam amor, as palavras confusas dos sonhos delas misturavam-se com os seus gemidos numa trança de sons que os unia de um modo tão íntimo que a certeza de nunca se poderem separar como que apaziguava o receio da morte, substituindo-o por uma tranquilizante sensação de eternidade: nada seria diferente do que então era, as filhas não cresceriam nunca e a noite prolongar-se-ia num enorme silêncio de ternura, como o gato espapado de sono junto ao calorífero, a roupa ao acaso nas cadeiras, e a companhia fiel dos objectos conhecidos. Pensou em como no cobertor da cama se multiplicavam manchas brancas de esperma e cones vaginais, e de como na almofada da mulher havia sempre pegadas de rímel, pensou na indizível expressão dela quando se vinha ou de quando, sentada sobre ele, cruzava as mãos na nuca e rodava o corpo para um e outro lado a fim de lhe sentir melhor o pénis, com os seios grandes balouçando de leve no tronco estreito.
"De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo".
Já perdi a conta de quantas vezes encontrei o parágrafo acima em blogs, listas de discussão e e-mails. Mais do que a velocidade com que a mensagem se propagou ou a espantosa quantidade de blogueiros que postaram essa mesma frase, o que me saltou aos olhos foi a relação desse case com a intrigante teoria dos memes.
Resumindo grosseiramente, memes seriam vírus mentais que se reproduzem feito Gremlins molhados, e que se propagam mundo afora hospedando-se nos cérebros de incautos como eu e você. Segundo o biólogo Richard Dawkins, que cunhou o conceito em seu livro O Gene Egoísta, memes podem ser "músicas, idéias, slogans, modas de roupas, modos de fazer vasos ou de construir arcos". Uma vez incutidos em nossos cérebros-hospedeiros, são passados adiante através da imitação (o termo é originário da palavra grega "mimeme", "imitação" em grego).
E assim, nesse processo de "Maria vai com as outras", febres passageiras (como bambolês e tamagotchis) ou não (contar piadas de elefante, cantar Parabéns Pra Você em festas de aniversário) difundem-se mundo afora, da mesma maneira que músicas infames (de Florentina de Jesus à Egüinha Pocotó), modismos de estação (dança da Macarena, calças semi-bag, piercing no umbigo), lendas urbanas e tudo o mais que possa ser transmitido culturalmente. Agiríamos, pois, como aquele torcedor de estádio de futebol, que vê a multidão se levantando em uma ola e repete o gesto mecanicamente. Ou como o participante de uma flash mob ocorrida na Avenida Paulista que, ao ser indagado sobre o porquê da sua participação, declarou: "foi boa a sensação de estar fazendo parte de alguma coisa, mesmo sem saber pra que ela servia". Como afirmou Timothy Leary, "memes são conceitos-chave que podem ser perfeitamente manipulados a fim de programar mentes alheias" (alguém aí pensou no slogan da Nova Schin?).
Como não poderia deixar de ser, grande parte dos cientistas sequer reconhece a existência de memes. Pudera: a julgar pelo seu conceito, seres humanos podem ser vistos como autômatos programáveis dentro dos quais idéias, modas e teorias se reproduzem em um embate constante a fim de sobreviverem e serem propagados para as gerações seguintes. Idéias e ideologias, portanto, seriam transmitidos por "contágio", e não por convicção ou livre arbítrio. Reportagem de Jerônimo Teixeira publicada na Superinteressante deste mês cita uma afirmação lapidar do filósofo americano Daniel Dannett sobre o tema: "um acadêmico é apenas o meio que uma biblioteca utiliza para produzir outra biblioteca". Richard Dawkins chegou a afirmar, em seu livro Viruses of the Mind, que as religiões não passam de "complexos de memes co-adaptados" (e você que achava que Diogo Mainardi é polemista).
Esteja correta ou não, é estimulante saber mais a respeito da memética, a disciplina dedicada ao estudo teórico dos memes. Para tanto, vale a pena conhecer os textos de estudiosos como a psicóloga Susan Blackmore, ou simplesmente fazer uma busca no Google (há mais de 2 milhões de sites sobre o assunto). Afinal de contas, haveria terreno mais fértil para a propagação de teorias, fundamentadas ou não, que a Internet?
Perdizes é um bairro de topografia muito acentuada. Repleta de barrancos, escadarias e colinas, obriga carros menos possantes a apelarem para a primeira marcha: trata-se de uma verdadeira montanha-russa de ruas. A região, que concentra grande número de prédios residenciais, começou, de dois anos para cá, a ganhar contornos comerciais. Marcas como Blockbuster, Sotto Zero, Bank of Boston e Gelateria Parmalat tornaram-se presentes, causando reviravolta significativa (e simbólica dos tempos de globalização) no perfil de um bairro caracterizado por logradouros com nomes de origem indígena, como Caiubi, Kaiowaa, Apiacás e Caetés, que é a rua onde moro.
Mas, antes de falar da Caetés, uma curiosidade histórica a respeito do bairro. Segundo o historiador Antônio Egydio Martins, no local onde hoje se encontra Perdizes residia em 1850 um vendedor de garapa chamado Joaquim Alves. Sua enteada, Tereza de Jesus Assis, foi uma senhora dedicada à criação, no quintal de sua casa, de grande (e barulhenta) quantidade de aves. Para se referirem à região, os moradores da provinciana São Paulo da época diziam: "nos campos das perdizes", "lá onde há perdizes", "nas perdizes", e assim foi até o nome pegar.
Hoje os sons mais comuns são outros. Em vez de aves, temos buzinas de carros, a Pour Elise de Beethoven no arranjo nauseabundo dos caminhões de gás e vendedores anunciando o "puro e delicioso creme de milho das pamonhas de Piracicaba". De dois em dois meses, essa monótona trilha sonora tem a sua rotina quebrada por um apito que nos remete a épocas mais românticas. É Severino Rodrigues, 36 anos, anunciando às empregadas e donas-de-casa da rua Caetés e imediações que o amolador de facas chegou.
Severino carrega nas costas uma espécie de bicicleta adaptada para sua profissão; ao pedalar, faz girar um disco de pedra de esmeril, ligada ao pedal por uma tira de borracha, e por meio do qual afia facas e tesouras, a R$ 2,00 ou R$ 3,00. "Trabalho há quinze anos como amolador, desde que cheguei de Sergipe", afirma. Apesar de sua profissão estar condenada à extinção, possui uma freguesia fiel, que visita de dois em dois meses. Durante esse intervalo, circula por outros bairros: Bom Retiro, Lapa, Freguesia do Ó, Ipiranga. Severino trabalha apenas como amolador, e sua renda diária oscila entre R$ 30,00 a R$ 40,00. Dirce Calamita, 60 anos, moradora de um sobrado da Caetés, elogia o serviço: "sou freguesa dele há dez anos". Aparentemente Severino não foi afetado pela chegada ao país das Facas Ginsu.
Dona Dirce mora na Caetés desde 1963, quando se instalou com seu marido, Josué, falecido há três anos. Lembra-se, com nostalgia, de uma época na qual Perdizes era um bairro constituído basicamente por casas e sobrados. Segundo a viúva, os prédios começaram a aparecer nos anos setenta, junto com o milagre econômico. Um marco importante no desenvolvimento do bairro foi a construção da Avenida Sumaré, que cruza a Caetés, em 1965. "Foi o fim da minha tranqüilidade", lamenta. Sua má sorte consiste no fato de morar quase na esquina com a Sumaré, local que se tornou um dos principais points dos notívagos paulistanos, habitués de locais como o restaurante Pantanal e o Fran's Café. Contudo, a Caetés ainda reserva espaço para pontos comerciais "demodês" como a Sapataria Expresso, número 560.
Outro dia precisei recorrer aos préstimos da sapataria a fim de consertar a fivela de um sapato. Apesar do nome, fiquei dez minutos aguardando pelo responsável. João Carvalho, 27 anos, saíra para tomar um lanche, deixando a "Expresso" aos cuidados de um vizinho que "dá umas olhadinhas no local" enquanto o dono está fora. Proprietário e único funcionário da sapataria (na verdade a garagem improvisada de um sobrado), João herdou o ponto do pai, antigo morador do bairro. Gosta muito de morar na Caetés, mas queixa-se do aumento da criminalidade. "Assaltaram minha Brasília 77 há dois meses", reclama. Outro problema social crescente é a proliferação de crianças de rua, atraídas principalmente pela agitação noturna da Sumaré. Os "flanelinhas" são presença constante por toda a avenida, em frente à Blockbuster, Brunella, o restaurante Juca Alemão e outros lugares badalados.
Quanto a mim, moro em um prédio localizado no final da Caetés. A rua, sem saída, desemboca em uma escada que leva até a Praça Irmãos Karmann, logo em frente à Avenida Sumaré. Venâncio, 30 anos, porteiro do meu prédio durante o último turno da noite, aprecia a vizinhança e pretende morar em Perdizes um dia. Gosta do trabalho e dos moradores, mas tem uma queixa a fazer: uma decisão tomada na última reunião do condomínio decretou que a televisão da guarita onde trabalha só pode ser ligada em casos excepcionais (Copa do Mundo, por exemplo). Por causa disso, tem sistematicamente perdido os jogos do Santos. "Agora, só com radinho", suspira.
P.S.: o texto acima foi escrito originalmente para um trabalho de faculdade, há três anos, com o singelo tema "A Rua Onde Moro".
Em meados dos anos 80, Adilson "Maguila" Rodrigues empolgava multidões de incautos em suas lutas de boxe, geralmente transmitidas pelo recém-finado Show do Esporte da Rede Bandeirantes, com narração de Luciano do Valle e comentários de Newton Campos (a memória, esse infindável baú de lembranças inúteis). Não que ele fosse um grande boxeador: o nosso Maguila nunca teve a técnica ou a pegada de nomes como Sugar Ray Leonard, George Foreman e Oscar de La Hoya. Mas, para um Brasil continuamente carente de ídolos, era bacana torcer por um cara simples, humilde e, acima de tudo, carismático. E vejam que, antes de encerrar a carreira, Maguila conseguiu ganhar o cinturão de campeão mundial. Ok, foi pela sexta ou sétima associação de boxe em grau de importância; mas enfim, o importante é o que importa.
Contudo, o que me levou a citar Maguila neste post é o hábito que ele possuía de, a cada luta ganha, tecer um infindável rol de agradecimentos aos microfones da televisão: "seu Luciano, eu gostaria de agradecer à minha esposa, aos meus pais, a fulano de tal que é prefeito de Guarulhos, ao Juarez Soares, à Lousano que é minha patrocinadora, ao seu Bassi que me oferece umas carnes do 'restaurantchi' dele, ao seu José que é o barbeiro que fez este corte 'bunitchu' no meu cabelo", etc etc. Pois bem: chegou a hora de incorporar o espírito de nosso simpático lutador com apelido de desenho da Hanna Barbera.
Carla Ivana, obrigado pelo trabalho que você teve na criação de um template personalizado para meus comentários. Cumpadi Matusalém Matusca, também lhe devo um agradecimento (fora o Xsara Picasso, mas essa é outra história) por ter criado esta pequena jóia pra lá de bacana para o meu blog:
O que faz de um fato uma notícia? Outro dia encontrei a seguinte manchete na home-page do UOL: Britney Spears lambe pirulito que caiu no chão durante entrevista. Quer dizer que basta um "artista" (ah, essa palavra tão banalizada) fazer algo inusitado como plantar bananeira durante uma coletiva, ou cutucar o nariz no meio da gravação de um videoclipe, para que isso vire manchete em revistas, jornais, portais de Internet?
* * *
Fazendo meu costumeiro zapping pelos canais da TV, fui obrigado a parar alguns instantes no programa do Sérgio Mallandro para tentar assimilar a notícia que estava sendo anunciada por ele: "ganhei um prêmio da Academia Brasileira de Letras". Cético, fui vasculhar a Internet em busca de maiores informações, e eis que me deparo com a informação: Sérgio Mallandro recebeu o Prêmio Austregésilo de Athayde de Melhor Apresentador de Programa de Humor. Mais incrível foi descobrir outros contemplados com essa singela laureação: Zezé di Camargo & Luciano (Melhor Dupla Sertaneja), Rouge (Melhor Grupo Revelação), Swing & Simpatia (Melhor Grupo de Pagode), "A Praça é Nossa" (Melhor Programa de Humor) e "Falando Francamente com Sonia Abrão" (Melhor Programa de Variedades). Vocês só acreditam vendo? Então cliquem aqui.
Mas é preciso dizer que esse prêmio não é dado pela Academia Brasileira de Letras; apenas a cerimônia de entrega é realizada lá. O (ir)responsável por tudo isso é Alexandre Austregésilo de Athayde, produtor cultural e neto do ex-presidente da ABL. Em entrevista ao jornal O Dia, Alexandre afirma: "O nome do doutor Austregésilo dá credibilidade à premiação". A-hã.
A propósito: "TV Fama", singelo programa da Rede TV que, basicamente, consiste em apresentar fofocas da vida de artistas (sic), foi considerado o Melhor Programa de Entretenimento. Parafrasendo Nelson Rubens, "eu aumento, mas não invento!".
A esta altura do campeonato, quase todos já foram bombardeados com aquele comercial em que um monte de incautos oferecem a Nova Schin com o pegajoso slogan: "Experimenta! Experimenta! Experimenta!". Em meio a aparições-relâmpago de personalidades (sic) como Thiago Lacerda, Luciano Huck e Aline Moraes, eis que uma multidão mesmerizada pelo irresistível (cof, cof) sabor da Nova Schin encontra Zeca Pagodinho bebericando umas e outras em um boteco de beira de estrada. Um rapaz detém a passeata, cochicha algo no ouvido de Zeca e ele acaba tomando um gole da bendita cerveja.
Pois bem, eis a razão da nova chorumela: o que o cara sussurrou no ouvido do Zeca Pagodinho? Alguém que não tinha muito o que fazer da vida teve a pachorra de gravar um trecho desse comercial, inverter o áudio e amplificar o volume. O resultado? O rapaz teria dito:
- Vê se tu bebe isso aí agora cara, ou eu pego essa garrafa e enfio no seu rabo!
Não demora muito, aparecerá quem queira processar a Schincariol por induzir jovens a beber cerveja utilizando mensagens subliminares e palavras de baixo calão. Que dureza... Depois dessa, não dá vontade de tomar uma Dreher, aquela que "desce macio e reanima"? Melhor mesmo é ficar com a versão do comercial feita pelo Kibe Loco.
19.9.03 Uma esticada ali, um Botox aqui, e eis o resultado: Pensar Enlouquece com novo visual. Graças, principalmente, a Suzi Hong, criadora do logotipo bacana que a partir de hoje identifica este blog. E, bem, já que é hoje o dia das novidades, eis mais uma:
Começou a primeira fase de votações do iBest, maior premiação da Internet brasileira. No ano passado, Pensar Enlouquece foi um dos três finalistas da categoria iBest Blog, pela votação popular. Vamos ver se consigo, ao menos, repetir a dose neste ano ("com o apoio dessa maravilhosa torcida e seguindo as orientações do professor, esperamos trazer um bom resultado..."). Para tanto, basta clicar neste singelo link:
Não costumo lembrar de meus sonhos, talvez porque eles não sejam interessantes o suficiente para sobreviver à luz do dia. Um amigo meu, ao tentar me ensinar a técnica para reter os fiapos de sonho após o sono, me passou a seguinte dica: deixar sempre um bloco de anotações e uma caneta ao lado da cama, e tratar de anotar tudo imediatamente após acordar. Pois bem, dito e feito. No meio da noite acordei, ainda bêbado de sono, escrevi tudo que havia acabado de sonhar e mergulhei novamente nos braços de Morfeu. Cerca de cinco horas depois, quando levantei pra valer, procurei pelo bloco. Mas nem em sonho eu conseguiria entender o que queriam dizer aqueles garranchos dignos de caligrafia de médico. Desencanei da tal técnica.
Mas não posso deixar de invejar aqueles cujas tramas oníricas são dignas de Oscar. A Suzi, por exemplo, precisa um dia pôr no papel o sonho em que eu apanhei de tanta gente que os caras foram obrigados a fazer fila pra me dar porrada. Êta inconsciente violento o dessa menina! Mas enfim, pra não dizer que nunca sonhei nada de interessante, narrarei a seguir um que tive há alguns anos.
Estava eu subindo uma escada muito alta, tão alta que se erguia para além das nuvens. A certa altura, os degraus tornaram-se tão grandes que fui obrigado a escalar um por um a fim de continuar subindo. E assim o fiz, de degrau em degrau, até alcançar o cume. Só quando finalmente sentei para descansar e enxugar o suor que escorria da testa é que reparei: havia um elevador logo ao meu lado! Imediatamente após pousar meus olhos nele, o elevador abriu suas portas. Duas crianças, que não deviam ter mais do que cinco anos de idade, desceram dele. Nossos olhares se encontraram. Sem qualquer tom de malícia, censura ou gozação, elas apontaram seus dedos em minha direção. E então, sorriram para mim.
16.9.03 Não sei por que a novela das oito continua sendo chamada de "novela das oito" quando ela nunca começa nesse horário, mas deixa pra lá: tergiverso, tergiverso. O que realmente me expressiona em Mulheres Apaixonadas (novela que tem até blog) é a repercussão ganha por tudo que acontece nesse dramalhão. Atores que fazem papéis de vilões, como Regiane Alves (intérprete de Dóris, uma neta desnaturada que maltrata os avós), Ana Roberta Gualda (Paulinha, uma filha desnaturada que maltrata o pai) e Dan Stulbach (Marcos, um marido desnaturado que maltrata a patroa), têm sido até mesmo agredidos nas ruas, tal é a revolta que seus personagens causam nos espectadores.
O melodrama de Manoel Carlos reverbera até mesmo neste cafofo virtual: semana passada recebi diversas visitas de internautas procurando por "No Caminho com Maiakóvski", poema de Eduardo Alves da Costa lido por Helena, personagem de Christiane Torloni. Graças à visibilidade dada por Mulheres Apaixonadas, as obras completas do Eduardo serão reeditadas e voltarão nas livrarias daqui a um mês. Outro exemplo blogueiro: após o movimento Gabriela Sou da Paz ter sido divulgado em capítulo exibido dia 6 de setembro, um post escrito por Claudia Letti em 4 de julho recebeu mais de 100 comentários provenientes de internautas que encontraram seu texto através do Google.
Contudo, preciso dar um destaque especial para a atriz que ilustra este post (em banner criado por Vincent Vega, do Mundo Foderoso). Manoelita Lustosa é a intérprete de Inês (basicamente, uma avó desnaturada que maltrata a neta), a personagem mais odiosa dessa novela, apesar da concorrência acirrada. Manoelita, atriz mineira, faz o seu primeiro papel na televisão. De maneira mais do que competente, diga-se de passagem: poucas vezes vi uma personagem tão grotesca e asquerosa. Baby Jane é fichinha perto da avó da Salete.
Em tempo, só me recordo de uma outra novela com tantos vilões reles, ordinários, cruéis, desprezíveis e ruins pra dedéu: Vale Tudo, escrita por Gilberto Braga em 1988, cuja Liga da Injustiça incluía os pérfidos Odete Roitman, Maria de Fátima, César Ribeiro e Marco Aurélio. Alguma outra lembrança?
- Se noites insones matam neurônios, eu sou o Pol Pot do meu próprio cérebro.
- Por onde anda Dóris Giesse?
- Traquinas é um adjetivo assaz demodê.
- O som de uma tevê fora do ar é igual ao de um chuveiro ligado. Shhhhhhhh...
- Falsidade é uma goiaba cujo sorriso verde esconde a tristeza que sangra vermelha por dentro.
- Experimenta! Experimenta! Experimenta!
- Ser sociável é aplicar o conceito de trompe l'oeil às relações humanas.
- Como é terrível passar uma noite em claro com uma música da Christina Aguilera na cabeça.
- Piada interna é coisa de pinto sem cu.
- Achei a frase mais brega de todos os tempos: "a procura do amor perfeito é a força que me faz viver a cada dia".
- Superego se dissolve em insônia.
- Sono é um barco no qual você só consegue entrar depois que esquece que ele está lá.
Os aspirantes a Rob Fleming deliram com essas listas, não sem motivos. O American Film Institute (AFI) divulgou, ano passado, uma relação com os 100 melhores filmes românticos da história do cinema norte-americano. A lista completa, acessível aqui, é encabeçada pelo incontestável Casablanca, clássico de 1942 protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Em segundo lugar, os membros da AFI, elegeram ... E o Vento Levou, obra-prima de 1939.
Não vou reproduzir aqui a lista completa, vão lá e confiram. Só gostaria de comentar o detalhe que mais me chamou a atenção nessa votação: em sete dos dez filmes mais votados, o casal de protagonistas não fica junto no final do filme. Esse aspecto me fez lembrar de cara Filosofia da Composição, texto em que Edgar Allan Poe explica, com minúcias, como compôs O Corvo, seu poema mais famoso. Chamo a atenção para este trecho em particular:
"(...) considerando o belo como o meu terreno próprio, perguntei-me: 'Qual é o tom para a sua manifestação mais alta?'. Este seria o tema de minha seguinte meditação, e toda a experiência humana nos leva a crer que esse tom é o da tristeza. Qualquer que seja seu parentesco, a beleza, em seu desenvolvimento supremo, induz às lágrimas, inevitavelmente, as almas sensíveis. Assim, a melancolia é o mais idôneo dos tons poéticos".
Poe, neste trecho originalmente publicado em 1845, acertou em cheio. Pois explica o porquê do fascínio que histórias de amor malsucedidas imprimem em nosso inconsciente coletivo. Casablanca seria o clássico que é hoje se Rick e Ilsa concretizassem sua relação e fugissem juntos, felizes feito dois idílicos pombinhos? "Never", balbuciaria o corvo de Poe - porque clássico que é clássico termina com final em branco, uma página inacabada na qual a imaginação de cada espectador desenhará toda uma miríade de possibilidades após a descida dos créditos finais. Do mesmo modo, pense em outros finais infelizes e definitivos em nosso background cultural: Romeu & Julieta, Doutor Jivago, Annie Hall, O Morro dos Ventos Uivantes. Alguém realmente acredita que tais obras teriam o mesmo carisma se terminassem como nos contos de fadas?
Como bem escreveu mestre Paulinho da Viola, "lágrimas são as pedras preciosas da ilusão".
Estava em casa, ainda digerindo o café da manhã. Sentado em frente ao computador, comecei a puxar os e-mails, quando me deparei com a manchete na home-page do UOL: "Avião choca-se com o World Trade Center". Não dei muita atenção para o fato. Imaginei que fosse apenas um teco-teco, e que o incidente fosse um desses sem maiores conseqüências, como o episódio pitoresco em que um ultraleve pousou na praça do Kremlin, anos atrás. Estava mais preocupado, na verdade, em apagar os spams que entulhavam minha caixa postal. Por que cargas d'água havia recebido um e-mail divulgando o curso de adestramento de cachorros de Zoraide D'Almeida?
Só comecei a perceber a seriedade da coisa quando voltei a navegar pela página inicial do portal: outro avião havia se chocado com o WTC. Duas cajadadas no mesmo coelho e no mesmo dia? Liguei a televisão. Na Globo, Carlos Nascimento fazia a locução do caos, ao vivo. Um Boeing havia atingido o Pentágono.
- Ei, mãe!
Dona Sayoko, ainda com o avental de lavar louça, veio até a sala, atraída pelo meu berro. Naquele instante, todos os canais exibiam as mesmas imagens veiculadas pela CNN, e uma avalanche de informações desencontradas era vomitada por jornalistas atordoados. Falava-se em mais quatro aviões seqüestrados, sobrevoando a América feito os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Diziam que bombas tinham explodido um shopping center em Washington, e que o Capitólio estaria em chamas. Era um dilúvio de informações, uma (literalmente) mais bombástica que a outra. A imagem que veio à cabeça naquela hora: a cena final de Clube da Luta, em que prédios ruíam um após o outro feito castelos de areia.
Ficamos, eu e minha mãe, estatelados em frente à televisão, com cara de espectadores desnorteados assistindo a um filme finlandês com legendas em aramaico, ansiosos por compreender o que estava, afinal, acontecendo. Ambos com um aperto incômodo no coração, pensando em minha irmã que morava em Miami mas ia viajar exatamente naquele dia para Porto Rico. Será que ela estava em um daqueles aviões supostamente seqüestrados? Discamos várias e várias vezes para o celular da Carla, mas as ligações sempre caíam na caixa postal.
De repente, eis que uma das torres do World Trade Center, enorme qual o símbolo fálico da pujança econômica de Wall Street, desabou feito aquela casa de palha dos Três Porquinhos. Naquele exato instante percebi: live from New York, a História folheava seu mais novo capítulo. Trinta minutos depois, com a derrocada da outra torre, os Estados Unidos haviam sido castrados de vez. Naquele momento, a questão que todos faziam era: quem seria a Lorena Bobbit do terrorismo internacional, ousada a ponto de decepar os dois maiores prédios da capital mundial do capitalismo?
Passei o restante do dia em casa, hipnotizado em frente à TV ou conectado na Internet, buscando entender o que meus olhos tinham acabado de testemunhar. Quanto à minha irmã, ela acabou telefonando duas horas depois da queda das Torres Gêmeas, para avisar que estava tudo bem com ela. Sua viagem, obviamente, havia sido cancelada. Pelo telefone, ela descrevia sua visão: dezenas de pessoas choravam no meio das ruas. Haviam perdido o hímen da ilusão de que a América era imune a esse tipo de tragédia, tão comum em outros confins.
Ao final daquele 11 de setembro de 2001, três minhocas perambulavam macambúzias em meu cérebro: Apreensão, Perplexidade e Tristeza. Meu desconsolo maior estava em saber que, ao contrário da Guerra dos Mundos do programa de rádio de Orson Welles, as cenas que eu vira foram 100% reais. Naquele dia, a realidade goleara Hollywood por quatro aviões a zero.
Morreu ontem, aos 101 anos de idade, a cineasta e fotógrafa alemã Leni Riefenstahl. Se dependesse apenas de méritos artísticos, a morte de Leni seria unanimemente lamentada. Documentários como O Triunfo da Vontade (1934) e Olympia (1938) são admirados por cinéfilos e críticos, devido a suas inovações técnicas e estéticas. O cerne do problema: ambos os filmes são peças de propaganda encomendadas pelo regime nazista.
Não à toa, sua carreira como cineasta soçobrou após o fim da Segunda Guerra Mundial, e Leni acabou encontrando na fotografia a válvula de escape de seus impulsos artísticos. Mas não posso deixar de pensar: se os nazistas tivessem vencido a guerra, provavelmente o mundo lamentaria hoje a morte da mais talentosa cineasta de todos os tempos. Ok, felizmente escapamos dessa. Mas e a obra da artista, pode ser julgada independemente de sua ideologia? A melhor resposta pode ser dada por Steven Spielberg, judeu e familiar de sobreviventes do Holocausto, que declarou admirar o gênio de Riefenstahl como cineasta.
Muitos não sabem, ou não querem, separar a obra da vida de um artista. Mas é de se perguntar: o que diferencia Leni Riefenstahl de um cineasta como o norte-americano D. W. Griffith, que em sua obra-prima Nascimento de uma Nação (1915) coloca membros da Ku Klux Khan como os "mocinhos" do filme? No entanto, como desprezar as inovações desse filme de Griffith, pioneiro no uso de close-ups, desenvolvimento de ações paralelas, profundidade de campo? E o que dizer de Elia Kazan, diretor de clássicos como Sindicato de Ladrões (1954) e Clamor do Sexo (1961), que entregou 12 nomes de filiados ao Partido Comunista americano ao Comitê de Atividades Anti-Americanas (comandado pelo famigerado senador Joseph McCarthy) em 1952 e foi estigmatizado como delator?
Os (anti) exemplos não acabam. O compositor alemão Richard Strauss, autor de Assim Falou Zaratustra (tema da abertura de 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick), aderiu ao nazismo. Ezra Pound, um dos maiores poetas americanos de todos os tempos, inspirador e divulgador de autores na época ainda desconhecidos (como James Joyce, Robert Frost e T. S. Eliot), foi militante do fascismo e anti-semita convicto. O maestro Herbert von Karajan, que durante 35 anos regeu a Filarmônia de Berlim, foi duas vezes filiado ao Partido Nazista. Louis-Ferdinand Céline, escritor francês, autor dos romances Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito, também foi ferrenho anti-semita e colaboracionista.
O que fazer com as obras destes e de outros artistas que tiveram em algum momento de suas vidas ligação com ideologias espúrias, como Roberto Rosselini, Gabriele D'Annunzio, Knut Hamsun, Dziga Vertov? Simplesmente desprezá-las, em detrimento de seus evidentes méritos artísticos? Resposta inaceitável, ao menos para mim. Porque para os leitores da revista Bravo a discussão vai longe...
Pois bem, bem de acordo com o clima abobado do post, Glauco Cruz ilustrou magistralmente o texto (o desenho ao lado é só uma amostra, para ver a ilustração completa, clique aqui). Ah sim: pra quem ainda não reconheceu, eu e Suzi somos esse singelíssimo casal com sorvetes na testa. Em minha defesa, só gostaria de dizer que minha arcada dentária é um pouco mais bonitinha que na caricatura. :)
A obra de Sérgio Porto (1923-1968) é, indiscutivelmente, uma de minhas maiores inspirações. Motivos? Humor crítico, ouvido apurado e linguagem repleta de insights saborosos. Mais conhecido pelo pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (nome inspirado por Serafim Ponte Grande, personagem de Oswald de Andrade), Sérgio é o autor de inúmeras frases que, de tão bem sacadas, vêm sendo perpetuadas geração após geração. Alguns exemplos?
- Se peito de moça fosse buzina, ninguém conseguiria dormir nesta cidade.
- Cachorro que cobra mordeu tem medo de lingüiça.
- Passarinho que come pedra sabe o que lhe advirá.
- A única coisa boa da televisão é o botão de desligar.
- A prosperidade de certos homens públicos no Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso de nosso subdesenvolvimento.
- Mais vale um filé no prato que um boi no açougue.
- Levou um susto e ficou mais branco que bunda de escandinavo.
- Sentiu que tinha lingüiça debaixo do angu.
- O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.
- Tirante mulher, a gente só deve recomendar o que experimentou e gostou.
Boêmio que adorava ficar em casa, workaholic bon vivant, humorista a sério. Sérgio Porto foi um homem repleto de qualidades paradoxais. E de atividades: jornalista, redator e apresentador de televisão, compositor, radialista, dramaturgo, bancário. Carioca da gema, cunhou sob a alcunha de Stanislaw Ponte Preta personagens marcantes como a Tia Zulmira, o Rosamundo e o Primo Altamirando. Mas seu legado maior talvez tenha sido a criação do FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assolam o País. Tal denominação surgiu para compilar a cada vez maior coleção de frases, recortes de jornais, atitudes e resoluções imbecis da gente importante (sic) que mandava na gente. E isso, em plena ditadura.
Pois foi em 1966 que Sérgio Porto publicou o primeiro volume do FEBEAPÁ. Dentre as inúmeras asneiras colhidas pelo autor, destacam-se pérolas como o artigo publicado pelo jornal O Pulso, de Mato Grosso, que afirmava em uma de suas manchetes: "Coração mata por ano 50 por cento dos finlandeses". Título que levou o autor a dizer, logicamente: "Nesse caso morre metade este ano, no ano que vem a Finlândia acaba". Outro exemplo: o coronel Costa Cavalcanti, deputado pernambucano, afirmara que a candidatura biônica do Marechal Costa e Silva à Presidência cheirava a povo. "Mostrando um defeito olfativo realmente impressionante", complementou seu alter-ego Stanislaw.
E as besteiras continuavam dando mais que cará no brejo. Em Brasília, um Diretor de Suprimento proibiu a venda de vodca, alegando que era para combater o comunismo. Na TV, uma apresentadora, ao mediar um debate entre mulheres de várias religiões, concluiu: "Todas elas acreditam em Deus. É um consenso em comum". Durante a transmissão de um jogo do Palmeiras, um radialista narrou assim a entrada de um médico para tratar de uma contusão sofrida pelo craque Ademir da Guia: "Acaba de adentrar o gramado o facultativo esmeraldino, com o objetivo precípuo de atender ao descendente do Divino, peça fundamental da esquadra periquita!". Enquanto isso, a Estrada de Ferro Central do Brasil, preocupada em modernizar seus serviços, anunciou a contratação de distintas moças selecionadas para fazerem serviços semelhantes ao das aeromoças. Mas, como as incautas exerceriam suas funções em trens, resolveram por bem denominarem-nas de ferro-moças. Vaticinou o mestre: "Taí um apelido que promete dar em besteira a bordo".
Sérgio Porto morreu cedo demais, aos 45 anos de idade. Levou consigo Stanislaw, seu amor pelo samba e jazz e seu humor corrosivo, deixando para trás inúmeras viúvas e amigos inconsoláveis. Pena que o Festival de Besteiras continua assolando o País; e que sua obra não é tão conhecida quanto deveria, apesar de permanecer viva, serelepe, deliciosamente cáustica e atual.
Semana passada recebi um e-mail muito bacana da Patrícia, uma leitora de Belo Horizonte, que cita um antigo texto que publiquei em meu primeiro e abandonado site. Nele, digo o seguinte:
Quando você é criança, pensa que poderá fazer de tudo: ser astro de cinema, cientista maluco, cantor das multidões, líder revolucionário. Tudo seria mera questão de tempo, e assim alimentávamos utopias enquanto esperávamos o sono chegar, fingindo, para nossos pais, que já estávamos dormindo.
Crescer é um processo no qual pouco a pouco vamos nos desvencilhando desses sonhos, acuados pelos espinhos do tal mundo adulto. Tornamo-nos "maduros", "responsáveis", e assim vamos largando planos pelo caminho. O grande perigo é o de acabarmos nos concentrando em apenas um: como arranjar dinheiro para pagar as contas.
Ainda não cheguei a tal ponto trágico, já que ainda almejo trabalhar com algo relacionado com o que mais aprecio fazer, que é escrever. Enquanto isso, vou mantendo os pés no chão trabalhando como caixa de banco, enquanto miro as estrelas lá no céu.
Hoje, quatro anos após ter redigido essas linhas, ainda me identifico com o que escrevi. Mudei de emprego, mas continuo trabalhando em um banco. Minhas contas e obrigações familiares não me permitem, por enquanto, dar uma de porra louca para tentar viver exclusivamente de literatura ou jornalismo, ainda mais em tempos difíceis nos quais tantagentequalificada ainda engrossa as estatísticas de desemprego. A propósito: faço free-lancers jornalísticos sobre qualquer editoria. :)
Em outro trecho desse mesmo texto, tergiverso sobre tempos mais amenos: os indefectíveis anos 80.
Minha infância não teve pipas, não corri atrás de balões, não rodei pião nem joguei amarelinha. Brinquei de pega-pega, passa-anel e esconde-esconde, e joguei bafo com as figurinhas do Paulistinha, que trocava por notas fiscais. Mas as coisas que realmente marcaram meus "anos incríveis" foram Atari, cubo mágico, Aquaplay e Merlin.
Quando estudei geografia no primário, conheci países como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Passei uma noite inteira acordado depois que assisti a "The Day After". Desconhecia refrigerantes com tampinha de rosca. Meu vocabulário incluía palavras como "vitrola". Havia um televisor Telefunken P&B aqui em casa que, quando desligado, permanecia com um ponto branco brilhando no meio do monitor por uns 15 segundos. Controle remoto era um cabo de vassoura. O primeiro computador que tivemos foi um TK-85, cujos programas eram gravados em fitas-cassete. Todos os meus avós estavam vivos.
A releitura dessa crônica me fez lembrar de um antigo projeto que cheguei a acalentar com meu ex-colega de Cásper Líbero André Rosa de Oliveira, melhor conhecido na blogosfera tupiniquim pelo seu apelido: Marmota. Seria a criação da "Página Oficial dos Anos 80" (nome modesto, não?). Na época, meados de 1997, era um projeto inédito na Internet brasileira. Contudo, por um e outro motivo, o site não foi pra frente. Diria Charlie Brown: "que puxa!".
Para essa página natimorta, redigi uma abertura que posteriormente virou spam, tendo sido reproduzido em diversos lugares por aí. Trata-se do texto publicado logo abaixo.
E eu sou do tempo do big mac em embalagem de isopor videocassete betamax rock in rio muro de berlim descia do ônibus pela porta da frente ouvindo no walkman cinema a dois eletrodomésticos degradée finis africae vinícius cantuária zero kiko zambianchi detrito federal mercenárias telex sempre livre neusinha brizola grafitti eduardo dusek obina shock plebe rude léo jaime chorei com a tragédia de sarriá a morte do tancredo usei o bottom de fiscal do sarney vi a explosão da challenger o casamento do século de charles e diana as lágrimas do misha meninas colecionavam pôsteres do menudo compravam discos do balão mágico e trem da alegria tempos em que ainda não havia cd-players crack internet celulares mtv refrigerantes em tampinhas de rosca jogava missile command hero river raid enduro seaquest space invaders arrebentei joysticks com o decathlon no meu atari 2600 tive genius merlin cubo mágico trunfo telejogo aprendi basic no tx-85 gravava os programas em fitas cassete no gravador a pilha depois veio o msx o 386 e jogava larry prince of persia space quest acompanhava meu pai no cooper datilograva meus trabalhos na olivetti imbecis chamavam a aids de câncer gay assistia a filme dos trapalhões no cinema e havia planeta dos homens clip clip guerra dos sexos roque santeiro armação ilimitada sala especial globo de ouro shock globo cor especial a zebrinha do fantástico e o certificado de censura antes de cada programa na tv dançavam break e usavam gel colorido nos cabelos roupas quadriculadas blazers roxos e laranjas tínhamos carteiras emborrachadas da op mochilas da company relógios champion eu não sabia o que prestar no vestibular e o que ser quando crescer aliás ainda não sei víamos sobral pinto osmar santos teotônio vilela nos comícios pelas diretas e cantávamos o hino nacional beat it bete balanço você não soube me amar boys don't cry louras geladas relax música urbana ask sunday bloody sunday tempo perdido como eu quero mas nada tanto assim.
Valdinei Sabino de Silva, 25, garçom, esteve preso do dia 19 de agosto até a tarde de hoje. A justificativa? Uma testemunha que o teria reconhecido na cena do crime, o assassinato do empresário José Nelson Schincariol na cidade de Itu, SP. No dia 2 de setembro, policiais do DEIC prenderam quatro homens, que confessaram o delito: Schincariol foi morto porque reagiu a uma tentativa de assalto. Mesmo após a comprovação de que Valdinei nada tinha a ver com o homicídio, sua libertação só ocorreu dois dias depois, devido a trâmites burocráticos. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Lourdes Marques de Silva, 56, pensionista, descreve como foi o momento da prisão de seu filho inocente: "Cerca de 15 homens entraram em minha casa. A bagunça foi total. Eu não sabia o que estava acontecendo. Não apresentaram nenhum papel. Os palavrões eram muitos. Reviraram tudo. Furaram o sofá procurando arma. Foi um clima de guerra".
Valdinei Sabino de Silva, 25, brasileiro, passou 16 dias na cadeia apesar de não ter sido encontrada nenhuma prova ou impressão digital que o ligasse ao crime. 16 dias na cadeia. É inocente.
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Gustavo Kuerten é o alvo atual das cobranças da torcida brasileira, que, mal-acostumada com seus três títulos em Roland Garros, palpita inúmeras razões para a queda de seu rendimento, razão de sua recente eliminação na primeira rodada do US Open. Uns defendem a troca do seu técnico, outros acham que Guga deve treinar mais, há quem acredite que ele deva tirar férias por alguns meses, e muitos dizem que é uma mera questão de acomodação do tenista catarinense. Haja disposição para carregar a farda de ser um ídolo brasileiro...
Juca Kfouri, colunista do jornal esportivo Lance!, aponta as razões da queda de Guga. Guilherme, irmão mais novo do tenista, sofre de uma doença degenerativa, e nas últimas semanas teve seu estado de saúde agravado por fortes crises. Além disso os filhos gêmeos de Rafael, irmão mais velho de Kuerten, nasceram com problemas cerebrais. Como se não bastassem esses problemas familiares, Guga ainda amarga a excessiva cobrança que mídia e público fazem em cima de seus resultados. Torço para que o brasileiro siga o exemplo de Andre Agassi, atleta excepcional que chegou a despencar para a 141ª posição do ranking mundial em 1997 e se recuperou, passando por cima de duros baques pessoais, como a descoberta de que sua mãe e irmã sofriam de câncer de mama, em 2000.
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A esta altura do campeonato, poucos são os internautas que ainda não conhecem Gizele Silveira, a adolescente capixaba que ganhou notoriedade na Web ao gravar covers de Madonna em inacreditáveis versões pra lá de literais ("Papa Don't Preach" virou "Papai Não Brigue Não" e "Material Girl", "Garota Materialista"). Em post que publiquei no Virunduns sobre a mocinha, os comentários se dividiram entre perplexidade, choque e deleite com a voz esganiçada e os arranjos tosquíssimos de teclado de churrascaria das regravações de Gizele, que tinha 13 anos quando gravou o CD "Em Busca da Vitória".
Tanta repercussão virtual não poderia passar batida. A edição de hoje do Jornal da Tarde traz entrevista com nossa Ciccione tupiniquim, que admite: "Aquele trabalho não é nada bom, minha voz estava mudando. Sem contar que eu era só uma criança e não tinha noção de muita coisa". Hoje, aos 18 anos, Gizele cresceu e apareceu. Após estudar música e fazer um curso de teatro, pensa em gravar um novo álbum. Minhas sugestões para seu próximo trabalho: "Justifique Meu Amor", "Este Costumava Ser Meu Playground", "Mais Profundo e Mais Profundo" e "Torta Americana".
Sim, um dia eu já fui como o Calvin (depois me regenerei e hoje como de tudo, exceto pudim de jiló e refogado de chuchu). Mas o que eu gostaria de destacar é o site no qual encontrei esse e outros ótimos gifs baseados nas criações de Bill Watterson, e do qual me lembrei após ter revisto uma dessas pequenas jóias animadas no blog do Jean Boechat. O site está fora do ar, mas felizmente ainda pode ser acessado graças ao Internet Archive. Não sei se os gifs animados foram criados pela autora do site, Cristiane. Mesmo assim devo-lhe um agradecimento, por ter disponibilizado desenhos tão bacanas. :)
Que amar emburrece, isto é fato líquido e certo. Noites de insônia, olhares perdidos e abobados dirigidos a lugar algum e crises de choro a cada reprise de As Pontes de Madison são apenas alguns dos efeitos colaterais mais perceptíveis. Mas há muitos outros. Andar com um sorriso bobão e feliz no rosto, de mãos dadas e com os braços balançando pra lá e pra cá. Acompanhá-lo no futebol em frente à TV, mesmo que o jogo seja entre Friburguense e XV de Jaú. Elogiar o pavê de jaca da sogrinha. Ah, os estranhos desígnios da paixão.
Amar, mais do que nunca, é um ato de coragem. Porque estes são tempos em que "in" é ter sempre um certo ar blasé estudado ("não esquecer de arquear as sobrancelhas, citar Russell e Vidal"), com um quê de cinismo e outro de ceticismo. Ter sempre uma tirada corrosiva na ponta da língua, e manter as emoções sempre sob rígido controle. Apelidos carinhosos como "Mozinho" ou "Free Willy" em absoluto sigilo. Evitar beijos-desentupidor-de-pia em público. NUNCA, NEVER, JAMAIS, NECAS DE PITIBIRIBA confessar que pediu no Dia dos Namorados aquele CD do Kenny G.
Ah meus caros, não tem jeito: amar é brega, é piegas, é meloso e é bom pra dedéu. Como bem disse Paul McCartney, nada como "silly love songs" para descreverem as estranhas e maravilhosas sensações que nos acometem quando somos pegos pela arapuca da paixão. Um exemplo: poucas vezes vi uma descrição tão exata como nos versos cantados por Carmen Silva -
O amor é um bichinho
Que rói rói rói
Rói o coração da gente
E dói dói dói.
Sim, dói. Mas é demais de bão. =^)
* O texto acima é um trecho do editorial que escrevi originalmente para a edição especial de Dia dos Namorados do Spam Zine, mailzine que criei junto com meu camarada de Curitiba Ricardo Sabbag. A propósito, se você nunca ouviu falar no Spam Zine recomendo fortemente uma visita ao nosso site, que andei atualizando por estes dias.
Por ser uma infinita folha em branco, a Web aceita de tudo. É o terreno ideal, pois, para a disseminação das mais disparatadas teses: basta uma pitada generosa de imaginação, outra de paranóia (a la Oliver Stone) ou sarcasmo, e mais um tanto de ócio para que o mundo veja surgir teorias germinadas no imaginativo mundo da Maionegg's.
Quem nunca ouviu falar, por exemplo, nos "estudiosos" que jogam seus dias fora ouvindo discos de trás pra frente na busca de louvações ocultas ao demo? Alguns exemplos já "clássicos" podem ser encontrados neste site, como o tal trecho em que a Turma do Balão Mágico, se invertida a rotação da música "Superfantástico", cantaria: "Porque já morremos... porque já morremos...". Xuxa, Claudinho & Buchecha e Raul Seixas são apontados como outros exemplos de adoradores de Louis Cypher. Eu, hein?
Fantástica também é a história da suposta morte de Paul McCartney. Segundo a lenda, o autor de "Yesterday" teria sido decapitado (!!!) em um acidente de automóvel em novembro de 1966. Inconformada com a morte de um Beatle no auge do sucesso do grupo, a gravadora dos Fab Four resolveu contratar um sósia (descobriram até o nome dele: Billy Shears) para assumir o lugar de Paul. Os demais Beatles, obrigados a aceitar a armação a contragosto, resolveram então deixar uma série de pistas nas capas, encartes e músicas "denunciando" o fato (confira algumas delas aqui, aqui e aqui).
Mas o que mais me espantou, ao pesquisar essa história, foi a riqueza de detalhes que os teóricos da conspiração encontraram para corroborar suas teorias. Vejam a foto ao lado, por exemplo, que exibe a imagem surgida se você colocar um espelho no centro da bateria da capa de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. O reflexo, combinado com a foto, permite a leitura da frase "1 ONE 1 X HE ^ DIE". Sua interpretação: 1 mais ONE mais 1 é igual a três, e se refere ao número de Beatles remanescentes. O "X" é uma citação àquele que teria batido as botas. E a seta, que aparece no meio das palavras "HE" e "DIE", aponta, por uma incrível coincidência (ou não?), para a foto de Paul. Depois dessa, pergunto: quem foi o maluco que teve a manha de checar uma coisa dessas?!
Esta lenda urbana (ou não?), além de ter inspirado um filme, possui pelo menos duas variantes dignas de citação. Para o criador deste site, a verdade é completamente diversa: os outros três Beatles é que estavam mortos. Enquanto isso, os jornalistas da revista VIPEdson Aran e Jardel Sebba fizeram outra bombástica descoberta: Caetano Veloso morreu em 1968. Em entrevista concedida a Lúcio Ribeiro, Aran e Sebba revelam toda a história, decifrada a partir de pistas deixadas na capa do álbum Tropicália ou Panis Et Circensis.
Ainda sobre o assunto, não posso deixar de citar a sensacional sincronia entre O Mágico de Oz, filme de 1939 dirigido por Victor Fleming, e Dark Side of the Moon, disco de 1973 gravado pelo Pink Floyd. E digo "sensacional" porque eu mesmo testei essa teoria. Faça o seguinte: coloque o filme no videocassete ou DVD, retire o volume da TV e ponha o álbum para tocar a partir do terceiro rugido que o leão da Metro fizer (ainda nos créditos iniciais de O Mágico de Oz). A quantidade de coincidências entre filme e músicas assusta (cheguei a ficar arrepiado quando fiz essa experiência). Confira a lista completa da ligação "Dark Side of the Oz" aqui (em português) ou aqui (em inglês). É possível, ainda, encomendar neste site um DVD em que O Mágico de Oz já é exibido com sua "trilha sonora alternativa".
Aproveitando o filão, que tal experimentar outras sincronias? Foi o que fizeram ociosos que descobriram supostas coincidências entre Blade Runner (filme de 1982 dirigido por Ridley Scott) e Wish You Were Here (outro álbum do Pink Floyd, de 1975), A Fantástica Fábrica de Chocolates (classicaço da Sessão da Tarde, dirigido por Mel Stuart em 1971) e as músicas do grupo canadense Rush ou Grease (musical de Randal Kleiser, com John Travolta e Olivia Newton-John, de 1978) e Out of Time (álbum do R.E.M. de 1991).
Para encerrar, não posso deixar de citar as teorias de Fofox Mulder, colunista do webzine Zero Zen. Imprescindível conferir todas as suas revelações, como a invasão dos Teletubbies, a verdade sobre as mortes de Cássia Eller e Princesa Diana, a revelação de que Humberto Gessinger é um vampiro, o Big Mac de minhoca e a fraude das Mega-Senas acumuladas.
É por essas e outras que eu digo: a Verdade está lá fora, e sua credibilidade está mais por baixo que a formiga de um farelo de biscoito varrido pra debaixo do tapete do porão de um submarino russo naufragado.