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26.8.03
Brasil, uma nação necrólatra

Ao escrever sobre Sérgio Vieira de Mello, a primeira coisa que me veio à mente foi o clássico diálogo de "Vida de Galileu", peça do dramaturgo alemão Bertolt Brecht:

- Infeliz é a nação que não tem heróis!
- Não, mais infeliz é a nação que precisa de heróis
.

Sérgio, um ilustre desconhecido para 95% dos tupiniquins até sua morte, ganhou capa de todas as principais revistas semanais de informação (a Isto É desta semana o descreve como "um mártir brasileiro"). Matéria exibida no Fantástico desta semana, além de citar sua ação como Alto-Comissário de Direitos Humanos da ONU em países como Angola e Timor Leste, deu especial ênfase à sua "história de amor" com a argentina Carolina Larriera. A coluna de Sérgio Abranches na Veja cita outro articulista, Thomas Friedman, do New York Times, que vaticinou: "Como eu, ele era um otimista nato que acreditava na bondade dos seres humanos. Sua morte sem sentido é uma lástima".

A esta altura do campeonato, creio que não seja mais preciso enumerar a coragem, o currículo e as qualidades de Sérgio Vieira de Mello. Quero chamar a atenção, pois, para um outro aspecto: a construção de um herói "ideal" no imaginário nacional. E quando falo em "ideal", é como sinônimo de... morto. Explico mais adiante.

O Brasil é uma nação extremamente carente. Carente e, recordando o diálogo de Brecht, infeliz. Porque anseia por ídolos e ícones que possam reerguer uma auto-estima pra lá de baixa, sempre necessitada do reconhecimento estrangeiro para subscrever suas conquistas. Contudo, somos um povo deveras exigente. Porque nossos heróis não podem, de jeito nenhum, fracassar. Devem seguir o exemplo contumaz de Ayrton Senna, cuja morte precoce causou imensa comoção nacional. Senna partiu no auge da carreira; por isso gerou um parâmetro de comparação inalcançável, cuja maior vítima é Rubens Barrichello. Um piloto rápido e competente, que ganha milhões de dólares anuais e é titular da escuderia de maior prestígio da Fórmula 1. Mas que, para os brasileiros, é conhecido como "Pé-de-Chinelo", mote constante de piadas maldosas sobre quebras de carros.

É difícil ser bem-sucedido em um país tão acostumado a fracassos e à maldição de ser o eterno País de um Futuro que nunca chega. Tanto, que ser segundo lugar não nos basta: "ser segundo colocado é ser o primeiro dos últimos", reza a suposta "sabedoria" popular. É uma cobrança que chega a ser cruel: se você não for um campeão perpétuo, então se transforma em mais um outro fracassado que não merece a menor misericórdia. Um exemplo: João do Pulo, que em 1975 bateu o recorde mundial do salto triplo ao cravar a marca de 17,89 metros, ganhou a alcunha de "João de um Pulo" por não ter ganho a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos (e isso, apesar de ter sido bronze nos Jogos de Moscou em 1980).

Sucesso no Brasil é maldição? Parece que sim, se levarmos em consideração declarações como as de Paulo Lins, autor do romance best-seller "Cidade de Deus", que declarou à revista Caros Amigos: "É muito ataque, processo, porrada, o Tom Jobim estava certo, sucesso no Brasil é uma merda. É assim: quando o livro saiu, tudo certo, rolou dinheiro, o livro bateu recorde, aí nego acha que eu tô rico. Eu não tenho grana pra pagar, eu tenho processo na Justiça, de várias pessoas".

Para o povo brasileiro, herói bom é herói morto. Porque, depois de falecido, o herói não manchará seu currículo com derrotas, e seus feitos tendem a ser idealizados. Basta recordar a comoção nacional em torno de cortejos fúnebres de personalidades como Ayrton Senna, Tancredo Neves, Mário Covas e até mesmo os Mamonas Assassinas. Os sambistas Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito inspiraram-se nesta característica peculiar do brasileiro ao compor a canção "Quando Eu Me Chamar Saudade".

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão


Se a mídia auxilia na divulgação (e construção) de um novo herói no imaginário nacional, isso acontece simplesmente porque atende à imensa demanda por brasileiros que façam bonito no exterior. Não admira, pois, que já tenham aparecido políticos interesseiros sugerindo a indicação de Sérgio ao Prêmio Nobel da Paz, mesmo sabendo que a Academia Sueca não concede laureações póstumas (fosse assim, eu seria o primeiro a indicar Machado de Assis e Guimarães Rosa para o Nobel de Literatura). Sim, o Brasil é uma nação que absolve e idealiza quem morre. Porque mortos não têm defeitos (vide o Leonel Brizola falando bem de Roberto Marinho em declaração a um telejornal da Globo). E porque o Brasil é o reino da necrolatria (não à toa Raul Seixas vende mais álbuns morto do que quando ainda vivia).



25.8.03
Algumas estatísticas de 1 ano de blog:

- Os 10 posts mais comentados (thanks, Fábio!):

. 30 anos (27/07/2003)
. Xô, 2002! (31/12/2002)
. Trocando de biquíni sem parar (27/02/2003)
. A Descoberta do Mundo (04/08/2003)
. Resultado do iBest (07/05/2003)
. Vidas Possíveis (17/01/2003)
. Matrix Reloaded: pisando no freio (14/05/2003)
. Viagem por um país ao pé da letra (20/06/2003)
. Me empresta um beijo, amanhã te devolvo (08/04/2003)
. Reminiscências (03/12/2002)

- Os 10 blogs que mais geraram visitas para cá:

. Virunduns
. Calendário do Pensamento
. Eu Acreditava
. O Polzonoff
. InterNey
. Genérico Incolor
. Mau Humor
. Alexandre Soares Silva
. Eu e o Poeta
. Anna Maron

- As 10 mulheres mais procuradas pelos googlenautas de plantão:

. Kelly Key
. Priscila Fantin
. Thais Ventura (do Big Brother Brasil 2)
. Lídia Brondi
. Sabrina Sato (do BBB 3)
. Patricia Silveira (a gostoooooosa do comercial de cerveja)
. Luciana Vendramini
. Vanusa Spindler
. Ana Paula Oliveira (bandeirinha de futebol)
. Joseane (do BBB 3)



24.8.03
Há um ano, publiquei o primeiro post de Pensar Enlouquece. Desde então, conquistei muitas novas amizades (virtuais ou não) e reconhecimentos bacanas, tais como:

- Blog nota 10 segundo a coluna do Gravatá;
- Inclusão na blogteca do Portal Literal;
- Ter uma "biografia" escrita por meu camarada Nelson Moraes;
- Blogs of Note e What's Up do Blogger Brasil;
- Seis "blogs filhos" cadastrados no BlogTree;
- Virar personagem de gif animado de cumpadi Matusca Matusalém;
- Alvo da Semana no Blog List;
- Blog do dia na Globo.com;
- Ser entrevistado pelo programa Blog'n'Roll da allTV;
- Manter um dos weblogs em português linkados pelo miniportal espanhol Web de Blogs;
- Linkado por 393 blogs cadastrados no TopLinks;
- Top 3 do prêmio iBest 2003 na categoria Voto Popular.

Ok, blog não traz dinheiro nem fama. Mas não posso me queixar, muito pelo contrário. Por isso, neste primeiro aniversário de Pensar Enlouquece, aproveito para agradecer as visitas, indicações aos amigos (ou inimigos, vai saber) e comentários deixados neste meu recanto virtual. Obrigado! :)



23.8.03
Renato Russo e as utopias da juventude

Juventude, transgressão, rebeldia contra o establishment, esperança ingênua em mudar o mundo: sim, todos nós já fomos jovens. E, em se tratando de rock nacional, não há trilha sonora mais adequada para essa etapa da vida do que Legião Urbana. Renato Manfredini Junior, vocalista, letrista e mentor da banda, morreu em 1996. No entanto, sete anos depois, emplacou um hit póstumo que é veiculado incessantemente nas FMs e na novela das oito, e o catálogo da Legião ainda vende impressionantes 500.000 álbuns por ano. Qual é o segredo?

Antes de mais nada, é preciso ressaltar Renato Russo foi um ótimo cantor e letrista acima da média, dons que foram ofuscados pela dramaticidade de sua vida pessoal e pelo caráter quase messiânico com que suas composições até hoje são recebidas pelos fãs. Ao contrário das bandas atuais, que parecem orbitar sobre duas únicas pautas (a saber: maconha e putaria), a Legião Urbana faz sucesso até hoje por abordar em suas canções assuntos como política, religião, amor e as decepções com o mundo em geral. Não à toa, qualquer lançamento póstumo de Renato Russo e sua banda é sucesso garantido de vendas (até agora a EMI-Odeon pôs à venda dois álbuns solo e três da Legião após a morte de Renato).

Para a desgraça dos tímpanos alheios, grande parte desses lançamentos não passa de pura picaretagem. Guardadas as devidas proporções, esses discos são tão medíocres quanto os romances publicados postumamente de Ernest Hemingway (e vejam que o autor de "O Velho e o Mar" se matou porque se julgava incapaz de conseguir voltar a escrever qualquer livro decente; imaginem, pois, o que não faria se soubesse que suas sobras de gaveta foram publicamente expostas). Vide o sucesso de Renato Russo que toca atualmente, "Mais Uma Vez". Uma música de fazer sangrar os ouvidos, com seus versos dignos de um compêndio de auto-ajuda ("Se você quiser alguém em quem confiar/ Confie em si mesmo/ Quem acredita sempre alcança"), que conspurca a memória do compositor de belas faixas como "Love in the Afternoon", "Acrilic on Canvas", "Esperando por Mim", "Os Barcos" e a minha predileta, "Andrea Doria", gravada naquele que talvez seja o melhor disco da Legião, "Dois", de 1996 (clique aqui para ler a ótima resenha de Alexandre Matias sobre o álbum).

Quem nunca ouviu Legião Urbana, por desconhecimento, falta de interesse ou puro preconceito, precisa atentar para esta canção, que é em minha modesta opinião a melhor descrição que já encontrei, em todo o vasto universo pop, de todas as angústias, medos e ideais que cercam a fase da juventude. "Andrea Doria" é uma canção que precisa ser (re) descoberta, e não apenas pela acuidade de seus versos (que transcrevo a seguir); melodia, arranjo instrumental e o emocionante vocal de Renato compõem o mais bem-resolvido de todos os registros sonoros da Legião.

Às vezes parecia que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo,
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais:
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços de vidro.

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir

Não queria te ver assim
Quero a tua força como era antes.
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada.

Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto,
Até chegar o dia em que tentamos ter demais,
Vendendo fácil o que não tinha preço.

Eu sei - é tudo sem sentido.
Quero ter alguém com quem conversar,
Alguém que depois não use o que eu disse
Contra mim.

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que segui
E com a minha própria lei.

Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também.



A seguir, uma raridade. É o trecho de uma longa entrevista que Renato Russo concedeu a Leoni, cantor e compositor de sucessos como "Exagerado", "Garotos II" e "Fixação", publicada no livro Letra, Música e Outras Conversas, publicado pela Editora Gryphus e infelizmente fora de catálogo. Nesta obra, Leoni entrevista compositores como Herbert Vianna, Nando Reis, Samuel Rosa e Adriana Calcanhoto, que revelam seus métodos de trabalho, fontes de inspiração e histórias sobre sua carreira. No trecho a seguir, Renato Russo conta como surgiu a idéia para a criação de "Andrea Doria".

* * *

Leoni - Fiquei meio angustiado quando comecei a ouvir os discos porque às vezes não captava qual era o tema da letra. Eu achava que devia estar deixando escapar alguma coisa. Aí fiquei pensando em confessar a minha ignorância e perguntar. Andrea Doria, por exemplo...

Russo - Ah, essa eu sei. Andrea Doria é a mesma coisa de Será: (com uma voz empostada) um jovem que quer mudar o mundo e que está tudo horrível. Uma coisa que a Legião sempre tem, uma menina da MTV colocou isso muito bem: parece muito um livro chamado Os Meninos da Rua Paulo1. Se lembra do Nemetcheque? Era um menino todo bonzinho, queria fazer tudo direito e sempre tomava na cabeça. Ele acaba morrendo de pneumonia, parece. Seria um personagem como ele que estaria cantando essas músicas. É um jovem que acredita na virtude, em fazer as coisas corretamente, de acordo com as regras e fica batendo contra a parede porque esse mundo não funciona.

Andrea Doria coloca bem isso, a questão da juventude, ter sonhos, fazer planos e esbarrar neste mundo de hipocrisia, de mentira, do capitalismo, de consumismo e a gente fica sem saber o que fazer. Andrea Doria é um navio mesmo. A idéia era fazer uma imagem meio E La Nave Va 2 e coisas que talvez eu nunca me lembre porque entraram na letra. Na hora de escolher o título da música fizemos um monte de mitologias para a coisa ficar legal. Eu me lembro que Andrea Doria é um navio que afundou, a idéia era para ser: naufrágio. E no caso Andrea Doria é uma menina. O que ligou a música toda foi uma conversa que eu tive com a Luciana, mãe do Bi 3, e com a Tetê 4, no Crepúsculo de Cubatão 5. As duas estavam reclamando da vida ser muito difícil e a Tetê estava meio deprimida. Fiquei pensando: "Que coisa chata". Porque eram coisas que eu sentia também. Nem sempre adianta ser bom, ser honesto.

Peguei essa situação inicial e fiz a música que é um diálogo entre uma menina que era cheia de vida, alegria e planos e que sempre me deu força e que nesse instante é quem está derrubada. Aí então sou eu falando para ela. Tem coisas que fala para mim e tem coisas que falo para ela: "Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo/ Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais". É aquela coisa dos planos, o mundo está horrível mas nós vamos conseguir, vamos juntos etc. Aí no meio do caminho: "Mas percebo agora que o seu sorriso vem diferente/ Quase parecendo te ferir". Quando você entra no mundo adulto se não tomar cuidado deixa entrar o cinismo, fica "jaded" 6.

E a música é uma conversa em cima disso: "Olha, realmente a coisa é difícil, mas não é por aí". Termina justamente falando: "A gente tem toda a sorte do mundo", sem especificar, que bem ou mal a gente não é favelado, não morre de fome. "Sei que tenho sorte, como sei que tens também". Uma das grandes temáticas das letras é exatamente essa, só que são sempre pequenas situações, colocadas de um certo jeito que a pessoa interpreta de outra maneira. Sempre tem uma historinha, uma mitologia.

1 Clássico da literatura infanto-juvenil, escrito em 1907 pelo húngaro Ferenc Molnar e traduzido por Paulo Rónai.
2 Filme de 1983 dirigido por Federico Fellini, citado en passant por Russo pelo fato de sua ação ocorrer dentro de um transatlântico.
3 Bi Ribeiro, baixista dos Paralamas do Sucesso.
4 Tetê Tillet, amiga de Herbert Vianna, co-autora de Tendo a Lua, canção gravada no álbum "Os Grãos" (1991), dos Paralamas do Sucesso.
5 Antiga boate dark do Rio de Janeiro.
6 Cansado.



21.8.03

Haroldo Maranhão, à semelhança de Dalcídio Jurandir e Age de Carvalho, é desses escritores que, por residirem na região amazônica, são pouco, quase nada conhecidos no restante do Brasil. Uma pena: quem já leu as obras de outros grandes autores nascidos no Norte, como Mário Faustino (que caminhava para ser um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos quando morreu, em um acidente de avião, com apenas 32 anos de idade) e Milton Hatoum, sabe que a região é um verdadeiro manancial de escritores da mais fina estirpe.

Felizmente ainda é possível encontrar neste mundo pessoas da generosidade de Maria Elisa Guimarães, que me dão motivos para, apesar de tudo, renovar minhas esperanças na tal da humanidade. Minha querida Meg tomou a iniciativa de organizar o Concurso de Narrativas Breves Haroldo Maranhão, criado com o intuito de homenagear o escritor paraense e divulgar a sua obra. Neste concurso, aberto a todos os blogueiros ou não-blogueiros amantes de blogs, você pode concorrer com 1 ou até 3 narrativas breves em prosa. De quebra, haverá prêmios: o primeiro colocado ganhará um aparelho de DVD, e os dois seguintes, livros de Haroldo Maranhão. Clique aqui para conhecer o regulamento, e participe (as inscrições vão até o dia 25 de agosto)!





Fardo, mas não talho. E não poderia deixar de comentar, mesmo que com o atraso habitual, a simpática matéria que a simpaticíssima Dalila Góes escreveu no Correio Braziliense sobre os Virunduns. Na foto acima, o indefectível triunvirato de blogueiros Inagaki, Ian e Marmota esboça uma desajeitada pose como "top fodels" (confira mais fotos aqui).



18.8.03
Much Ado About Nothing

Foto extraída do blog http://flashmobsp.blogger.com.brPatrícia de Leite, 27, administradora de empresas, observou o flash mob realizado neste domingo, às 15h, na Avenida Paulista. Cerca de 70 pessoas sentaram-se na calçada em frente a um telão, apontaram controles remotos e celulares e simularam tentar mudar de canal. Três minutos depois, levantaram-se, bateram palmas e foram embora. Com exceção, obviamente, daqueles que foram abordados por jornalistas sequiosos em escrever matérias a respeito da nova moda. À reportagem do Diário de São Paulo, Patrícia declarou:

- Isso não tem nexo. Não tem razão de ser.

Não é mesmo para ter. Embora já pululem pela Internet teorias afirmando que os flash mobs representam "uma nova fissura na sociedade do espetáculo", não creio que haja qualquer pingo de contestação nessas reuniões. A não ser, é claro, que alguém me prove que os manifestantes que tiraram os sapatos e bateram com a sola no asfalto em São Paulo, comeram bananas dentro de uma loja de departamentos em Dortmund ou saudaram o urro de um dinossauro de plástico dentro de uma loja de brinquedos em Nova York foram inspirados por alguma obra de Guy Debord ou da escola de Frankfurt. Muito pelo contrário, os flash mobs têm sido marcados por um completo descompromisso: você vai lá para se divertir, e nada mais.

E, bem, já que citei os frankfurtianos, completo minha tergiversação afirmando o seguinte: flash mobs nada mais são do que happenings que foram desprovidos de sua "aura da arte" (citando Benjamin en passant). Primeiro, porque seus participantes não agem com o intuito de contestar; ao contrário, muitos se deleitam com a oportunidade de desfrutar de seus quinze segundos de fama dando entrevistas a jornais e revistas após as manifestações. Segundo, porque são basicamente adaptações de um movimento original criado no exterior (vivemos, afinal de contas, a tal "era da reprodução mecânica"). Terceiro, porque não há visão metafísica ou ideológica, mesmo porque estes são tempos pós-utópicos: tudo é feito "just for fun".

Seria de bom tom, pois, não confundir a descompromissada (e domesticamente saudável) diversão dos flash mobs com o caráter subversivo e ideologizado de happenings como os idealizados por Flávio de Carvalho (1899-1973). Flávio, além de arquiteto, escritor, cenógrafo e artista plástico, foi pioneiro ao realizar alguns dos primeiros happenings no Brasil. Dois exemplos: em 1931, protagonizou a Experiência Nº 2, quando andou, com boné na cabeça, em sentido contrário ao de uma procissão católica para estudar a reação da população, e quase foi linchado pela multidão indignada. Depois, em 1956, Flávio realizou a Experiência Nº 3: caminhou solitário pelo Viaduto do Chá trajando saiote, e foi acompanhado por insultos de toda a urbe. Contestação, subversão, conflito com o status quo: definitivamente flash mobs são muito diversos de happenings artísticos. Vaticinou Millôr Fernandes: "arte é intriga".



Clique aqui e veja mais charges do graaaaande Arnaldo Branco.

Não demorou muito para cooptarem o hype do momento: pois e não é que a revista Sexy também já está agitando o seu Flash Mob? Clique aqui para receber as instruções da tal farra, marcada para 30 de agosto.

(Em tempo: a charge acima é de Arnaldo Branco, o homem do Mau Humor, do Penalidade Máxima e da Esquerda Festiva.)



17.8.03
Versos Infames

Idi Amin Dada morreu,
Roberto Marinho também.
Gregory Hines subiu no telhado,
e Haroldo de Campos desnasceu.
Mas enfim, c'est la vie,
Rest in peace, e amém.

Diria meu amigo Tadeu:
- Antes eles do que eu.



16.8.03
Cena da obra-prima de Mel Brooks, O Jovem Frankenstein, de 1974, deliciosa paródia dos clássicos filmes de terror produzidos pelos estúdios Universal nos anos 30.

"Look! It's moving. It's alive. It's alive... It's alive, it's moving, it's alive, it's alive, it's alive, it's alive, IT'S ALIVE!"



4.8.03
A descoberta do mundo

A aurora é um mijo sangrento despejado sobre a grande cidade.
Pelas ruas cospe-se a fumaça dos automóveis,
raivosa como pus espremido da ferida.
Os homens - acéfala multidão - saem para o mundo;
o vento chicoteia suas faces de pedra,
seus sovacos fedem de medo dos outros.
Apressam seus passos, precisam ignorar cães e mendigos
para chegarem pontualíssimos ao trabalho.
Mesas, clipes, carimbos datados ou não,
máquinas de calcular humanas ou não.

O escritório sem ar-condicionado embriaga-me de luz e calor.
Os minutos arrastam-se no relógio da parede,
e o sol, que tolda meus sentidos e amolece meu corpo,
é um gato quente e sonolento espreguiçando-se dentro de mim.
Lá fora, o mundo grita como a boca petrificada de um quadro,
invade meus pensamentos como alarme disparado de carro,
não me permite descansar durante o intervalo.
Em minha mesa o jornal dispara sua metralhadora diária:

"A menina saiu do carro buscava socorro para seu pai ferido no acidente vinte carros atropelaram-na seus restos foram encontrados num raio de 45 metros pesquisadores desenvolveram roupas que mudam de cor pipocas para microondas lançarão em breve torradeira transparente reuniu durante seu governo 600 milhões de dólares de caixinha para campanha à presidência não se amedronta com fantasmas ou bicho-papão mas tem pesadelos em que é seqüestrado a jovem tinha dezoito anos foi espancada estuprada estrangulada com um cadarço de tênis jogada em uma cova rasa sonhava ser bailarina"

Estreou hoje o filme que eu queria (preciso) ver.

Deus Deus meu deus,
fomos feitos à tua semelhança? Tua semelhança?!
(Senhor, salvai-nos de nós)
Os tomates que comprei apodreceram.
Não vou comê-los. Jogá-los-ei no lixo. Haverá quem os coma.

Não quero mais escrever mas é preciso.
É preciso escrever com urgência,
com fúria, com ânsia de vômito,
escrever como quem morrerá amanhã,
escrever porque há milhares de coisas acontecendo lá fora,
escrever como se ainda tivesse esperanças.
Esperanças que foram nos sendo tiradas.
Esperanças, o melhor de nós.

Hoje esperamos sentados.
Hoje contemplamos com apatia e cinismo a merda desta sociedade,
enquanto o futuro com suas mãos fechadas aproxima-se de nós.
Hoje o jornal sobre a minha mesa ri, gargalha,
sabe que amanhã novas notícias esgotarão suas edições.

Mas a vida continua.
É preciso ignorar esse calor, trabalhar
e ganhar o pão maldito de cada dia.
É preciso abandonar os sonhos de criança,
professor, artista, revolucionário
para ganhar o maldito pão de cada dia, a maldita televisão de cada dia,
a maldita roupa de grife de cada dia, a maldita gasolina,
o maldito seguro contra roubos, o maldito aluguel,
o maldito imposto, a maldita e sagrada estabilidade
de cada dia.

Quantos sonhos ainda deixaremos para trás?
Nossas asas estão cobertas de pó.

Somos responsáveis,
não quebramos a cara. Nossa existência é acomodação,
e os dias são sucessões de desacontecimentos.
Quanto tempo mais deveremos jogar fora
bebendo em taças de falso cristal o néctar que fizemos azedar?
A vida é rascunho definitivo,
e no entanto vivemos como se fosse possível renascer.
(nossas asas estão cobertas de pó)

Senhor, gostaria de poder agradecer-Te por ainda comer,
por ainda não estar contaminado,
por ainda acreditar (acreditar, acreditar)
em alguma coisa que não sei exatamente o que é,
por ainda ter a capacidade de sentir revolta e tristeza
e ser lúcido o suficiente para pensar em suicídio
mas nunca me matar.

Mas o coração é voraz
e exige respostas que sejam definitivas.
Recusa-se a sorrir de resignação,
aguardando com inexistente paciência pelas lições da maturidade.
E como é difícil acreditar, senhor, como é difícil.

Carrego dentro de mim sonhos e sentimentos que morrerão comigo,
momentos que não existem em nenhum lugar mais
além do meu coração:
pôr-de-sol, brisa no rosto, conversa com amigos, sorriso de mulher.
Instantes que valeram por uma vida inteira,
rastro de estrelas num céu poluído e aparentemente vazio.

Entretanto, este é o nosso mundo: tartarugas mutiladas e sem casco,
versos inacabados no papel, balas perdidas procurando alvo,
cacos de vidro espalhados pelo chão;
mas caminho descalço e esperançoso porque sei que, apesar de tudo,
vale a pena prosseguir.
(vale a pena prosseguir)

- Vida, você não vai se livrar tão fácil de mim.
"Ira, transforma-te em mim em perdão, já que és o sofrimento de

não amar
" - Clarice Lispector
(P.S.: este poema faz parte integrante de um livro inédito que escrevi, intitulado Aprendizado: Rascunhos Definitivos)