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31.5.03
Mais um post desacentuado

Liberdade sem limites descamba facilmente para a anarquia: suruba sem nexo nem gozo. Devo confessar, pois, que o fato de ter sido temporariamente impedido de escrever utilizando acentos foi um limite que estimulou bastante minha criatividade. De certa forma, me senti como um poeta que, ao tentar compor um soneto, necessita respeitar as normas seculares que regem suas estrofes, rimas e acentos (em tempo, devo confessar que, apesar de algumas tentativas, jamais consegui cunhar um soneto que fosse minimamente decente).

No entanto tudo isso soa pueril, diante da complexidade dos jogos dos escritores do grupo OuLiPo, como Calvino, Queneau e Perec, que estipulavam para si mesmos regras mirabolantes, a fim de obrigar a verve criativa a superar os limites comuns (citando livremente Queneau, "o poeta que escreve obedecendo cegamente a todo impulso que lhe passa pela mente torna-se escravo de outras regras que ignora"). Um bom exemplo dos desafios propostos pelo OuLiPo: La Disparation, romance de Georges Perec escrito em 1969, e que vem a ser um lipograma no qual a letra ''e'' foi simplesmente deixada de lado, sem ter sido utilizada em nenhuma de suas frases. Depois, como se quisesse (re)compensar o fato, Perec criou em 1972 Les Revenentes, um texto monovocal. Ou seja, aquele que utiliza apenas uma vogal: no caso, a letra ''e'', obviamente. Coisa de mestre. Ou maluco, vai saber.

Enfim, agora meu teclado me permite utilizar acentos novamente. Contudo, deixarei-os para os posts a seguir. :)

P.S.: dedico este texto a Monteiro Lobato, escritor que defendeu uma ortografia simplificada, despida de acentos e tremas, por acreditar que estes eram apenas empecilhos que atravancavam o uso e o aprendizado do idioma.



Nicole Kidman

... e pensar que Tom Cruise a abandonou. Onde esse cara estava com a cabeça?

(um post ao melhor estilo Wetlip)



28.5.03
Meu computador aparentemente subiu no telhado. Ou isso, ou o meu sistema operacional foi comprar Coca com casco de Pepsi, vai saber. Enquanto isso, recomendo fortemente uma visita aos diversos blogs bacanas linkados no frame da esquerda. Mas, como diria o Schwarznegger, ''I'll be back''. Um forte amplexo a todos...

P.S. - Que transtorno ter que digitar em um teclado sem acentos.



23.5.03
Cenas Inesquecíveis - I

Gilda, aqui totalmente loura e desglamourizada.

Orson Welles e Rita Hayworth em A Dama de Shanghai, dirigido pelo próprio Welles em 1948. Antológica: a seqüência final do tiroteio dentro da sala de espelhos, que reproduz ad infinitum a imagem dos atiradores. Reflexos (ops) dessa cena podem ser vislumbrados em dezenas de filmes posteriores, de Operação Dragão até Chicago. No Brasil, o diretor Guilherme de Almeida Prado citou a obra de Welles em seu longa A Dama do Cine Shanghai, de 1987, com Maitê Proença (deslumbrante) no papel principal.



20.5.03
Pílulas

Diálogo do desenho Uma Família da Pesada, exibido pela Fox:
- Meu avô morreu afogado neste lago. Ele viu o reflexo dele na água e pensou que estava se afogando, então pulou pra tentar se salvar.
- É por isso que minha mãe não me deixa olhar dentro da privada.

Nunca entendi o motivo da expressão "mão boba". Para mim, mão que se esgueira sorrateiramente, tentando desvendar com o tato o que aos olhos ainda não se revelou, de boba não possui absolutamente nada.

Sem contrato com uma gravadora, Agnaldo Timóteo foi à luta e abriu uma barraca de camelô para vender o seu CD "Os Verdes Campos da Minha Terra". Com a costumeira sinceridade de sempre, Timóteo diz que não volta para uma gravadora tão cedo, e ainda declara: "Sou preto mas não sou escravo. Se não pagar o que eu quero, vai chamar a Eguinha Pocotó!". Esse cara sim pode ser considerado um artista indie.

Sugestão de pauta gonzo: uma jornalista que tope participar desta promoção e relate depois tudo que testemunhar no programa da Sonia Abrão. Taí um desafio pra Hunter Thompson nenhum botar defeito.

Preciosidade para aqueles que, como eu, passavam tardes inteiras entretidos com os cartuchos do Atari 2600: Pitfall online!

Você sabia que o Lampadinha tem namorada, e que o nome dela é Laurinha Filamento? Que os animais que habitam a fazenda da Vovó Donalda são o leitão Mocotó, a vaca Mimosa, o urso Colimério, o bode Barbicha, o touro Sultão, o cavalo Brioso e a galinha Galdina? Que o cachorro do Esquálidus (aquele personagem da Disney cujos bolsos eram verdadeiras cornucópias) se chama Pflip? Que Dumbela é a mãe do Huguinho, do Zezinho e do Luisinho? Essas e outras curiosidades sobre os personagens Disney podem ser conferidas no imperdível gráfico publicado pela revista Superinteressante deste mês (com Matrix na capa, como 70% das revistas que estão nas bancas).

A matemática é feminina. Primeiro, porque é fascinante a perder de vista. Mas, por mais que eu estude a matéria, jamais serei capaz de compreendê-la inteiramente.



19.5.03
Blogs d'além-mar

Há algum tempo mantenho em meu bookmark as URLs de blogs portugueses como Ponto Media, n&n's e Porto-Lisboa. No entanto, parece-me que apenas nos últimos meses a blogosfera lusitana começou a viver um boom semelhante ao ocorrido no Brasil há pouco mais de dois anos, quando as primeiras matérias sobre o assunto começaram a pipocar nos jornais e hosts como os finados Desembucha e Ilha concorriam com os serviços do Blogger. Tardaram, mas não falharam: a quantidade de novos blogs portugueses surgida nos últimos dois meses é de uma variedade e qualidade impressionantes. Blogo: uma das melhores bússolas para a blogosfera portuguesa. Para tanto, apontadores e sites como Blogs em .pt, Blogo e Posto de Escuta têm me servido como preciosos pontos de partida para a descoberta de excelentes sítios. A seguir, destaco cinco blogs que tenho visitado regularmente em minhas perambulações virtuais:

A memória Inventada - "(...) este tipo já era velhote quando o conheci e estava sempre a ler pornografia. Ao balcão, o velho cobria as revistas com a edição diária do New York Post. Foi preciso esperar umas três semanas de visita quase diária à Deli para que eu ganhasse coragem e soltasse a piada que tinha engatada desde que topara o esquema dele: 'Sabe, devia usar a revista para esconder esse jornal e não o contrário...' Uma piada armazenada é um produto bem mais perecível do que qualquer enlatado, mas a verdade é que o homem riu em abundância".

Gato Fedorento - "Ontem, liguei a televisão a meio da tarde, pus na RTP 1 e pensei: 'O que é isto? Mas porque é que estão a repor um programa de variedades dos anos 80?' Pura ignorância audiovisual. No canto superior direito do écran, lá estava escrito 'em directo'. Tratava-se de 'Domingo é Domingo' (o nome podia ser bem melhor: por exemplo, 'Domingo é Terça-Feira' ou 'Domingo é Sábado')".

Nocturno 76 - "Charles Aznavour tem ar de parolo. No entanto, aquela figura triste - não arrisco melancólica - guarda uma expressão de amizade distante, quase esquecida, e de boatos mal divulgados. Cada cena com ele entra como se estivesse para ficar eternamente esquecida. Passando por ela, ficamos tristes por olhar para aqueles olhos, tristes".

Mil e uma pequenas histórias - "O Antes, o Durante e o Depois eram companheiros inseparáveis, mas um dia o Antes e o Depois zangaram-se, não se sabe bem porquê, e foi cada um para seu lado, deixando o Durante triste e abandonado. O Durante procurou-os por todo o lado sem descanso, mas o Antes mudara-se para um lugar a que chamou Passado e o Depois para outro a que chamou Futuro, e tão longe ficaram um do outro e de forma tão equidistante se posicionaram que o Durante desistiu finalmente de os procurar. A minha avó contou-me esta história que sempre recordarei como se fosse hoje".

Blog de Esquerda - "Naquela manhã, quando Fernando Pessoa abriu a porta do seu quarto, deparou com 25 dos seus semi-heterónimos, acotovelando-se no corredor. O grupo, sob a liderança do Barão de Teive (Bernardo Soares ficara em casa, deprimido), trazia num papel uma lista de exigências, um rol de queixas, um manifesto. Em causa, reclamavam eles, estava o protagonismo excessivo dado pelo mestre aos «três do costume»: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Por que razão não tinham eles (um Vicente Guedes, um José Pacheco, um António Mora) igual tratamento? Por que raio de critério teria o mestre decidido criar heterónimos de primeira e heterónimos de segunda? (...)".



16.5.03
Histórias reais - I

Zé Gangó, se dependesse de sua mãe, teria se tornado padre. Como filhos tendem a contrariar o desejo dos pais, Zé Gangó (apelido de José Cupertino) não fugiu à regra. Depois de abandonar a escola, foi parar em uma profissão que considerava "enrascada", mas que aprendeu a gostar. Tornou-se o coveiro-chefe de Porto Seguro, na Bahia. Após anos e anos enterrando os outros, precaveu-se: construiu sua própria "catacumba" há cerca de cinco anos. Afirma: "Quando eu morrer não quero enfeite, nem luto e muito menos choro. Só vela e o povo bebendo cachaça a noite toda. Ela fala que eu sou doido. E eu digo que se der, pra botar um pouquinho na minha boca que eu bebo e agradeço".

Será que a labuta diária convivendo com a morte inspirou Zé Gangó a ter nada menos que vinte e cinco filhos (18 com a primeira mulher, três com a segunda e mais quatro com a "particular")? Sabe-se lá. Zé bebia o dia todo, e dizia que se parasse de tomar suas cachaças, morria. Ainda era obrigado a lidar com a polícia, que costumava matar e trazer os corpos para o cemitério dois, três dias depois, já podres. Depois que reclamou com o juiz da cidade, a polícia parou de abusar do coveiro e passou a trazer os próprios presos para fazer os enterros.

Foi candidato a vereador. Em um comício, irritado com as gozações à sua profissão, não pestanejou e disse: "agora que sou candidato, vocês ficam desfazendo de mim. Mas não há de ser nada. Todos aqui quando morrerem vão ter de passar pela minha mão". A entrevista de Zé Gangó, publicada em maio de 1993 no Jornal do Sol de Porto Seguro, me fez recordar a placa incrustada no cemitério de Inúbia Paulista, cidade onde meus avós maternos descansam:

"FUI O QUE TU ÉS, TU SERÁS O QUE EU SOU"



Histórias reais - II

Roger, 20, lateral recém-promovido dos júniores, sabe que aquele jogo é a chance da sua vida. Porém, foi incumbido de uma tarefa das mais indigestas: marcar D'Alessandro, craque talentoso e marrento do River Plate. Seu time, o Corinthians, empata por um a um. O resultado elimina a equipe brasileira da Taça Libertadores da América.

45 minutos do primeiro tempo. D'Alessandro acaba de fazer uma firula desconcertante com a bola bem na frente de Roger. Geninho, técnico do Corinthians, está tão (ou mais) nervoso quanto o seu time. A um metro do campo, ordena ao seu jogador:

- Pega, pega, pega!

Qual um cachorrinho, Roger obedece cegamente às palavras de seu treinador. Acerta um pontapé desajeitado em D'Alessandro: cartão vermelho. Em entrevista coletiva dada após a eliminação corinthiana, Roger declara, cabisbaixamente:

- Não quis dar pontapé. Não estava nervoso. É difícil explicar. Estava ansioso para ajudar o time. E acabei atrapalhando...

Roger, 20, sabe que ficará marcado por esse lance pelo resto de sua carreira. Futebol é uma caixinha de Pandora.



Histórias reais - III

José Vieira de Melo Neto não suporta mais a espera. Tarsila Gusmão, sua filha, e Maria Eduarda Dourado, colega de escola, ambas com 16 anos, estão desaparecidas desde o dia 3. Depois de terem saído com amigos para passear de lancha até o Pontal de Maracaípe, em Pernambuco, elas se desencontraram do grupo e não foram mais vistas desde então. Apesar de uma campanha espalhada por todo o Nordeste, com divulgação em TVs, rádios e internet, ninguém sabe do paradeiro delas. Muito pelo contrário, diversas ligações com trotes foram recebidas pelo Disque-Denúncia. Cansado de acompanhar impotente as buscas da Polícia pelas praias do Litoral Sul, José Vieira conversa com Aníbal Moura, delegado e chefe da Polícia Civil:

- Doutor Aníbal, eu preciso fazer alguma coisa.
- Se isso vai lhe fazer bem, faça.

José Vieira, cujo hobby é fazer trilhas de rali, pega a sua moto e, ao lado do amigo Roberto, começa a percorrer estradas vicinais e entradas de cana em toda a área desde Porto de Galinhas até Serrambi. É movido por uma única certeza na cabeça: a necessidade aflitiva de descobrir se Tarsila ainda estava viva.

Na tarde do dia 13, a verdade. Os corpos das duas adolescentes já estão em avançado estado de decomposição. José reconhece Tarsila graças a uma pulseira prateada em meio aos despojos, presente que ele mesmo havia dado à filha. Dois dias depois, declara em entrevista a uma rádio:

- Gente ruim tem em todo canto, todo dia se mata. A esperança... Minha esperança agora é de achar quem fez isso. Porque minha filha, ninguém mais acha não.



15.5.03
Uma pequena nota: os comentários dos posts anteriores sumiram. É provável que tenham ido parar na mesma dimensão dos guarda-chuvas perdidos e canetas Bic usadas até o fim da carga. Contudo, cumpadi Fábio Sampaio já está trabalhando para resgatar os comments abduzidos. Realmente admiro a abnegação que o Fábio possui, ao se esforçar tanto (e tão arduamente) em continuar oferecendo à comunidade blogueira um serviço de qualidade totalmente gratuito, mesmo sendo obrigado a aturar muitas críticas e reclamações apesar de não receber um níquel sequer por seus serviços. Eu, por exemplo, confesso que minha paciência em manter o Spam Zine já está no limite...

Em tempo: Pensar Enlouquece alcançou hoje a casa de 100.000 page views em menos de nove meses de existência. Obrigado a todos que freqüentam este cafofo virtual!



14.5.03
Matrix Reloaded: pisando no freio

Somos humanos. Portanto, estamos sempre sujeitos a erros. Pior: dos mesmos erros de sempre. Por exemplo, misturar uísque com tequila na festa de fim de ano da firma, ou contar detalhes de sua vida amorosa pregressa para a namorada atual. Por que cargas d'água repetimos as mesmas tolices, quando há tantos erros novos a serem cometidos? Sei lá. E não me perguntem o porquê: não sou dos mais privilegiados em matéria de inteligência.

A DEUSA Monica Bellucci: não carece de explicação. Um exemplo clássico: jamais crie excesso de expectativas. Se você marcou o primeiro encontro in loco com aquela sua amiga virtual que você conhece apenas pelo nickname Ruiva-Loki, não vá esperar por uma clone da Nicole Kidman. Da mesma maneira, não leia um livro da Fernanda Young imbuído pela esperança de descobrir a Flannery O'Connor brasileira. O fomento de ilusões vãs é diretamente proporcional às probabilidades de se quebrar a cara.

Nesse sentido, a crítica de Ana Maria Bahiana a Matrix Reloaded foi recebida por mim como um alerta de valioso teor didático. Ana Maria, uma das melhores jornalistas culturais do Brasil, não mediu palavras ao bombardear a nova produção dos irmãos Wachowski: "Tirando algumas seqüências genuinamente espetaculares, graças a novíssimos, trabalhosos e engenhosos efeitos especiais, Matrix Reloaded é um dos filmes mais chatos, pretensiosos e confusos dos últimos tempos".

Não sou dessas pessoas que se pautam pela crítica dos jornais para escolher meus programas cinematográficos. Dois breves exemplos: os críticos enalteceram Através das Oliveiras, e eu dormi no meio do filme. Depois, desceram a lenha em As Pontes de Madison, e não pestanejo em afirmar que este longa de Clint Eastwood é uma das mais belas produções da última década. No entanto, não dá para não temer quando Ana Maria Bahiana relata que um dos personagens de Matrix Reloaded, Merovigian, gasta simplesmente doze minutos ininterruptos recitando um monólogo-cabeça. Tal cena me remete a um dos filmes mais modorrentos da História: uma xaropada francesa que vi numa das Mostras de Cinema Internacional de SP, da qual fiz questão de esquecer o título. Do filme, contudo, recordo o seguinte diálogo, que encerrava com chave de latão a discussão interminável de um casal em crise:

- Você não gosta mais de mim, e eu me sinto como uma banheira vazia.
- Então vou encher você agora com o meu amor (e os espectadores, de azia).

Sim, assistirei a Matrix Reloaded ainda esperançoso por encontrar uma continuação digna do filme original. Mas, desta vez, pisando no freio das expectativas que certamente aumentariam a probabilidade de eu me sentir como um conviva a quem serviram Sonrisal em taça de Dom Perignon.



10.5.03
Clipping

Encontrei esta nota através do excelente weblog de Daniel Santos: "Americanos criam papel eletrônico". Uma empresa norte-americana criou uma tela ultra-fina (apenas 0,3 milímetro de espessura) capaz de exibir textos e imagens com resolução próxima à de um laptop comum. Esse "papel eletrônico" pode ser dobrado, torcido e enrolado, tornando-se o primeiro passo para um futuro próximo no qual poderemos vestir jaquetas que exibem e-mails, cobertores com as manchetes do dia ou camisetas-outdoors, perfeitas para propaganda política ou promoção de eventos. Ao ler essa notícia, lembrei das invenções destrambelhadas daquele personagem do filme Os Goonies, que imaginava a concepção de um papel higiênico reciclável. Sonho com o dia em que limparemos a bunda com os spams de nossas caixas postais.

* * *

Matrix Reloaded, X-Men 2, A Máfia Volta ao Divã, Premonição 2, As Panteras 2... Por que Hollywood produz cada vez mais seqüências de filmes? Segundo um executivo entrevistado por Laura M. Holson, do New York Times, a resposta é simples: porque todo mundo gostou disso uma vez na vida. Bobviamente, nada garante que o espectador que gostou de um longa vá apreciar sua continuação, ou você conhece alguém que tenha aprovado Velocidade Máxima 2, De Volta à Lagoa Azul, Xuxa e os Duendes 2, Psicose II e III ou Três Solteirões e uma Pequena Dama?

Mas o pior ainda está por vir. Você sabia que Ben Affleck e Jennifer Lopez pretendem estrelar um remake de Casablanca? E que John Travolta e Olivia Newton-John foram contatados pela Paramount Pictures para atuarem em Grease 3 como os pais dos protagonistas, que desta vez dançarão ao som de música eletrônica? MEDO.

* * *

É expressionante a estiagem de novos ídolos na MPB. Um breve exemplo: os cinco indicados para a categoria Melhor Grupo do Prêmio Multishow de Música Brasileira deste ano surgiram no século passado (Titãs, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Capital Inicial e Skank). Não que não faltem novos talentos (você já ouviu Wado ou Grenade?), mas quantos deles conseguem aparecer na mídia e quebrar a barreira do jabá para tocar nas FMs? Enquanto isso, as rádios massacram nossos ouvidos com a constrangedora "Mais Uma Vez", faixa póstuma de Renato Russo que deveria ter sido cremada com ele.

Matéria do JB com o pra lá de discutível título "Kelly Key lidera revolução (!!!) entre ídolos teen brasileiros" fala do novo álbum de uma das pouquíssimas revelações (pfuf) do cenário musical brasileiro nos últimos anos. Contudo, não posso negar que a aparição de Kelly Key teve pelo menos um aspecto benéfico: tornar defasado o modelo virginal representado por Sandy. Ms. Key é uma cantora com vida sexual ativa, e assume isso sem as hipocrisias e moralismos de praxe. Mas não exigemos muito mais do que isso, vide a patética letra (com título a la Peter Greenaway) de "A Loirinha, o Playboy e o Negão", que afirma: "Ele é escuro, sim/ Um tremendo negão/ Mas não lhe falta (sic)/ Educação e respeito". Só faltou dizer que o protagonista da música é um preto com alma branca...

* * *

O hype atual na blogosfera da Gringoland é Flight Risk, página supostamente escrita por Isabella V., uma jovem milionária de vinte e poucos anos que teria iniciado em março deste ano uma viagem ao redor do mundo, motivada pelo desejo de fugir de um casamento arranjado por seus pais. O blog lembra muito um romance de Sidney Sheldon: Isabella entremeia lembranças de sua vida de "princesinha mimada" com descrições de suas peripécias cometidas a fim de despistar os investigadores particulares contratados para encontrá-la. Como todo blog que se preze, é atualizado constantemente, e uma reportagem feita pela Wired News constatou que há elementos que sugerem que a história possa ser realmente verdadeira (um comentário deixado por Isabella em outro blog foi feito por um IP localizado nas Bahamas, por exemplo).

O caso lembra bastante a discussão em torno de Where is Raed, blog supostamente escrito por um habitante de Bagdá que teria narrado in loco a movimentação das tropas anglo-americanas na guerra do Iraque. Até hoje não foi provada a autenticidade de Where is Raed, assim como há quem diga que Flight Risk não passa de um golpe publicitário para o lançamento de um novo livro. O único fato incontestável de toda essa história: blogs repercutem cada vez mais na mídia e, sim, vieram pra ficar.





Meus e-mails estão atrasados, o blog não é atualizado há dias, devo textos a vários sites, não telefono aos amigos mais próximos há tempos, fujo de meus credores, joguei fora o livro que rascunhei, não plantei uma árvore, não transmitirei o legado de nossa miséria, meu sono anda mais atrasado que menstruação de grávida e nem posso usar a desculpa de que estou na TPM. Contudo, abomino a resposta default de nove entre dez blogueiros que respondem FODA-SE a qualquer espécie de cobrança. Primeiro, porque, sem a menor exceção, todos nós somos fodidos, em menor ou maior escala, neste mundo em que vivemos. Segundo, porque procuro não desejar miséria nem fomentar sentimentos rancorosos por ninguém. Se eu desprezo alguma pessoa, simplesmente sigo adiante: viver bem é a melhor vingança. Terceiro, porque, bem ou mal, todos nós devemos satisfações a alguém. Eu, por exemplo, devo desculpas aos amigos e leitores que gastaram uma fração do seu dia para escrever comentários e e-mails tão bacanas nos últimos dias, mas ainda não receberam a devida resposta personalizada (reservarei este domingo para tentar escrever a todos).

Apesar dos rumores que afirmam o contrário, dos aforismos de Schopenhauer e dos ditames de Lady Murphy, da guerra civil brasileira e da pneumonia asiática, dos dissabores cotidianos e dos amores voláteis, das pegadinhas do João Kléber e dos spams que assolam minha caixa postal, da absolvição de ACM e da gripe potencial que flerta com minha saúde há dias, além dos socos do destino que tentam (mas não conseguem) nocautear minha alma, a vida continua sendo uma grande e maravilhosa aventura. Não querendo soar Deepak Chopra (mas já soando), afirmo o seguinte: ignore solenemente aqueles que mandam você se foder, porque ninguém vai mexer no seu queijo ou fazer você ter um dia "daqueles" se você não permitir que outros estraguem seu humor.

E agora, de volta à nossa programação normal.



7.5.03
Valeu!

Pessoal, não foi desta vez. Nelito Fernandes, o homem por trás do Eu Hein, foi, merecidamente, o grande vencedor do prêmio iBest Blog. De minha parte, gostaria de agradecer, de coração, a todos aqueles que tiveram a paciência de votar em Pensar Enlouquece. Cada um de vocês merecia ter sido premiado só pela paciência de preencher aquele maçante cadastro para participar da votação (em tempo, o nome da sorteada que ganhou o Xsara Picasso é Michelle Saig). O sonho foi bom enquanto durou, mas agora preciso ir à padaria comprar mais alguns. :)

Um grande beijabraço a todos que votaram ou torceram por mim. E, mais uma vez, obrigado pela força!



3.5.03
Tempus fugit

E se eu perdesse completamente minha memória? Sem lembranças, talvez outra pessoa completamente diversa emergeria de dentro do meu corpo. Trocaria minhas noites insones digitando textos no silêncio da madrugada por caminhadas ensolaradas na Avenida Sumaré? Seria eu mais loquaz, irreverente, mesquinho, taciturno, ingrato, benevolente, passional? Esquecida minha timidez, finalmente teria cara de pau para perguntar às transeuntes incautas o telefone de seus cachorrinhos? Apagadas minhas leituras pregressas, trocaria minha biblioteca por uma mountain bike e uma vida menos sedentária? Faria uma viagem para o Tibete em busca de auto-conhecimento ou ingressaria em uma academia de jiu-jitsu?

* * *

Palmilhando as veredas de meu passado cinéfilo, cavouquei a lembrança de um filme, "A História Sem Fim 2", provavelmente visto em uma Sessão da Tarde. A premissa era a seguinte: Bastian era um garoto que encontrara numa biblioteca empoeirada um misterioso livro no qual ele podia entrar e interagir com seus personagens - bruxas, ogros, cachorros voadores, pássaros falantes. Para enfrentar os perigos desse mundo fantástico, Bastian recebera de uma das bruxas um medalhão que lhe oferecia o poder de satisfazer cada desejo solicitado. Contudo, havia uma contrapartida: para cada desejo formulado, uma lembrança seria perdida em definitivo.

O filme não era lá essas coisas, mas lembro que fiquei ruminando por muito tempo as tentações suscitadas por esse ambíguo medalhão. Perguntava a mim mesmo: e se eu o tivesse em minhas mãos, toparia trocar minhas memórias a fim de realizar alguns dos meus sonhos? Poderia me tornar um artista tão talentoso quanto Júlio Cortázar, Cole Porter ou Henri Matisse, mas o que me seria tomado em troca? O endereço da minha casa? A emoção do primeiro beijo? As histórias contadas por meu avô? As gargalhadas de uma tarde inesquecível entre amigos? O amor que um dia guardei pra você? Será que o preço valeria a pena, tendo em vista o fato de que cada desejo que nutrimos é criado a partir da memória dos sons, cheiros, vozes, leituras e lições que apreendemos ao longo da vida?

* * *

Uma lembrança puxa outra, e mais outra, e outra mais, no confuso cabo-de-guerra das associações de idéias que se emaranham e des(a)fiam o novelo da memória. E torna-se impossível não deixar de citar um conto de Jorge Luis Borges, "Funes, o Memorioso", sobre um homem que se lembrava de tudo, e, de tanto lembrar, tornava-se incapaz de viver o momento presente.

Ireneo Funes vivia como quem sonhava. Olhava sem ver e ouvia sem ouvir, ao perder-se irremediavelmente em cada milimétrico fiapo de memória. Porque Funes recordava todas as formas das nuvens austrais da manhã de 30 de abril de 1882, assim como cada dobra de um livro entrevisto apenas uma vez, ou cada folha de cada árvore de cada monte na estância de San Francisco. Pior: cada imagem estava ligada a sensações tácteis, olfativas, gustativas, indissociáveis de cada nova reminiscência resgatada pela vertiginosa memória do personagem de Borges.

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Deus me livre de uma memória prodigiosa assim. Prefiro deixar que agendas, disquetes e cadernos se encarreguem de registrar meus dias: nenhuma pessoa agüentaria suportar a carga de se tornar um Google ambulante. Em vez dos afluentes do Rio Amazonas, prefiro recordar o dia em que Daniel Azulay me ensinou a fazer óculos de uma caixa de ovos e dois canudinhos. E jogar na lixeira da memória as fórmulas de cálculo estequiométrico que aprendi no colegial, a fim de reservar espaço para lembranças bem mais valiosas, como a noite em que bebemos vinho e você acendeu seu cigarro nas estrelas.

Que apenas os momentos que realmente importam sejam guardados em meu cérebro e meu coração. Porque é preciso recordar, mas também é preciso esquecer. Caso contrário, a vida seria um vaso repleto de ressentimentos, amizades perdidas e amores jamais cicatrizados (como diz a canção de Nando Reis, "tornar o amor real é expulsá-lo de você pra que ele possa ser de alguém").

(texto publicado originalmente no Spam Zine edição 090)



2.5.03
Bloglândia

Bacana esse banner criado pelo Marmota, huh?- Domingo, dia 4 de maio, é o último dia para quem deseja participar do Primeiro Grande Desafio Virundum. Para participar, faça o seguinte: clique aqui com o botão direito do mouse, escolha a opção Salvar Destino Como... e downloadeie a música "O Elefante" de Robertinho do Recife. Depois, tente decifrar a letra (uma das coisas mais nonsense que já vi em toda a história da MPB) e mande sua versão para virunduns@yahoo.com.br. Duas camisetas exclusivas Virunduns serão enviadas para as duas melhores transcriações recebidas.

Futebol é uma caixinha de Pandora...- Depois do Nove Meses, o excelente blog temático no qual Gustavo de Almeida escreve sobre o primeiro campeonato brasileiro disputado por pontos corridos, agora é a vez do BlogBola entrar em campo. Aceitei, com muito prazer, a convocação feita pela comissão técnica liderada por Raphael Perret e Elis Marchioni, e agora vocês também poderão me encontrar lá no BlogBola, dando pitacos sobre futebol ao lado de outros craques como Orlando Tosetto Júnior, Erick Müller e Niqui Lang. Escreverei, bobviamente, notas sobre o meu Guarani.

Por onde anda a mais-que-querida Maria Elisa Guimarães?!- Este blog apóia incondicionalmente a campanha iniciada pelo Repórter Mosca. Meg, a pessoa mais doce e generosa da bloglândia tupiniquim, faz uma falta danada. Volta, Meg, volta!

Conheça o blog do professor José Luis Orihuela.- Implantar um sistema de estatísticas no próprio blog é utilíssimo. Além de descobrir quantos incautos visitam sua página por dia, sistemas como o Nedstat funcionam como verdadeiros delatores virtuais que não deixam escapar nada. Foi por intermédio deles, por exemplo, que descobri uma citação a Pensar Enlouquece no eCuaderno, blog sobre cibercultura mantido por José Luis Orihuela, professor da Universidade de Navarra, na Espanha. Orihuela organizou uma bela compilação de weblogs em português, na qual tive a honra de ser incluído. Gracias! :)