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30.3.03
Pulando o tubarão

Foi bom enquanto durou..."Jump the shark" é uma expressão criada para denominar o começo do fim de uma série de TV. É o momento em que o telespectador percebe que ela atingiu seu pico, e, ao mesmo tempo, o início de sua decadência. É o instante em que um programa chega a um momento irreversível de sua existência. Exemplos? O beijo de David e Maddie em A Gata e o Rato. Kevin Arnold chegando à puberdade em Anos Incríveis. Boy George fazendo uma participação especial em Esquadrão Classe A. A revelação de quem matou Laura Palmer. Ross e Rachel se atracando em Friends. A primeira aparição da "Turma do Bacana" em Armação Ilimitada. A entrada de Pedro Paulo Rangel no elenco da TV Pirata.

O termo surgiu em uma conversa entre dois colegas de faculdade, Sean Connolly e Jon Hein, criadores do site Jump the Shark, e origina-se de uma cena do clássico seriado Happy Days (citado pela banda Weezer no videoclipe da música "Buddy Holly"). Segundo análise dos dois amigos, Happy Days começou a decair a partir de um episódio no qual o personagem Fonzie aparece pulando em cima de alguns tubarões em um salto de esqui aquático. A cena foi tão ridícula que marcou, fulminantemente, o início do processo de derrocada do seriado.

O site, de visita obrigatória a qualquer internauta interessado em cultura pop, possui um espaço aberto para a partipação dos telespectadores, que votam nos momentos em que suas séries prediletas começaram a subir no telhado, classificados por categorias como "Mesmo Personagem, Ator Diferente" (exemplo clássico: a mudança do ator que interpretava o marido da Feiticeira), "Novo Garoto na Cidade" (como Scooby-Loo, o sobrinho pentelho do Scooby-Doo) ou "Nascimento" (vide Mabel em Mad About You, ou Pedrita e Bam-Bam em Os Flinstones).

* * *

Lembrei dessa expressão após assistir, semana passada, ao último episódio de Arquivo X, um seriado que não acompanhava há tempos. Para ser mais exato, desde 1998, quando considero que ele "pulou o tubarão".

O começo do fim...Quando Arquivo X surgiu, em 1993, o seriado causou sensação imediata. Seus roteiros abordavam temas que tangenciavam o ridículo: alienígenas, conspirações governamentais, monstros folclóricos. Contudo, trabalhavam tais assuntos com inteligência e criatividade. Insinuavam respostas sem mastigar explicações redutoras, incitavam a imaginação dos espectadores e, principalmente, traduziam de forma criativa o zeitgeist de uma época pós-utópica, marcada pela descrença generalizada nas instituições, e pela busca, no final do século, de respostas místicas a mistérios que as religiões já não nos respondiam satisfatoriamente. De quebra, os X-Files trouxeram um inovador casal de protagonistas: Fox Mulder e Dana Scully. Dois agentes do FBI que, ao decorrer dos anos, consolidaram um relacionamento baseado na extrema confiança que nutriam um pelo outro. Uma relação mantida à base da estrita amizade e nada mais do que isso, provando aos telespectadores que nem toda relação homem/mulher necessitava culminar em sexo.

Infelizmente, os produtores do seriado não souberam a hora de parar. A galinha dos ovos de ouro foi artificialmente mantida viva até que expelisse seu último e melancólico traque dourado. Nove anos depois, com os índices de audiência arrefecendo à medida que as virtudes iniciais descambavam para o patético, a série finalmente chegou ao seu fim. De quebra, amarguei ver, no último episódio, um beijo apaixonado entre Mulder e Scully: a prova inconteste de que o mais interessante dos relacionamentos platônicos soçobrou à sanha dos clichês televisivos. Foi uma piscadela cúmplice ao grande público, mas também um golpe dispensável aos antigos fãs da série, que admiravam ver como os roteiristas de Arquivo X driblavam as convenções clássicas dos casais televisivos.

Depois de assistir ao capítulo final, assimilei definitivamente a lição: não confie em ninguém, muito menos em produtores de Hollywood.

Mas, muito antes do beijo apaixonado entre Mulder e Scully, Arquivo X já havia "pulado o tubarão". O começo do fim veio com a produção de um ridículo filme para o cinema, em 1998, no intervalo entre a quinta e a sexta temporada. Com o longa-metragem, vieram revelações bombásticas e respostas nada convincentes aos mistérios propostos pelos roteiristas. Daí pra frente, o processo de decadência foi inevitável: é o mal de se banalizar os enigmas. Citando as sábias palavras de Federico Garcia Lorca: "só o mistério nos faz viver".

* * *

A expressão é um achado tão bom que pode ser facilmente transplantada para outras áreas além dos limites televisivos. Cinema, por exemplo: A Lista de Schindler, o filme de Spielberg, resvala na categoria de obra-prima até a cena em que Oskar Schindler, ao se despedir dos judeus de sua fábrica, começa a chorar copiosamente dizendo: "mas se eu tivesse vendido este anel, teria salvo mais cinco judeus", e blá blá blá. A partir desta seqüência desnecessariamente explicativa, você já sabe: o filme pulou o tubarão.

Esportes: Ronaldinho pulou um baita dum tubarão na fatífica final da Copa da França de 1998. Mas, caso raro, conseguiu nadar contra a corrente e dar a volta por cima com a ajuda valiosa da Família Felipão neste ano.

Música: para mim, o Pink Floyd pulou o tubarão quando Syd Barrett não voltou de sua viagem de L.S.D., embora a maioria dos fãs pense que o tubarão só foi transposto com a saída de Roger Waters da banda. Quanto aos Beatles, quantos hão de discordar que o encontro de John Lennon com Yoko Ono foi o esqui aquático dos Fab Four? E Caetano Veloso? Há quem diga que o baiano já nasceu montado na garupa do bichinho: ô povo maldoso...

Vida pessoal. Você descobre que seu relacionamento pulou o tubarão a partir do momento em que sua parceira o chama para conversar, dizendo aquela tenebrosa frase:

- Precisamos discutir nossa relação.

Não se esqueça de levar bóias e colete salva-vidas.

(originalmente publicado no Spam Zine edição 077)



29.3.03
O lema do site: com todo mundo nu, a guerra fica em segundo plano.Tem que rir pra não chorar. Depois do site Masturbate For Peace (que, como bem escreveu Mr. Valletta, poderia adotar como slogan a frase "a paz mundial está em nossas mãos..."), encontrei uma página brasileira que leva até as penúltimas conseqüências o ditado "faça humor, não faça a guerra".

O incauto senhor ao lado é Laércio, 49 anos, residente em São Caetano do Sul, SP. Assim como ele, diversos internautas resolveram expor sua nudez (nem um pouco artística) no site Nus Contra a Guerra, o recanto ideal para pacifistas que toparam exibir seus corpos por uma boa causa: as risadas dos visitantes da página (ah sim, e a paz mundial).

Por último, mas não menos importante, recomendo fortemente uma visita a esta página mantida pelo canal Al-Jazeera, que exibe a guerra sob o ponto de vista de cartunistas do Oriente Médio. O sarcasmo ferino das tiras dispensa a compreensão dos arabescos da caligrafia árabe: humor é uma linguagem universal.



28.3.03
Clique aqui para obter a versão wallpaper deste desenho.
(ilustração de Silvio Ribeiro, autor do imperdível blog Moidsch)

O poema abaixo estava esquecido numa de minhas gavetas virtuais. Relendo-o agora, resolvi publicá-lo por causa do contexto atual. Há ocasiões em que a gente é obrigado a sofrer de um pouco de amnésia para poder ser feliz neste mundo.

* * *

Instante

Que seja apenas por um instante,
mas que seja breve e intenso este instante.
Sem regras, a não ser as ilógicas da paixão.
Sem lucidez, mas consciente dessa falta de lucidez.
Sem remorsos, anterior a todo pecado.

Que seja mágico, tenso e profundo
este instante entre os seus braços:
um açoite - luz do sol na vista;
um impulso - salto no abismo infinito;
um momento levitando na memória.
Mas que não dure mais que um instante.

Vem, e me faz esquecer.



Clipping

Vi essa notícia no weblog do No Mínimo: EUA usaram napalm no sul do Iraque. Enquanto a História se repete como uma farsa de péssimo gosto, ouço o Coronel Kurtz sussurrar seu mantra em meus ouvidos: "the horror... the horror..."

* * *

Michele, a cadela de Lula que passeou em carro oficial, foi exilada no apartamento da família em São Bernardo, desde que jornalistas a pegaram no flagra. Tadinha: vida de cão deve ser chata pra cachorro... E por falar em cachorradas, alguém aí se lembra da Orca, a cadela do folclórico ex-ministro do Trabalho Antonio Magri, que se notabilizou por ter inaugurado essa moda de cães andarem em carros oficiais? Até hoje guardo na memória a antológica justificativa de Magri: "O cachorro é um ser humano como qualquer outro".

* * *

Qualquer comercial de cerveja propaga a maior das obviedades estereotipadas a respeito do universo masculino: homens gostam de mulher e futebol. O que dizer, pois, quando surge na tela a figura (e as belas pernas) de Ana Paula de Oliveira, bandeirinha que roubou a cena no final do Campeonato Paulista do último sábado entre Corinthians e São Paulo? Não tardou para que revistas masculinas se apressassem em procurar Ana Paula propondo-lhe as famosas fotos de "nudez artística" (ah, os eufemismos). Embora a assistente de arbitragem ainda relute em posar nua, pelada, desnuda, au naturel e sem roupa nenhuma, há esperanças. Em chat promovido pelo site Futebol Interior, Ana Paula, ao questionada sobre o que acha do Paparazzo (página especializada em fotos "sensuais" de participantes do Big Brother e atores globais), respondeu: "Eu acho bacana! É um site sensual, um site legal!".

* * *

O que seria do show business se não fossem os oportunistas? No Egito, o cantor Shaaban Abdel Rahim colhe os louros do sucesso de uma música intitulada "Bakra Israel" (Ódio a Israel). Nessa canção, Shaaban comete versos como: "Inspecionem Israel!/ Há muitas armas de destruição/ Em massa por lá". Enquanto uns incitam preconceitos imbecilizantes, nos Estados Unidos o documentário Uncle Saddam está para ser lançado em DVD. Dirigido pelo francês Joel Soler, o filme mostra o líder iraquiano jogando uma granada (!!!) num lago para pescar. Em outra singela cena, Saddam é beijado por alguns de seus asseclas no... sovaco. A empresa que está lançando o filme dos Estados Unidos afirma que o lançamento do DVD em meio à guerra no Iraque é apenas "mera coincidência".

* * *

Brasília, Rio de Janeiro, Presidente Bernardes, Maceió, Piauí... Batata quente em forma de traficante, as perambulações de Fernandinho Beira-Mar pela Terra Brasilis me fazem lembrar uma bala solitária no tambor de um revólver. Nessa roleta russa com tempero tupiniquim, a pergunta inevitável que vem à mente é: nos miolos de qual estado essa bala será engatilhada?



27.3.03
Nos subterrâneos do metrô

Conselho de amigo: segure bem seu guarda-chuva.

Viajar de metrô é algo que faz parte do cotidiano do paulistano desde 1974, quando começou a operação comercial da Linha Azul, unindo os bairros de Santana e Jabaquara. Atualmente a cidade de São Paulo possui 57,6 quilômetros de linhas, através das quais circulam em média 1,8 milhão de passageiros nos dias úteis. São números que impressionam, mas que não revelam as histórias por trás das estatísticas. Por exemplo: você sabia que, toda vez que o vagão do metrô pára entre duas estações (e você xinga a Deus e o mundo porque nunca sabe o que está ocorrendo e nem quando é que o maldito trem voltará a circular), isto ocorre porque muito provavelmente alguém derrubou um objeto dentro da linha? Foi o que me aconteceu no sábado à noite.

Estava eu às 20 horas na estação Paraíso, atrasado (para variar) a um encontro com S., minha namorada, que não costuma ser nem um pouco complacente com atrasos. Aguardava eu o trem, todo angustiado, pouco antes da faixa amarela, quando outro paulistano, apressado como qualquer habitante desta cidade neurótica, esbarrou em mim. Resultado: o guarda-chuva que eu segurava (ê cidade da garoa...) caiu dentro da linha. Imediatamente lembrei-me da Lei de Murphy: "não há nada que não esteja ruim que não possa ser piorado". Saí correndo em busca de um funcionário que pudesse retirar rapidamente o objeto de dentro da linha, e cheguei até a SSO (Sala do Supervisor de Operações). Cada estação do metrô possui uma SSO, e é o funcionário que trabalha nessa sala quem é o responsável por aquelas mensagens que ouvimos nos alto-falantes do metrô, do tipo "não dê esmolas dentro das estações".

A supervisora de plantão daquela noite, Maria Luz, 43 anos, já começou me dando sermão: "por isso é que a gente avisa para que as pessoas aguardem os trens antes da faixa amarela!". Paciência. Ela me avisou que eu teria de esperar até que algum funcionário descesse para retirar meu guarda-chuva. A essa hora eu já antecipava o rosto furioso da minha namorada (já estava 15 minutos atrasado) e estava louco pra esquecer o guarda-chuva, mas Maria Luz me informou que a operação seria rápida. Após chamar um operador pelo interfone, a próxima providência da supervisora foi anunciar ao microfone do metrô: "atenção - não ultrapasse a faixa amarela". Ela olhava para mim enquanto pronunciava essas palavras.

A esta altura do campeonato, dois trens já tinham passado e eu nem queria mais saber do guarda-chuva, mas enfim, quem está na chuva é para se molhar. Após oito intermináveis minutos, chegou Paulo Machado, 35 anos, responsável pela manutenção do Metrô. Informei-o onde estava meu guarda-chuva. Constatando que não seria necessário descer para retirá-lo da linha, Paulo entrou na SSO, vestiu um colete laranja e fez uma ligação para a Administração, solicitando permissão para a retirada de um objeto.

Conversando a respeito do incidente, Paulo disse-me que felizmente um gancho seria suficiente para a retirada do objeto. "Se eu tivesse que descer até os trilhos, teríamos que desligar a eletricidade de todas as linhas do metrô, e todos os 98 trens da nossa frota parariam até que seu guarda-chuva fosse retirado", explicou. Caramba! Foi aí que descobri o porquê daquelas paradas que os trens fazem entre uma e outra estação: por causa de infelizes como eu, que derrubam objetos dentro das linhas. Quando há uma parada mais prolongada, e o ar-condicionado e as luzes são desligados, com certeza é porque há um funcionário que teve de descer até os trilhos. Segundo informações retiradas da home-page do Metrô, a Eletropaulo alimenta as linhas com tensão de aproximadamente 88.000 volts.

A operação foi rápida: apenas o tempo de encaixar o gancho no guarda-chuva. Enquanto o próximo trem não chegava, perguntei a Paulo qual foi o caso mais inusitado que ele já tinha testemunhado sobre objetos caídos. "Houve um rapaz que inventou de mostrar a aliança pra noiva justamente em frente à linha. Ela deve ter ficado emocionada demais, e você pode imaginar o escândalo que ela fez quando derrubou a aliança. Até desligarmos a tensão e resgatar o objeto, levamos 30 minutos, atrasando todos os trens. A noiva acabou desmaiando de tanto nervosismo". Ainda segundo o site do Metrô, no ano passado foram atendidos em primeiros-socorros, pelos funcionários das estações, 12.635 pessoas, sendo 1.398 usuários acidentados, 9.327 usuários acometidos de mal súbito, 785 casos de embriaguez, 545 casos diversos (agressões, tentativas de suicídio, distúrbios psiquiátricos e outros) e 850 auxílios a público externo.

Tudo resolvido, agradeci ao Paulo e a Maria Luz, que despediu-se de mim com ternas palavras: "cuidado com a faixa amarela!". Quanta simpatia. Após 25 minutos de atraso, finalmente peguei o vagão que me levaria ao Terminal Rodoviário do Tietê, onde encontraria S. Dentro do trem, constatei os danos: duas varetas quebradas. Poucos, diante do que minha namorada faria comigo. Para completar a história: na estação Luz (quanta ironia) o vagão parou e as luzes se apagaram. Enquanto imaginava Paulo descendo nos trilhos para retirar mais um objeto, antecipava as poucas e boas que teria de escutar naquela noite, e pensava se não seria mais convincente dizer a S. que me atrasei porque os pneus do metrô furaram.

P.S.: A republicação do texto acima, escrito originalmente em 21 de setembro de 1998, é uma pequena homenagem a "S.", que faz aniversário no dia de hoje. Não somos mais namorados (nossa relação não terminou por causa do meu atraso, não se preocupem), mas nem por isso deixamos de nos falar. Nossa amizade permanece firme e forte, e assim o será para sempre. Um beijabraço procê, "S."! \( ^_^ )/

P.P.S.: Infelizmente nem todas as histórias de metrô são amenas como a minha. Não esqueçamos nossa guerra particular.



26.3.03
Bloglândia

Love is for suckers. Sex is for fuckers.- Na falta de Al-Jazeera, opte pela melhor cobertura da guerra feita por um blog brasileiro: Arnaldo Allemand Branco, o (ir)responsável pelo cartum ao lado e por diversos insights islamicamente incorretos. Visite por sua própria conta e riso.

- É um negócio meio odara, totalmente nagô, über pós-tudo. Tipo assim, uma coisa assaz gozosa, tal qual um barulhinho oniotissincrático ou um solilóquio analdantúnico, saca? Apresento-lhes, pois, os Tribloguistas, que, veja bem, chegaram para abalar todos esses cânones que obstaculizam o impacto midiático enquanto estrutura estupefaciente da teoria logística de Baudrillard, aplicada aos canais de comunicação a nível de ontologia concernente a apocalíticos e integrados, da qual fazemos parte como um todo. Ou não.

- Pessoas do Século Passado é um projeto que iniciou suas atividades como um site, e deverá culminar em um livro a ser publicado neste segundo semestre. Capitaneado por Dodô, que escrevia a saudosa coluna Beira Mar do jornal O Globo, é descrito como "um log coletivo e multimídia de histórias de fim de século a um só tempo anarquizadas e organizadas por um sujeito chamado... Dodô". Participe você também desse projeto.

- Alê Félix, do Amarula com Sucrilhos, escreveu um post antológico sugestivamente intitulado "O blog começa a lhe fazer mal quando...". Fiquei realmente preocupado: me identifiquei com cerca de vinte itens elencados pelo texto. Alguém aí conhece uma associação de Blogueiros Anônimos?

- O pessoal da revista Seleções prossegue sua busca pelos melhores textos publicados em blogs brasileiros (os autores recebem R$ 300 pelos direitos de reprodução de cada post). Interessou? Então inscreva-se aqui, e aproveite para conferir os cinco textos selecionados deste mês.



25.3.03
O melhor Oscar dos últimos tempos

Em 13 de fevereiro, pouco após a divulgação da relação de candidatos ao Oscar deste ano, destaquei quatro indicações que haviam me deixado feliz: Nicole Kidman na categoria de Melhor Atriz por As Horas, A Viagem de Chihiro (Spirited Away), de Hayao Miyazaki, para Melhor Longa de Animação, Michael Moore e seu Jogando Boliche em Columbine para Melhor Documentário e Pedro Almodóvar disputando os prêmios de Direção e Roteiro Original com seu magistral trabalho em Fale Com Ela. Preciso dizer, pois, o quanto fiquei satisfeito com a lista de premiados anunciada neste último domingo?

Foi a cerimônia mais emocionante dos últimos tempos. Ao contrário das barbadas de outros anos, o suspense em saber quem levaria o prêmio de Melhor Filme perdurou até a hora em que Kirk e Michael Douglas anunciaram o Oscar principal para Chicago. Sim, o musical dirigido por Rob Marshall era o filme favorito. No entanto, depois de O Pianista ter recebido as estatuetas de Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Diretor, já estava com a convicção de que a Academia consagraria de vez o belo drama de Roman Polanski, diretor polonês responsável por outros grandes filmes como Repulsa ao Sexo, O Inquilino e Chinatown.

Em compensação, a merecida premiação para Polanski representou mais uma derrota para Martin Scorsese. Ok, foi um resultado justo: O Pianista é muito mais filme que Gangues de Nova York. O grande problema do épico de Scorsese está no excesso de ambição: o filme fala de corrupção, política, violência, conflitos raciais e a formação da nação norte-americana, e ainda emenda tudo com uma história de amor mal ajambrada. A impressão nítida que tive é de ser o típico filme que só poderá ser realmente apreciado quando for lançado o director's cut, daqueles com mais de quatro horas de duração. Não à toa, Scorcese e sua produtora, a Miramax, tiveram discussões seríssimas a respeito da montagem do filme. Mas, a julgar pelo talento do diretor de Taxi Driver e Depois de Horas, não pestanejo em afirmar que a versão final de Gangues de Nova York será a obra-prima definitiva de Scorcese: esperem para ver.

Adrien Brody aproveitando os louros da fama na excelente companhia da bond girl Halle Berry.Quanto aos méritos de O Pianista, nada a discutir. A seqüência em que o personagem de Adrien Brody toca piano para o oficial nazista é uma das cenas mais pungentes do cinema nos últimos anos, sem contar as outras inúmeras seqüências que entram pela retina e socam o espectador na alma. Oscar de Melhor Ator mais do que merecido, pois, para Brody. Que, de quebra, roubou um beijo da deliciosa Halle Berry, tornou-se o ator mais jovem a receber o Oscar (com 29 anos, superou o feito de Richard Dreyfuss, premiado por A Garota do Adeus aos 30) e ainda proferiu o discurso mais emocionante da noite, ao dizer: "And whatever you believe in, if it's God or Allah, may he watch over you and let's pray for a peaceful and swift resolution".

Não se pode dizer que a premiação de Chicago como Melhor Filme tenha sido injusta. Os números musicais são excelentes, Catherine Zeta-Jones (merecidamente oscarizada como Melhor Atriz Coadjuvante) rouba todas as cenas, e Renée Zellweger e Richard Gere surpreendem positivamente cantando e dançando. A temática do filme não poderia ser mais atual: crimes passionais que ganham manchetes de jornais, e a tendência da mídia de transformar qualquer tragédia humana em espetáculo a ser consumido. Em tempos nos quais uma guerra é transmitida com intervalos para comerciais, nada poderia ser mais adequado.

Fazendo um balanço final, a constatação que faço é de que o Oscar deste ano, contrariando o tão criticado conservadorismo da Academia, surpreendeu positivamente ao premiar uma animação japonesa (A Viagem de Chihiro), um roteirista espanhol (Almodóvar), um rap como Melhor Canção Original (Lose Yourself, do enfant terrible Eminem), um cineasta polonês condenado na América por sedução de menores (Polanski) e (propositadamente deixei o melhor por último) um documentário, Jogando Boliche em Columbine, dirigido por Michael Moore, um homem que não pestaneja em se autodenominar o inimigo número 1 do Presidente dos Estados Unidos em tempos de guerra.

Michael Moore, o homem que ofuscou as estrelas de Hollywood.Foi de lavar a alma ver Michael Moore, que além de cineasta escreveu o livro "Stupid White Men... and Other Sorry Excuses for the State of the Nation!" ("Brancos e Burros... e Outras Desculpas Esfarrapadas para o Estado da Nação"), subir ao palco e achincalhar Bush Júnior com um discurso duro, sincero e preciso: "Nós gostamos de não-ficção, mas vivemos uma era fictícia, na qual tivemos resultados eleitorais fictícios que elegeram um presidente fictício. Uma era na qual temos um homem que nos manda à guerra por razões fictícias. Que vergonha, senhor Bush, que vergonha. O seu tempo acabou".

Deus (seja ele conhecido como Alá, Buda, Jeová, Zeus ou Tupã) queira que essa onda de antiamericanismo que ameaça invadir o planeta não impeça as pessoas de lembrarem que a terra do Tio Sam ainda possui gente da estirpe e da coragem de um Michael Moore.



Amadeu Bocatios, André "Marmota", Augusto Sales, Cremilson Luiz, Danilo Amaral, Diga Mello, Edney Souza, Elayne Cirne, Elis Marchioni, Emerson Santana Pardo, Fabiana "Jaspion", Fabio Danesi Rossi, Fábio Sampaio, Fernanda "Pi", Gustavo de Almeida, Ian Black, Iosif Landau, Jeannie, Jerusa, Juan Saavedra, Júlia H., Julie, Juninha, Leandro, Leonardo Bertozzi, Li, Marcela "Capitu", Matusalém Matusca, Miss Walker, Musa, Nelson Moraes, Nicole Bernardes, Paula Pimenta, Renata Mazoco, Ronaldo Inagaki, Sarah Ivich, Suely Coelho, Suzi Hong, Wagner Tamanaha, Your Soul e todos os leitores que não citei (qualquer coisa, deixem um puxão de orelhas virtual em mim no espaço dos comentários, ok?): meu muito obrigado a todos vocês, seja pelo voto, pela torcida ou pela publicação deste banner bacana.

Vote em Pensar Enlouquece no iBest Blog!

Faltam 23 dias para o final da votação do Top 3, e cada ajuda a mais que vier será bem-vinda. Convoque seus pais, irmãos, tios, primos, paqueras, vizinhos, colegas de trabalho, escola, acupuntura, hospício, elevador, academia e reunião de condomínio para esta peleja! Mas, se os singelos olhos puxados deste escriba que vos escreve não forem argumentos suficientes para o voto neste blog, avise-os que cada votante cadastrado no iBest concorre a um Citroën Xsara Picasso zerinho. :)

UPDATE: Novos agradecimentos, desta vez a Christiane de Assis Pacheco, Flavia Ballve-Boudou, Jorge Rocha, Julio César Andolini e Lucy. Em tempo: Bárbara, acabei de receber o livro do seu pai, brigadaço! :) E, Denis, creia-me: não tenho a cara de pau necessária pra ficar fazendo campanha em baladas...



24.3.03
Mecca Cola, um refrigerante islamicamente correto.Não sou favorável a essas campanhas de boicote a produtos norte-americanos. Esse tipo de iniciativa me faz lembrar as bravatas daquele José Bové, ativista francês que acha que apedrejar lojas do McDonald's é uma maneira eficaz de protestar contra a globalização. Só para ilustrar: o grupo do Big Mac é o quarto maior empregador privado do Brasil. Mas enfim, cada um tem a sua maneira de protestar contra a chacina promovida por Bush Júnior. Só não concordo com a busca por bodes expiatórios que pouco têm nada a ver (a não ser as origens gringas) com as patacoadas do governo norte-americano (vide posts abaixo).

De qualquer modo, confesso que se a Mecca Cola fosse vendida no Brasil, não hesitaria em comprar algumas garrafas no lugar da Coca de sempre. Primeiro, porque alimentei uma simpatia irresistível a partir do seu slogan: "No more drinking stupid, drink with commitment!". Depois, porque a bebida destina 20% de suas rendas a projetos sociais em Cisjordânia e Gaza, assim como a associações que apóiam a criação de um Estado palestino. Em terceiro lugar, porque o inventor da Mecca Cola, o empresário franco-tunisiano Tawfik Mathluthi, anunciou para breve a criação da rede de lanchonetes Halal Fried Chicken, um cover islâmico da Kentucky Fried Chicken. Adorei isso: combater a hegemonia econômica norte-americana usando as mesmas armas do rival.



Bancários e maratonistas

Em tempos pré-telégrafos, Reuters, jornais ou Internet, os portadores de notícias cumpriam o papel de transmissores das boas e más novas: eram homens que corriam para lá e para cá, munidos com fôlego de sobra e calos nos pés, encarregados por reis e governantes da tarefa de difundir as notícias mais importantes mundo afora.

Reza a lenda que um desses portadores de notícias, o grego Pheidippides, foi o responsável pela origem da maratona olímpica. Esse infeliz foi encarregado, no ano de 490 a.C., de anunciar a vitória dos gregos sobre os persas em uma batalha ocorrida na região de Maratona. Para tanto, foi obrigado a correr aproximadamente 35 km até a cidade de Atenas. O esforço foi tanto que Pheidippides, ao chegar em Atenas, só teve fôlego para dizer uma palavra: "vencemos". Depois, caiu estatelado no chão: estava mortinho da silva.

Não existem provas que atestem a veracidade da história de Pheidippides, mas o fato é que a profissão de portador de notícias era um ofício tão ingrato quanto ser sósia do Saddam Hussein no Iraque. Se um portador trouxesse más novas, como o anúncio da derrota em uma batalha, os habitantes locais não raramente descontavam sua frustração no lazarento, que acabava sendo assassinado a fim de aplacar a fúria da população (às vezes um sindicato faz uma falta desgraçada).

Como funcionário de banco, cansei de ouvir reclamações desaforadas de clientes indignados com filas, taxas e multas. O mais aporrinhante de tudo é saber que tais queixas são completamente inócuas: por que as pessoas não deságuam sua fúria com os verdadeiros responsáveis, como o diretor de banco que aumenta o valor das taxas, o funcionário da Prefeitura que proíbe o pagamento de tributos com cheques, ou o secretário de finanças que cobra 20% de multa em cima dos IPVAs em atraso? Mas, em vez disso, escoam sua raiva estéril em cima do primeiro infeliz que estiver à sua frente; ai do funcionário azarado que ouve xingamentos e palavrões assim como, na Grécia antiga, os portadores das notícias serviam como bodes expiatórios de toda gama de desgraças.

Ah, a humanidade e suas idiossincrasias.



Fonte: Reuters Foto de Jon Mills/Associated Press

Tudo na vida é uma questão de perspectiva. Para quem testemunha o massacre no Golfo refestelado na poltrona de sua casa, comendo pop corns enquanto sintoniza a Fox News, a guerra não passa de uma ilusão de ótica tão atraente quanto um espetáculo de fogos de artifício (a imagem à esquerda mostra o ataque aéreo a um dos palácios de Saddam Hussein).

A foto à direita revela o ponto de vista das trincheiras: um soldado iraquiano que, apesar da bandeira branca que portava, foi assassinado por tropas britânicas. Não posso deixar de lembrar uma passagem de Machado de Assis em seu romance Quincas Borba: "tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão". Bush Júnior que o diga.

Em tempo: Alexandre Martins de Castro Filho, juiz da Vara de Execuções Penais de Vila Velha, ES, foi assassinado a tiros na manhã de hoje. Castro Filho foi o juiz responsável pela transferência do coronel Valter Gomes Ferreira, acusado de comandar o crime organizado no Espírito Santo, para um presídio federal no Acre. Enquanto o mundo está de olho no Iraque, não esqueçamos nossa guerra particular.



22.3.03
Acalento

Minha mãe acordando às cinco da manhã
Preparando o café para a família
Descascando as frutas
Estendendo as roupas no varal
Lavando os pratos com a água fria
Em dia de inverno
O almoço solitário
A faxina, o pó
Sempre renovado nos móveis
Carregando as pesadas sacolas do supermercado
Depois renunciando à novela
Para preparar o jantar
Mais uma de tantas
Pequenas grandes renúncias
Acordada até tarde, o coração apertado
Até que todos estejam
Seguros em casa.

Meu pai pegando o ônibus lotado das seis
Rugas no rosto, pasta na mão
Outro dia de muito serviço
E pouco reconhecimento
Mais uma vez
Recebendo o salário com atraso
Como em todo final de mês
Depois do trabalho
Indo ao curso preparatório
De mais um concurso
Chegando às onze e meia
Com fome, com sono
Mas encontrando o prato
Ainda quente na mesa.



21.3.03
Troque de biquini sem parar com a gente.

Sim, é isso mesmo que você está vendo: os virunduns agora têm blog próprio, graças às imprescindíveis ajudas de Ian Black (criador do logotipo pra lá de bacana) e André Rosa de Oliveira, vulgo Marmota. Em tempos difíceis, nada como dar umas risadas descompromissadas: visite nosso blog e, é claro, mande as suas colaborações.



Atari 2600... bons tempos.

Antigamente Missile Command era um jogo tosco que vinha de graça, na compra de um aparelho Atari. Hoje, basta ligar a TV na CNN para visualizar esse videogame ao vivo. Às vezes é duro refrear a nostalgia de um tempo no qual o meu mundo era bem menos dolorido e complicado.



18.3.03
Uma ligeira enquete, inspirada em um post do Ópio: qual foi o primeiro blog que você leu?

Minha resposta: a little bit of sweethell, da querida amiga Tatiana Leão, há quase três anos. Aliás, foi por intermédio de um blog coletivo concebido por ela, o Logopéia, que dei meus primeiros passos como blogueiro, muito antes de iniciar o Pensar Enlouquece. Este foi o primeiro post que escrevi na weblândia tupiniquim, em 19 de dezembro de 2000:

"O primeiro passo, o mais árduo e sofrido de todos. Como começar? Esta é sempre a dúvida que me inquieta. 'Entre o sim e o não, existem inúmeros talvez', sentenciou o graaaaande Cortázar. Mas permanece a questão: como começar isto daqui, como desvirginar este branco na tela e na minha cabeça?

Sempre detestei redações com tema livre: perdia pelo menos um terço do tempo pensando em algo interessante pra escrever. Pode parecer paradoxal queixar-se da liberdade total para escrever, mas é que sou um cara que precisa de limites pré-definidos para produzir melhor. Meus trabalhos de faculdade, por exemplo, são sempre feitos em cima da hora, e, o que é incrível, via de regra acabam saindo bons (ao menos as notas têm demonstrado isso). Sei lá, se eu tivesse todo o tempo do mundo pra escrever, provavelmente deixaria meus neurônios jogando papo fora na mesa de bar do meu cérebro. E como todos sabem, papos de barzinho NUNCA chegam a nenhuma conclusão. E, se chegam a algum lugar, tá todo mundo bêbado demais pra se lembrar de alguma coisa no dia seguinte.

Essa dificuldade transparece em minha vida amorosa. Como abordar uma menina por quem estou a fim, e que não conheço? Sou um cara desajeitadamente tímido, e só Deus sabe o quanto isto atrapalha minha vida. Nunca sei como abordar uma garota por quem estou a fim. Afinal de contas, o que dizer? 'Oi, você vem sempre por aqui?'. Putz, jamais teria a cara de pau suficiente pra dizer algo tão óbvio. Mas e aí, falar o quê? Qual o telefone do cachorrinho?

Pfuf, só sei que foram raríssimas as cantadas que dei na minha vida. Mesmo porque só passo uma quando sei que terei 101% de chances de dar certo. OK, nunca levei um fora. Mas vou me gabar do quê? Pois sabe-se lá quantas boas e deliciosas oportunidades já perdi na vida por conta da inaptidão e falta de cara de pau pra paquerar incautas mundo afora.

Bem, o fato é que enrolei todo mundo com esse chaveco sobre o primeiro passo. E já dei a largada nesta insensatez aqui. Next, please. ;-)
"





A ilustração acima, que acentua a impressionante semelhança (e não apenas física) entre Bush Júnior e Alfred E. Newman (o garoto-símbolo da MAD), foi publicada na edição 158 da revista Carta Capital, duas semanas após os ataques terroristas de 11 de setembro. Hoje, um ano e meio depois, a resposta já foi dada: o mundo (com poucas exceções, lideradas por Tony Bleargh) não quis ir para a guerra, mas Bush Júnior desdenhou sua companhia. Resultado: provavelmente ainda nesta semana, o Iraque será palco para a demonstração do que há de mais moderno na indústria bélica norte-americana. A crença em uma vitória rápida e esmagadora fez com que as bolsas subissem no mundo inteiro (o índice Dow Jones fechou ontem em alta de 3,59%), e frente a isso todo o restante - desmoralização da ONU, fomento do antiamericanismo mundo afora, provável aumento de ataques terroristas, crise na diplomacia internacional - foi posto em segundo plano.

Favas contadas, não posso deixar de recordar uma frase de James Joyce: "a história é um pesadelo do qual estou tentando acordar". Haja despertador, principalmente em um país no qual presos cariocas pedem pizza pelo telefone, autoridades públicas de estados como o Espírito Santo estão comprovadamente ligadas ao narcotráfico, e um juiz decente como Antonio José Machado Dias é assassinado a tiros por ordens do crime organizado.

OK, o Iraque é ali, e frente ao jingoísmo que assola a Gringoland, pouco podemos fazer a não ser protestar e rezar. Mas, e a Colômbia?



14.3.03
Todo blogueiro que possui um sistema de estatísticas em seu site não raro se surpreende com o tipo de pesquisas, humm, peculiares, através das quais os usuários de páginas de busca acabam descobrindo o seu blog. O Extreme Tracking me informa, por exemplo, que 84 internautas já vieram parar aqui procurando por fotos da Kelly Key na Playboy. Quebram a cara, é lógico. Mas há quem chegue por estas bandas fazendo pesquisas bem mais originais, dignas do finado Momento Google. Por exemplo...

- musica Beijo na boca é coisa do passado

Ué, e existe música que apregoa esse tipo de bobagem? Ainda bem que eu sou démodé. :) Anyway, essa busca serviu para que eu me lembrasse de recomendar um site que estava esquecido em meu bookmark, a galeria de fotos cinematográficos do Ciné Rivage. Eis um exemplo de foto que você encontra por lá:

Cena do filme Les scélérats, de Robert Hossein (1960).

O site é uma espécie de equivalente virtual daquela antológica seqüência final de Cinema Paradiso. Recomendo fortemente um pulo até lá, principalmente nestes tempos nos quais qualquer um beija na boca em troca de uma latinha de guaraná.

* * *

- tema internacional da novela mandala

Mandala, novela exibida em 1987 pela Rede Globo, foi uma tentativa meio chinfrim de adaptação do clássico Édipo Rei, de Sófocles, para a teledramaturgia. Ficou mais conhecida por ter sido a novela em que Édipo e Jocasta apaixonaram-se na vida real. Ou seja, os atores que interpretavam respectivamente Édipo Junqueira (Felipe Camargo) e Jocasta Silveira (Vera Fischer). Se Sófocles teria aprovado os singelos sobrenomes dados pelo autor da novela, Dias Gomes, eu não sei. Minha única certeza é de que a trilha nacional de Mandala foi muito mais marcante que a internacional. Afinal, como ignorar uma novela cujo tema de amor era o cRássico brega "O Amor e o Poder", da inolvidável Rosana?

Como uma deusa
Você me mantém
E as coisas que você me diz
Me levam além...


Melhor parar por aqui, antes que o iBest reveja minha indicação pro Top 3. :)

* * *

- tico e teco mensagens subliminares

O internauta que digitou os termos acima certamente passa suas horas livres ouvindo álbuns de Michael Jackson e Genival Lacerda ao contrário, assiste a todos os filmes da Jennifer Lopez frame por frame no DVD cavoucando mensagens de louvor a Louis Cypher, e crê que John Kennedy está vivo numa ilha secreta no Caribe, pescando sardinhas ao lado de Jim Morrison, Ulysses Guimarães e Mãe Menininha do Gantois. É duro, mas não é mole não! E o pior é que o outro resultado dessa busca foi um site que cunhou a seguinte pérola:

"Leia, pense e crie uma opinião sobre os segredos ocultos Disney e raciocine:
Será que Tico & Teco são apenas esquilos bonzinhos ou filhos do Satã?"


Por dúvida das vias, não confiem em ninguém. A Verdade está lá fora, comprando gibis do Tio Patinhas e votando pro Dhomini ganhar no Big Brother Brasil.

* * *

- sobre laika e seus devaneios

Eles simplesmente a mataram.Laika era uma cadelinha sem dono, perdida pelas ruas de Moscou. Recolhida ao acaso junto com outros nove cachorros por funcionários da agência espacial da URSS, passou por um programa de treinamento digno de um astronauta (ou cosmonauta, como preferiam dizer os soviéticos): aprendeu a comer em espaços apertados, a suportar as vibrações de uma cabine espacial e a enfrentar um ambiente de gravidade zero. Laika era a mais simpática e a mais sociável de todos os cachorros; suas qualidades acabaram decretando a sua morte. No dia 2 de novembro de 1957, foi colocada dentro da cápsula espacial Sputnik 2 para uma viagem que não teria volta (a nave não estava programada para regressar à Terra). Muito antes dos astronautas dos ônibus espaciais Challenger e Columbia, Laika foi a primeira mártir da exploração espacial.

Desconheço, sinceramente, a existência de outra Laika. Por isso, estou supondo que o incauto internauta, quando fez a busca acima, desejava encontrar o belíssimo monólogo declamado pelo garoto Ingemar no filme sueco Minha Vida de Cachorro, dirigido por Lasse Hallström em 1985. Ao visitante misterioso, e a todos os leitores deste blog, recomendo uma visita ao Dizem..., página mantida pela Rosana, que copiou na íntegra o texto do filme. Eis um trecho das reflexões de Ingemar:

"Penso no cara que tentou um recorde mundial saltando sobre ônibus numa motocicleta. Ele alinhou trinta e um ônibus. Tivesse deixado por trinta, ainda estaria vivo. Imagine, não bateu o recorde do mundo por um ônibus. O último. Bateu com a roda traseira nele. Penso naquele sujeito que atravessou o campo da praça de esportes. Um dardo atravessou o peito dele. Atravessou o peito dele. Ele deve ter ficado muito surpreso.

É estranho como não consigo deixar de pensar em Laika. Eu não devia pensar tanto! O tempo cura as feridas, como dizia a Sra. Arvidsson. Ela diz muita coisa sábia. Aconselha a gente a esquecer.

É importante comparar. Pense numa cachorra como a Laika. Eles sabiam desde o começo que ela não voltaria viva. Sabiam que ela ia morrer. Eles simplesmente a mataram
".



13.3.03
Qualquer coincidência é mera semelhança

Lei de Gérson e Lei de Murphy, as únicas que 'pegaram' neste país.O texto a seguir foi extraído do capítulo II ("Defeitos Que Custam Caro") do livro O Atroz Encanto de Ser Argentino de Marcos Aguinis (sobre o qual comento mais no post a seguir), e faz parte de um certo "Manual Sobre Como Deve Se Comportar um Autêntico Argentino", difundido anonimamente por e-mail em terras portenhas. Antes de tirar sarro dos nossos vizinhos, é bom observar, no entanto, que o dolorido sarcasmo contido nos parágrafos seguintes também se aplica perfeitamente aos brasileiros em geral. Mais especificamente, a aqueles contumazes praticantes da famosa "Lei de Gérson", imortalizada pelo comercial que o ex-jogador de futebol fez para os cigarros Vila Rica, e que apregoa a máxima de que "é preciso levar vantagem em tudo, certo?".

AO VOLANTE

- Aborreça sistematicamente quem está atrás; fique piscando o farol e ao mesmo tempo dando grandes buzinadas para quem está à frente. Você é superveloz e ninguém pode superá-lo.
- O uso indiscriminado da buzina é capaz de desfazer qualquer congestionamento às seis da tarde.
- O pedestre não tem direito a nada, mas atravessa onde bem entender. Se você está com o seu seguro em dia, atropele-o; isso o ensinará a respeitá-lo.
- As faixas brancas na esquina são para decorar o asfalto. Não se sabe quem foi o irresponsável que disse para os pedestres que eles devem atravessar lá.
- Ligando o pisca-pisca, você fica autorizado a fazer qualquer coisa que lhe ocorrer. Não ligando, idem.
- As ambulâncias, os bombeiros e os policiais podem esperar. Ninguém no mundo tem tanta necessidade de chegar ao destino quanto você.

NO BANHEIRO PÚBLICO

- Não pressione o botão da descarga, para que seus dedos não se sujem ou tenham cãibras.
- Use tooooodo o papel que quiser; quem vier depois de você não precisará dele.
- Jogue tooooodo esse papel no sanitário. A física moderna demonstrou que ele se desintegra na água.
- Não se esqueça de levar uma caneta para escrever nas portas e paredes a primeira estupidez que lhe passar pela cabeça. Alguém mais idiota achará graça nela e, provavelmente, fará uma emenda à sua versão.

VIDA COTIDIANA

- Se chove e você tem um guarda-chuva, ande sob os tetos e varandas. Você não vai querer molhar... o seu guarda-chuva.
- Se numa loja você não encontra o presente que procura, não se impaciente: faça com que o vendedor lhe mostre todos os presentes da loja; assim ele se mantém ágil e desperto no trabalho.
- Se você está num telefone público e o número para o qual ligou está ocupado, insista de novo uma, duas, três vezes. Quem está esperando na fila não tem nada para fazer.

LAR, DOCE LAR

- Se você mora no último andar, não se esqueça, antes de tomar o elevador, de chamar todos os outros elevadores; assim, quem está embaixo e quer subir terá tempo, enquanto espera, de refletir sobre o que fez durante o dia.
- Se, ao contrário, você mora no primeiro andar, chame igualmente todos os elevadores, o que permitirá a seu vizinho do andar superior ter tempo extra para planejar as atividades do dia.
- Ponha fora o lixo quando quiser. Você paga tantos impostos que tem o direito de esperar que haja funcionários municipais prontos para recolher seu lixo a qualquer hora.
- Dizer "bom dia", "com licença", "desculpe" e "obrigado" já saiu de moda.
- As janelas foram inventadas para que a casa fique limpa, sem o inconveniente de acumular lixo em lixeiras malcheirosas. Além disso, é muito, extremamente encantador atirar objetos contundentes pela janela ou varanda.

NO ESCRITÓRIO

- Tudo é de propriedade pública, até mesmo as coisas de quem trabalha no local. Você se esqueceu de comprar cigarros? Tudo bem: sempre há outro fumante amável para quem não custa nada sustentar o seu vício durante algumas horas.
- Se você fuma, feche as janelas; assim as outras pessoas compartilham a fumaça de suas generosas baforadas.
- Comentários do tipo "Como você está mal", "Cai mal em você" ou "Como você é idiota" ajudam a fortalecer a auto-estima dos seus subalternos.
- É bom e saudável observar para uma colega que ela engordou.
- O mesmo vale para o colega que está ficando careca.
- Fale aos gritos, assim você será ouvido e respeitado, e pode ser que alguém lhe responda.
- O encarregado da limpeza tem mentalidade de servente. Suje ao máximo, para que ele sinta prazer ao limpar o escritório e deixá-lo brilhante.



Habla sério, hermano!

Um singelo folião flagrado pela seção de fotos do excelente site Agenda do Samba & Choro.Dizem que Brasil e Argentina são países irmãos. Mas, a julgar pelo histórico de rivalidade entre ambos, essa fraternidade se assemelha à vivida por Caim e Abel. Em terras portenhas, somos chamados de "macaquitos", enquanto por estas plagas muitos de nós não escondem uma certa satisfação sádica ao constatar a lamentável situação econômica da terra de Perón e Maradona. Como toda rivalidade que se preze, não freqüentemente o bom senso é jogado para escanteio.

Na época das eliminatórias da Copa de 2002, quando a seleção brasileira foi derrotada pela argentina, publiquei no Spam Zine 032 uma compilação que Mario AV fez de declarações feitas por freqüentadores do fórum de leitores do jornal esportivo Olé. Conforme palavras de Mario AV, "a discussão deixou rapidamente de ser sobre qual país tem mais títulos ou se o melhor jogador foi Pelé ou Maradona, para degenerar numa guerra total entre os torcedores de ambos os lados". É divertido, mas ao mesmo tempo estarrecedor, ver como uma mera discussão futebolística rapidamente descambou para uma troca desmedida de insultos, impropérios e afrontas que pouco têm a ver com méritos esportivos. Eis alguns exemplos desse tiroteio verbal:

- Vocês, argentinos, não passam de uns falidos, com um complexo de inferioridade tão enorme que qualquer vitória esportiva vira motivo de glória nacional.
- Vocês, brasileiros, vivem das glórias do passado, de um tempo em que o Brasil ainda sabia jogar futebol e não era motivo de piadas como hoje. Vão chorar na igreja, vão chorar no túmulo do Senna, vão aprender a gostar de tênis - oh, não, Guga perdeu também.


- Os argentinos ficam nos jogando na cara que somos africanos, enquanto perpetuam a lenda de que são europeus. Mas, baseado no fato de que os negros no Brasil são minoria, posso pelo mesmo raciocínio chamar a todos os argentinos de índios, que lá também são minoria.
- Somos em geral de raça branca. Já os brasileiros são da "raça samba" - um pouco de negro, um pouco de índio, um pouco de macaco da selva e um pouco de porco português subdesenvolvido.


- Espero muito que apareça uma guerra para podermos humilhá-los, invadi-los, chutá-los daí (pois faremos dessa sua terra um grande estacionamento para carros) e prendê-los em nossa floresta para tratá-los como escravos! Assim, espero de uma vez por todas acabar com vocês, igual ao que fizemos com o Paraguai.
- Eu aceito seu desafio, e a nossa inferioridade em número não é problema, já que temos muito mais culhão. Mas vamos ter que ir à guerra com algum tipo de proteção, para não sermos contaminados pelo sangue infecto de gays aidéticos.


Não se pode levar a sério esse tipo de discussão juvenil, a não ser como alerta para um cenário fomentado por anos de provocações tolas entre habitantes de duas nações unidas na geografia e no subdesenvolvimento. Os destinos de Brasil e Argentina são indissociavelmente ligados, e seus povos são mais semelhantes do que se permitem admitir. Ambos compartilham a aversão a políticos e instituições, a capacidade de rir de si próprios (e, principalmente, das dificuldades econômicas) e a perplexidade por saberem viver em uma nação que tem tudo para dar certo, mas...

COMPRE este livro.Compreender a Argentina também é uma maneira de entender melhor nossa barafunda brasileira. É por isso que recomendo fortemente a leitura de O Atroz Encanto de Ser Argentino, de Marcos Aguinis. O livro é um ensaio que busca responder a algumas questões lançadas pelo autor, que escreve: "Como se chegou a esse ponto? Como pôde se tornar terrível um país cheio de riquezas, distante dos grandes conflitos mundiais, onde não há terremotos nem ciclones? Por que é terrível um país cuja população não se vê às voltas com conflitos raciais estruturais, não passou por grandes fomes nem por guerras devastadoras? Por que é terrível um país habitado por um povo cujo nível cultural e cujas reservas morais - apesar de tudo - continuam sendo vastos?". Alguma dúvida sobre a relevância destas perguntas também para a Terra Brasilis?

Da história do tango à formação do caráter nacional argentino, passando pelo fenômeno do peronismo, a difusão dos anglicismos na língua espanhola e a educação no país, Aquinis escreveu uma dolorida e fascinante tentativa de interpretação do encanto atroz de sua gente e sua nação. Quem assistiu recentemente a filmes da qualidade de Nove Rainhas e O Filho da Noiva, aprecia a música de talentos tão diversos como Astor Piazzolla e Soda Stereo, ou já se deleitou com as obras de Júlio Cortázar, Jorge Luis Borges e Tomás Eloy Martínez necessita ler este livro, que ao puxar o fio da meada do paradoxo argentino (um país tão rico, e tão depauperado) espelha uma realidade perigosamente tangencial ao Brasil (alguém ainda se lembra do "Efeito Orloff", inspirado no comercial que dizia "eu sou você amanhã?"). Para encerrar este texto, tomo emprestadas as mesmas palavras finais do ensaio de Marcos Aguinis:

- Resista, Argentina, apesar de tudo!



Clique aqui e vote em Pensar Enlouquece para faturar o Prêmio iBest Blog!

Pensar Enlouquece é um dos 3 finalistas da categoria iBest Blog. Confesso: não esperava por essa. Sem querer desmerecer os outros finalistas, já estava me preparando para apoiar o InterNey.Net (o Edney, generosamente, agora vota em Pensar Enlouquece nesta nova etapa). E, para falar a verdade, eu apostava minhas fichas numa suposta seleção da Academia iBest. Mas enfim, critérios são sempre subjetivos, e o fato agora é que continuo no páreo para vencer o iBest Blog na categoria "Júri Popular". Agradeço, de coração, a todos que me ajudaram a chegar nesta nova etapa, superando concorrentes da mais alta qualidade e que leio diariamente, como o Amarar e o Epinion. Dizer que estou honrado é pouco.

Mas enfim, agora começa tudo de novo: nova etapa, nova votação. Se você já votou em mim, precisará repetir a sua escolha. Mas, se ainda não votou, o que está esperando? :)

Depois, se você quiser me dar uma forcinha extra, pode colocar este banner supimpa em seu site ou blog (aqueles que já publicaram o selo abaixo precisam atualizar o link para a votação):

Vote aqui e torne o Inagaki mais feliz!

Nunca é demais avisar: todos os participantes da votação concorrem ao sorteio de um Citroën Xsara Picasso 0 Km. Mais uma vez, meu muito obrigado a todos que me lêem.



11.3.03
Entre Neomacarthistas e Patriotas Acéfalos

Ilustração de Art Spiegelman, que retrata a si mesmo desenhando um dos personagens de Maus.Art Spiegelman é um dos maiores artistas gráficos de nosso tempo. Filho de um casal de judeus que sobreviveu ao genocídio nazista, Spiegelman inspirou-se na história de seus pais para conceber a graphic novel Maus, na qual ratos representam os judeus, e gatos, os alemães. Maus, que foi publicado no Brasil pela editora Brasiliense, é um marco na história dos quadrinhos, e um dos retratos mais contundentes e densos que já li, vi ou ouvi a respeito do Holocausto. Em reconhecimento à sua obra-prima, Art recebeu o prêmio Pulitzer em 1992.

Spiegelman também editou, ao lado da esposa Françoise Mouly, a revista de vanguarda Raw, que revelou alguns dos melhores quadrinistas da atualidade, como Daniel Clowes e Charles Burns, e desde 1992 colaborava com desenhos e capas memoráveis para a revista The New Yorker. É de Spiegelman, por exemplo, a concepção da histórica capa seguinte aos atentados de 11 de setembro de 2001 (toda preta, trazendo a silhueta das torres gêmeas em um tom ligeiramente mais escuro, quase imperceptível).

É por essas e outras que não posso deixar de chamar a atenção, mesmo que com um certo atraso, para esta notícia: Spiegelman deixa The New Yorker por causa de Bush. Segundo o autor de Maus, a imprensa americana está sendo excessivamente complacente com o governo autoritário de Bush. Vale a pena transcrever o desabafo de Spiegelman:

"Ela (a mídia norte-americana) encontra-se nas mãos de um limitado grupo de milionários cujos interesses não coincidem com os do cidadão médio deste país no qual o abismo entre ricos e pobres parece cada vez mais intransponível. Nesse contexto, qualquer crítica ao governo é automaticamente rotulada de antipatriótica e antiamericana. Nossa mídia ignora notícias que no resto do mundo recebem ampla cobertura. Se não fosse a internet, até minha visão do mundo seria hoje extremamente limitada."

Danilo Amarar, advogado residente em Nova York, publicou em seu blog um texto que descreve exatamente esse estado de coisas: "Enquanto pessoas debatem, contestam, duvidam, questionam-se, interrogam-se, reticentemente, sobre se vale ou não a pena ir a essa guerra, essa corja que é a administração Bush não descansa em seu rolo compressor. Ameaça atores, jornalistas, sugere represálias por meio de eufemismos, manda recados, sonega informações, distorce dados, aumenta fatos, fabrica números e, às vezes, como um réquiem operístico, esqueçe qualquer nesga de formalidade e mete gente na cadeia mesmo, aqueles sem voz ativa e passaporte vencido".

Graças aos sofismas propagados por Bush Júnior, Colin Powell e outros asseclas, celebridades norte-americanas que expressaram publicamente seu repúdio à guerra estão recebendo uma crescente onda de insultos. Vale a pena lembrar que em 1950, o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso, dirigido pelo senador Joseph McCarthy, promoveu uma verdadeira caça às bruxas em Hollywood, criando uma lista negra de pessoas impedidas de trabalhar na indústria do entretenimento devido a seus pontos de vista, considerados "de esquerda" ou "pouco patrióticos". Integraram essa lista talentos do porte de Dalton Trumbo (roteirista de filmes como Spartacus, Papillon e Johnny Foi à Guerra, que foi obrigado a assinar trabalhos com pseudônimos), Dashiell Hammett (autor de clássicos da literatura policial como O Falcão Maltês, que chegou a ir para a cadeia) e Charles Chaplin (o criador de Carlitos não suportou as pressões e acabou emigrando para a Europa).

Alastram-se por rádios e sites norte-americanos pedidos de boicote a álbuns, programas e filmes de artistas como Sean Penn, Sheryl Crow e Martin Sheen, que se manifestaram publicamente contra a guerra ao Iraque (confira uma dessas supostas listas de "traidores" aqui). Um dos abaixo-assinados espalhados por esses pseudopatriotas afirma: "Não assistirei a seus filmes. Não apoiarei seus programas de televisão. Não comprarei sua música. Minha família e eu vamos boicotar qualquer pessoa de Hollywood até que ela decida que seu trabalho tem valor unicamente de entretenimento".

Uma das primeiras vítimas de uma guerra é o bom senso. E você percebe claramente qual é o nível dos defensores dessa falácia quando lê uma notícia como esta: Guerra pode mudar nome das batatas fritas nos EUA. Há um político na Flórida que, indignado com a resistência da França em aprovar no Conselho de Segurança da ONU a invasão do Iraque, quer renomear as "french fries" (literalmente, "batatas francesas", expressão pelas quais são conhecidas nos Estados Unidos as batatas fritas) para "freedom fries" (batatas da liberdade) ou "american fries".

Parece piada, mas é verdade. E, a julgar pelo andar da carruagem bélica capitaneada por Bush Júnior, não teremos muitos motivos para rir daqui para a frente.

UPDATE: A Anna informou nos comentários deste post, e é verdade: as "french fries" viraram "freedom fries". Confiram as notícias aqui, aqui e aqui. Será que os imbecis responsáveis por tamanho disparate não sabem, por exemplo, que a Estátua da Liberdade foi um presente que o povo francês ofereceu aos Estados Unidos? Tem cada uma que parece duas...



10.3.03
Scubidu dos Sete Mares

Pois bem cheguei/ Quero ficar bem à vontade/ Na verdade eu sou assim/ SCUBIDU dos sete mares,/ Navegar eu quero...

Quando publiquei meu texto sobre virunduns no Spam Zine (o e-zine que talha, mas não farda), a repercussão foi tão grande que tivemos que publicar durante várias semanas os exemplos mandados pelos leitores. Pois bem, a julgar pela quantidade de comentários ao meu post revisitando o mesmo assunto, acredito que valha a pena criar um blog especificamente dedicado a virunduns, nos mesmos moldes do belo Quando Eu Era Criança Eu Acreditava..., que a Cássia criou inspirada por um post meu. Alguém se interessa em tocar essa página? Escreva pra mim.

Enquanto isso, vale a pena publicar algumas das melhores recriações musicais que recebi. Porque errar é humano, e rir dos erros alheios, mais humano ainda.

* * *

Camila Saccomori:
O virundum que eu mais gosto é um cometido pela minha vó até hoje - já expliquei 500 mil vezes o termo correto pra minha querida anciã, mas não rola. Ela curte mais a versão esquisita - e original, diga-se de passagem, por ela inventada e ouvida. É uma música do Roberto Carlos e diz assim: "Nos lençóis macios, amantes se dão..."

Pois não é que a velha criou a palavra MANTISIDÃO para a segunda frase, como se a mantisidão fosse uma coisa profunda, grande, imensa, que acontece nos lençóis macios? Pensando bem, se a palavra existisse, essa seria a tradução mais legal.


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Nilda Viana:
Eu não me recordo de ter cometido nenhum "virundum", mas sei de alguém que o fez com maestria. É o famoso e não menos capaz Noel Rosa, que parodiava o Hino Nacional assim: "Elvira cor de manga, amarga e flácida". ;-))

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Marlos:
A primeira vez que ouvi "Como Nossos Pais" eu entendi também "fio dental". E mais: em vez de "é você que ama o passado e que não vê", entendi "é você QUE É MAL PASSADO e que não vê". Aliás, muita gente canta assim até hoje. Conheço montes. Outros:

"Homem QUE MATA, capitalismo selvagem".
"COMIDA é água, BEBIDA é pasto."
"A arte de viver da fé, só não se sabe O QUE É VIVER"...
"Quando a maré encher... tomar banho de CANA quando a maré encher". O certo é CANAL.
"Berimbau down down... bereruba berimbau" em vez de "Beat it laun, daun daun, beat it, loom, dap'n daun" do Skank (Garota Nacional)


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Renata Parpolov:
- minha versão pra alagados era "alagados, FREISTAL, favela DO AVARÉ(??)". ainda bem que ninguém nunca pegou, seria terrível pra mim. :)
- rita lee, nem luxo nem lixo: "não acredito em nada não, até duvido da fé"... e eu cantava "até NO OUVIDO da fé".
- queen, i want to break free: "i want UM REFRI!".
- caetano veloso, tropicália: "viva a banda da da, carmem miranda da da..." e eu "DAVI MIRANDA DA DA DA".
- paralamas, trac trac, tinha um refrão incompreensível. eu cantava assim "TALENTO AMOR, SOLTO AMOR" e alguém me disse esses dias que era "dá me tu amor, soy tu amor". seria isso mesmo, alguém confirma?
- meu primo, na escola, deveria escrever o hino nacional num papel e entregar para a professora como dever de casa. no papel, estava escrito: "dos filhos deste SOLESMÃE gentil, pátria amada, Brasil".


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Anna Paula Maron:
Nooossa, sou mestra na arte da velhinha da Praça é Nossa.
"Eduardo e Mônica" era: '....carinha do fucinho do Eduardo que disse....'.
Na versão pesada que o Pato Fu fez pra "Sítio do Pica-Pau Amarelo" tem um momento em que o vocalista começa a gritar o nome dos personagens e logo depois do Pedrinho vem: "Hardcore!" (na realidade ele diz "Rabicó!"), mas como é uma versão pesada...


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Miss R:
Da música do Paralamas:
"Alagados, CRISTAL, favela da maré..."

E essa de um amiguinho de infância, música do Ultraje a Rigor:
"Pelado, pelado, NO CANAL DO BOZO", em vez de "nu com a mão no bolso".


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Fabiana Jaspion:
Quando eu era criança, ouvia Beatles e na música "I Wanna Hold Your Hand", em cuja letra consta "And when I touch you I feel happy INSIDE", eu entendia "and uén ai tãchiu ai fiu répi in SAARA". E olha que eu prestava atenção pra descobrir o que eles falavam, mas eu não tinha a menor noção de inglês na época. Achava que a música contava algo que se passava no deserto do Saara. Hahaha! Não posso deixar de citar mais duas pérolas do mesmo naipe! Quando o Elton John canta 'Sacrifice', ele diz "COCORRAL" em vez de "Cold, cold heart", tá me entendendo? Assim como Elvis Presley diz "Tchumágui" em "Are you lonesome TONIGHT". Básico...

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Ricardo Schott:
+ não sei se merece ser citado, mas quando o Padre Marcelo aparecia na tv, meu primo Cofrinho, com quatro anos (o apelido vem do dia em que ele engoliu uma moeda) ficava cantando aquela musiquinha dele assim: "o senhor tem muitos filhos/muitos filhos ele tem/Eu dou um Deus, você também" (seria "eu sou um deles").

+ durante muito tempo pensei que "Pobre Paulista" do Ira! se cantasse "todos os males se agitam quando a adolescência acaba" e "dentro de um ensaio monstro não é o primeiro mau" (graças à minha cópia do "Vivendo e Não Aprendendo" que veio sem encarte).

+ um colega de escola chegou a batizar uma banda que ele teve de Jetom Belo, por causa daquele verso do 'Sítio do Pica-Pau Amarelo' que diz "o sol nasce e o dia é tão belo", que soa como "jetom belo" (ou algo assim).

e isso me leva a concluir: em vez de estudar música (pelo menos no caso dos que estudaram), não era melhor esses caras pagarem umas sessões de fonoaudiologia, não?


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Carla Regina Zuquetto:
Me lembrei de um virundum que já virou versão oficial. Em todo caso, quando eu descobri isso eu fiquei surpresa! É do poeminha da batatinha: "Batatinha quando nasce ESPALHA RAMA pelo chão", não "se esparrama". Alguém consegue imaginar uma batata recém-nascida se esparramando pelo chão??



Internet é uma desgraça maravilhosa ou uma maravilha desgracenta, como quiserem. Quanto mais fuço a Web, mais motivos para jogar meu tempo fora encontro. Por exemplo, quem imaginaria que já é possível jogar War online?

Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais!

Alguém deveria enviar o link deste site para Bush Júnior, que certamente faria maior proveito de sua condição de presidente da Gringoland tentando conquistar as nações de Vladivostok, Dudinka, Labrador, Omks e outros países só existentes na geografia imaginária deste jogo de tabuleiro criado pela Grow.

Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era nessa risonha manhã!

Outro excelente serial killer de tempo livre é o site da Coquetel, subdivisão da editora Ediouro responsável por aquelas antológicas revistas de palavras cruzadas. Meu vício pelas revistas Coquetel começou desde a 1a. série do primário, quando minha mãe comprou algumas edições da Picolé Legal, e foi se agravando com o decorrer dos anos. Mal consigo imaginar quanto tempo da minha vida passei resolvendo passatempos como Dominox, Criptograma, Caça-Palavras, Silabox, Torto e A César o Que é de César. De tanto fazer palavras cruzadas, aprendi que o âmago da alma é "imo", e que a peça do Millôr Fernandes cujo título tem uma letra apenas se chama "É".

A propósito, encontrei no site da Coquetel uma ótima frase de Charles Chaplin sobre esse vício: "Uma palavra cruzada alinha sempre meus pensamentos antes de dormir."

Que aurora, que sol, que vida, que noites de melodia naquela doce alegria, naquele ingênuo folgar!

Last, but not least, cá está mais um bom motivo para você aposentar suas disputas de paciência e campo minado: a versão online do Super Trunfo, uma dos meus passatempos prediletos nos intervalos para o recreio.

Bem, depois dessas, só me resta aguardar ansioso pelas versões para a Web de outros brinquedos e jogos que marcaram a minha infância, tais como Aquaplay, bafo, Banco Imobiliário, Merlin e stop...



5.3.03
Reminiscências carnavalescas

De minhas origens nipônicas, retive pouquíssimas coisas (com certeza a paciência oriental não está entre elas): os olhos puxados, um certo jeito desajeitado de exprimir meus sentimentos, e o fuso horário japonês. Explico melhor este último item: sempre tive dificuldades em dormir cedo, e acredito que rendo muito mais de madrugada. Não à toa, é o horário em que costumo escrever meus textos. Devido a circunstâncias profissionais, me habituei a acordar cedo. Mas nem por isso deixo de varar noites: em média, durmo cinco horas por dia. Dizem que o déficit de horas de sono mata neurônios. Se isso for verdade, estou promovendo chacinas diárias em meu cérebro. Mas tergiverso, tergiverso.

Esta imagem levemente descontextualizada foi inserida com o único intuito de deixar este blog mais bonito.Todo esse preâmbulo serviu para confessar que gosto de assistir às transmissões carnavalescas (apesar das horrendas vinhetas do Hans Donner). O que tem uma coisa a ver com a outra? Calma que eu explico. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que assisti a um desfile carnavalesco: eu tinha oito anos de idade, e atravessei a madrugada em frente à TV junto com minha mãe, admiradora entusiasmada das fantasias e carros alegóricos apresentadas pelas escolas de samba. Fora as noites de Natal e Ano Novo, foi a primeira vez em que pude ficar acordado a noite inteira sem precisar ligar a TV escondido ou temer uma bronca de meus pais. Não preciso dizer que adorei a experiência.

Esse desfile, de 1982, também ficou marcado por causa da apresentação do Império Serrano, uma das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, que naquele ano apresentou um samba-errado com o peculiar título "Bumbum Praticumbum Prugurundum". Passei o desfile inteiro tentando cantar tal refrão sem errar; até hoje guardo essa expressão na cabeça.

Desde então acompanho, religiosamente, as apresentações das agremiações cariocas. Não chego a ver todas as escolas de samba porque chega uma hora em que as pálpebras sucumbem aos desígnios de Morpheus. Nesses casos, quando perco uma apresentação, procuro assistir ao compacto do dia seguinte. E admiro, com os olhos boquiabertos, a imaginação de carnavalescos como Joãosinho Trinta, Renato Lage, Max Lopes e Rosa Magalhães, que ano após ano se esmeram na criação de enredos, alegorias, fantasias e carros alegóricos repletos de soluções da mais alta criatividade.

É bóbvio que outro forte motivo para eu acompanhar as escolas de samba são as musas de todo carnaval, que desde pequeno fomentam a atividade de meus hormônios. Vanusa Spindler, Magda Cotrofe, Luma de Oliveira, Cláudia Raia, Isadora Ribeiro, Josi Campos, Monique Evans, Vanessa de Oliveira e inúmeras musas anônimas, que eram flagradas pelas câmeras das TV Bandeirantes e Manchete em suas coberturas dos bailes do Scala, Ilha Porschat Clube, Baile do Vermelho e Preto e outros mais zoneados.

Ano passado assisti, pela primeira vez, a um desfile ao vivo, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo. Mas, por mais que o carnaval paulista tenha evoluído, não dá para negar que as escolas de samba do Rio estão a anos-luz das paulistanas. Outro dia, aliás, li no blowg uma frase ótima que descreve bem a situação: "ver carnaval de Sampa é como transar de camisinha". Sim, ainda verei in loco os desfiles da Marques de Sapucaí (e levarei minha mãe a tiracolo). Enquanto esse dia não chega, me limito a admirar a Luana Piovani na telinha...



Tenha dó

< momento rabugice >

Perdoem-me o desabafo a seguir, mas é que às vezes não vale a pena manter a compostura. Pois e não é que apareceu por aqui um tal de Dagmar, que invadiu este blog propagandeando uma certa "Campanha Contra os Comentários Bobos que Não Acrescentam Nada", ironicamente escrevendo um comment completamente inútil, descabido e desaforado?

Na buena: sou tolerante até demais com aqueles spam-comments padronizados, do tipo "seu blog é muito loko, que tal linkar o meu tb?". Mas quando Fulano invade o meu blog e se acha no direito de ficar cagando regras para os outros visitantes, aí já é abuso. Esse tal de Dagmar pertence à mesma estirpe daqueles "amigos" folgados que entram na casa dos outros, sentam no sofá, põem o pé em cima da mesa e ainda reclamam da comida servida. Sinceramente? Dagmar, go catch little coconuts.

< /momento rabugice >



2.3.03
Frases da semana

"Nos últimos anos tem sido assim mesmo, todos os grandes homens de negócios do Rio de Janeiro têm se transferido para São Paulo..."
(ALTO EXECUTIVO CARIOCA, comentando ironicamente a transferência de Fernandinho Beira-Mar para o presídio de Presidente Bernardes, no interior de São Paulo.)

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"A água já está batendo na nossa bunda. A gente não pára de perder e não consegue reagir. Não sei mais o que fazer."
(ÉDER, meio-campista da Portuguesa de Desportos, time de futebol rebaixado no Brasileirão, e que caminha a passos largos para ser rebaixado também no Campeonato Paulista.)

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"Meu sonho de consumo é posar nua".
(LACRAIA, dançarino de funk notabilizado por sua singela coreografia na canção (sic) "Egüinha Pocotó", e descrito por seu partner Serginho como uma "quase mulher".)

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"Aqui se come tudo o que voa, menos os aviões, e tudo que tem quatro pernas, menos as cadeiras".
(VELHO DITADO citado pelos habitantes da província chinesa de Guangdong, que possuem o peculiar hábito de consumirem carne de... gatos. Nenhuma novidade, contudo, para aqueles que costumam comer churrasquinho em porta de estádio.)

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"A gente até fica na expectativa de abrir a porta do quarto do hotel e ter uma mulher pelada".
(TICO, vocalista da banda Detonautas Roque Clube, que emplacou o hit "Outro Lugar", mas ainda não desfrutou, ao menos por enquanto, de todas as benesses do sucesso.)

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"Ô, chulezinho lindo!"
(DHOMINI, que soltou esta declaração romanticamente sinestésica ao cheirar as meias de Sabrina, seu par romântico no Big Brother 3).

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"A punição por longos períodos em solitárias têm muitos críticos porque vários presos enlouquecem, mas no Rio os presos parece que já chegam loucos na penitenciária e estão enlouquecendo a população".
(LUCAS MENDES, que em sua coluna mais recente na BBC Brasil descreve como funciona o regime de solitária permanente nas prisões norte-americanas, aplicado em 16% dos presos, concluindo o artigo com uma sutil sugestão para a adoção do mesmo sistema em nossa Terra Brasilis.)