28.11.02 Certas coisas obrigam a gente a parar tudo o que está fazendo para pensar um pouco na vida. Um exemplo? A edição online do livro "A Árvore Generosa", escrito por Shel Silverstein e adaptado por Fernando Sabino, na qual esbarrei graças a uma dica preciosa da Cacau, do blog c'est la vie. Poucas vezes encontrei uma descrição tão doída, e sincera, e singela, a respeito da natureza do Amor (tão generoso, tão egoísta).
Da literatura, transito para outro motivo fundamental para nossa existência: música. Neste agonizante 2002, dois foram os álbuns que deixaram meus tímpanos boquiabertos até agora. O primeiro é "Sea Change", nono álbum gravado pelo enfant terrible do pop-rock estaduninense, Mr. Beck Hansen. Auxiliado pelo produtor Nigel Godrich (o mesmo de "OK Computer", do Radiohead), Beck emula em "Sea Change" o espírito de compositores como Hank Williams, Neil Young e Jeff Buckley, ao cunhar um álbum repleto de canções rasgantes sobre o mesmo eterno tema da música pop: desilusões amorosas. Quem conhece Beck por sucessos como "Loser" e "Devil's Haircut" vai se surpreender ao conhecer sua veia lírica em pequenas jóias como "Lonesome Tears" (que recorda os melhores momentos do duo francês Air), "Round the Bend" (seu arranjo de cordas me remeteu a "Way to Blue", de Nick Drake) e "Guess I'm Doing Fine".
O segundo predileto da casa é "Hate", dos Delgados, grupo escocês surgido em 1994. Os Delgados são, simplesmente, a banda que o Belle and Sebastian gostaria de ser quando crescer. Seus arranjos ricos em detalhes, que amalgamam influências eletrônicas com arranjos de cordas, assim como os duetos inebriantes entre as vozes de Emma Pollock e Alun Woodward, fazem de "Hate" intacto deleite para os ouvidos (aliás, não apenas este: todos os álbuns anteriores do grupo são imperdíveis). Vasculhe a Web em busca de faixas como "The Light Before the Land" e "Coming In From The Cold", e depois ouse duvidar do que digo: The Delgados é uma das cinco melhores bandas da atualidade (Mercury Rev e Massive Attack estão nesse meu Top 5).
(Em tempo: lamento profundamente o fim do Scream & Yell, e-zine capitaneado pelo grande Marcelo Costa. Ano passado participei da votação dos melhores de 2001, e tive o prazer de elencar álbuns como "All is Dream", do Mercury Rev, "Acústico MTV", do Roberto Carlos, e "Reveal", do R.E.M., como os destaques musicais do ano.)
Outro dia o Repórter Mosca qualificou de "abominável" o uso freqüente da expressão "encarando o problema de frente", questionando se é possível enfrentar alguma situação de costas. Bem, cumpadi Fausto, que dá, dá. Depende apenas da conotação desse verbo "dar"... :P
Mas existem outras expressões da língua portuguesa que me deixam mais estupefato ainda. Por exemplo: "correr atrás do prejuízo". Cáspite, a gente não deveria correr atrás dos lucros? Outra: "convivem juntos". Um exemplo contumaz de redundância redundante, ao lado de outras expressões tão ao gosto dos jornalistas de plantão, como "repetir o mesmo time", "monopólio exclusivo", "viúva do finado marido", "há alguns dias atrás"...
Contudo, sejamos justos: letristas também incorrem no mesmo crime. Vide o compositor daquela antológica versão perpetrada pelos irmãos Sandyjúnior: "o que é imortal/ não morre no final".
27.11.02 O mundo é repleto de mistérios. Não posso compreender, por exemplo, por que cargas d'água há pessoas que acreditam que uma colher enfiada no gargalo de uma garrafa impede o gás do refrigerante de escapar. Imagino que sejam os mesmos incautos que passam correntes do tipo "envie este e-mail a vinte trouxas, caso contrário sua ex-namorada irá ao Programa do Ratinho pedir exame de DNA, você descobrirá que a seqüestradora do Pedrinho é a sua verdadeira mãe biológica e um bando de ativistas do PETA invadirá sua casa protestando contra seus chinelinhos do Garfield". Nietzsche já dizia que o homem prefere acreditar no nada a acreditar em nada, mas assim também é demais.
Àqueles que se vêem tão perplexos quanto eu com as crendices alheias, uma dica de site: escrevam para o Projeto Burrice Artificial, "ambiciosa" pesquisa científica cuja meta é o desenvolvimento de um software capaz de esclarecer enigmas que permanecem desafiando o conhecimento humano. Por exemplo, para tentar descobrir por que as pessoas apertam várias vezes o botão do elevador pra ver se ele vem mais rápido, ou por que elas baixam o volume do rádio do carro quando procuram por um endereço na rua em que trafegam.
26.11.02 Quando eu era um garoto ingênuo (hoje em dia sou apenas um pré-balzaquiano ingênuo) e pensava em seguir carreira musical, eu compunha músicas com títulos como "Xipófagos de Amor". Puro romantismo. Era uma época em que ouvia, em minhas madrugadas insones, um programa de rádio apresentado por um certo Paulinho Boca, o locutor mais canastrão de todos os tempos. Jamais esqueci de uma frase proferida em meio a sucessos de Billy Joel, Bonnie Tyler e Phil Collins:
- Sou apenas um satélite circulando em torno do planeta chamado Amor...
Qual seria a sua reação se você recebesse uma cantada dessas?
Já escrevi sobre este site no editorial do Spam Zine 070, mas a página é tão sensacional que não resisti a voltar ao assunto. O Frank's Vinyl Museum é um sítio dedicado aos discos mais bizarros de todos os tempos. Só vendo (e ouvindo) para crer. A seguir, alguns exemplares do museu.
Quando Lennon & McCartney compuseram os sucessos dos Beatles, jamais poderiam imaginar que suas canções merecessem regravações tão bizarras. Clique nas capas de disco acima e confira com seus próprios ouvidos as covers de "A Hard Day's Night", interpretada pela simpática senhora Elva Miller (de Claremont, California), e "I Want to Hold Your Hand", na regravação em forma de ópera (!!!!) da "madame" Cathy Berberian.
A primeira capa já diz tudo. Trata-se da trilha sonora dos Banana Splits, seriado pra lá de trash produzido pelos estúdios Hanna & Barbera no final dos 60s. Atire a primeira pedra (ou o primeiro mouse) quem nunca cantarolou "The Tra-La-La Song"... À direita, outro exemplar pra lá de bizarro: a Pantera Cor-de-Rosa cantando baladas country. Prova contumaz de que a Pantera, assim como Tom, Jerry e outros personagens clássicos dos cartoons, jamais deveria ter aberto a boca.
Telly Savalas, notabilizado pelo papel-título do seriado Kojak (e hoje em dia mais conhecido por ter sido o padrinho de Jennifer Aniston, a Rachel do sitcom Friends), quem diria, também cantava. Ou melhor, tentava. Por outro lado, William Shatner, o intérprete pra lá de canastrão do Capitão Kirk no seriado Jornada nas Estrelas, não disfarça sua inaptidão vocal no álbum que gravou. Preferiu investir em seus dotes "dramáticos" e recita textos da literatura universal em seu disco. Ouça esta pérola, e tente não cair na gargalhada.
Acredite se puder: o disco à esquerda, de Herb Alpert, é um dos mais vendidos em toda a história dos álbuns de rotação 33 1/3, ao lado de "Sgt. Pepper" dos Beatles. Os méritos vão, em grande parte, para a capa com a mocinha incauta toda lambuzada de chantily. É claro que uma imagem antológica não tardaria a ser satirizada, como atesta a bizarra versão à direita protagonizada pelo humorista Pat Cooper.
Para encerrar com chave de ouro (?), duas sensacionais compilações de covers à base de Moogs, sintetizadores muito em voga nos anos 60 e 70: bizarro é pouco. Por sorte, anos depois o grupo alemão Kraftwerk chegou e tornou a música eletrônica uma coisa palatável. De qualquer modo, ficam registrados na poeira da História discos como Moog! e Everything You Always Wanted to Hear on the Moog, que mostram o que não se deve fazer em termos musicais.
24.11.02 Quando eu soube que o iBest daria um prêmio de R$ 20 mil, confesso: me empolguei e inscrevi este blog na competição. Depois é que me toquei que eu não teria a menor chance de ganhar essa bolada, e nem mereceria. Se fossem adotados unicamente critérios de qualidade, blogs como ¢AtaRrO vE®De, Mundo Perfeito, puragoiaba, Caderno Mágico do Dennis e O Polzonoff (só para citar cinco) disputariam clique a clique essa graninha. Mas como os autores destas páginas tinham mais o que fazer, não se inscreveram no iBest.
De qualquer modo "quem está na chuva é para se queimar", como diria Vicente Matheus. O internauta que quiser me dar uma forcinha deve clicar aqui para votar em Pensar Enlouquece. Esta casa penhorada agradece antecipadamente seus apoios, e também aos (ir)responsáveis pelos sites bad's blogue, Blogus e A vida moderna de Jaspion, que votaram em mim antes mesmo que eu divulgasse minha participação quixotesca nesta premiação.
Em tempo: cada internauta pode votar em até três blogs nesta categoria. Eu escolhi o InterNey e o Final do Fuzo para me fazerem companhia.
Às vezes as idéias pululam em minha cabeça como turistas desavisados descalços saltitando pelas areias estupidamente quentes de Ipanema.
Às vezes imagino como seria melhor se eu tivesse a capacidade dos budistas de libertar a mente de qualquer pensamento, mergulhar fundo em um mantra e flutuar na paz branca e translúcida de quem medita, hare hare aouuummmmm...
Às vezes penso muito, penso penso penso DEMAIS, centenas e centenas de pensamentos simultâneos ricocheteando pelos sete buracos da minha cabeça, zunindo feito papa-léguas pelo grand canyon dentro de mim, e me perco inutilmente tentando alcançá-los.
Às vezes chego a uma conclusão definitiva. Mudo de idéia trinta segundos depois.
Às vezes concebo Setenta Cavalos Alados Parindo Luzes Dodecafônicas pelo Céu de Liverpool Enquanto um Mulher de Beleza Exata Como os Quadrados de Mondrian Pisoteia Baratas Kafkianas Afiliadas à Liga das Pamonhas de Piracicaba Dissidentes Daquelas que Sonhavam com a Conquista da República de Vladivostok Entre Tabuleiros Sanguinolentos de War e Reproduções em Silk-Screen do Vice-Presidente do Reino Utópico dos Amantes Crucificados Que Se Flagelavam Enquanto Assobiavam Canções Empoeiradas de Cavaleiros Medievais Embevecidos com as Imagens Vagas de Ninfetas de Elevador Trajando Calças M. Officer e Saias com a Estampa Transcendental dos Pescoços de Modigliani.
Às vezes entupo minhas narrativas com piadas inconseqüentes, metáforas rebuscadas, digressões gratuitas, de forma que me esqueço completamente do que estava escrevendo, e aí jogo tudo fora e deixo só as piadas.
Às vezes penso que deve haver um inferno ao qual são condenados todos os idiotas que deixaram um amor morrer, e eu, com certeza, serei flambado num caldeirão ad eternum, ouvindo Backshit Boys e assistindo a programas evangélicos no canal comunitário do limbo.
Às vezes meses parecem dias. Planos de anos são utopias.
Às vezes tartamudeio, gaguejo, vocifero, liquefaço, justaponho, defeco, repito, repito, latejo, trompeteio, esporro, grogrolejo, tremeluzo, redescubro, alicio palavras; depois, reescrevo-as.
(escrito originalmente em 30 de setembro de 1999.)
Outro dia li no jornal a seguinte declaração de um deputado: "sendo realista e sem querer tapar o sol com a peneira, é preciso constatar que é necessária a liberação das emendas do orçamento a fim de amenizarmos a crise". Parafraseando o Macaco Simão: tucanaram o fisiologismo!
*
Uma das melhores coisas de ser torcedor de futebol é a oportunidade de sacanear os amigos. E atire a primeira pedra quem não tirou sarro de um amigo palestrino ou botafoguense: ao menos eu posso dizer não titubeei em gozar meus camaradas palmeirenses.
Depois, em um segundo momento, parei para refletir nesse aspecto das amizades à brasileira. Será que no exterior também existe esse hábito de xingar amistosamente os camaradas? Imagine um diálogo desses entre dois amigos ingleses ou japoneses:
- Falaí, mané! Como vai essa bundinha?
- Ih o cara, tá sempre levando tudo por trás! E a mãe, tá bem?
*
Outra observação ligeiramente ludopédica. Como o meu BUGRÃO não tem me dado muitas alegrias, o consolo que me restou neste Campeonato Brasileiro foi saber que a ponte preta (sem minúsculas, que esse time de merreca não merece) também foi eliminada da fase final. O futebol se retroalimenta à base das grandes rivalidades; é por isso que imagino que equipes como a Portuguesa de Desportos ou o Juventude jamais ganharão o status de time grande - faltam-lhe rivais diretos. É como nas histórias em quadrinhos: todo super-herói necessita de um grande vilão para se destacar. Conceber o Flamengo sem o Vasco ou o Atlético sem o Cruzeiro é como imaginar o Super-Homem sem ter o Lex Luthor para confrontar.
*
O saldo mais nefasto de um fim-de-semana na praia é ter a pele toda descascando. Estou me sentindo como o protagonista da produção megatrash, "O Homem-Cobra", cRássico das madrugadas do SBT (tão desconhecido que nem no IMDB encontrei informações sobre o filme) sobre um ajudante de cientista maluco que, sem saber, recebe injeções de material geneticamente manipulado, que acabam por transformá-lo na criatura do título, não sem antes serem exibidas cenas do carinha perdendo a pele toda, como certas cobras que renovam a casca inteira de tempos em tempos. Bem, o fato é que estou me coçando todo por conta da pele que insiste em despregar de minhas pernas, minhas costas, meu peito.
Quando as feridas coçam, não dá pra resistir, seja o lugar que for. Mas admito, não sem uma ponta de constrangimento, que essas coceiras possuem seu lado positivo. Ninguém sentou ao meu lado no banco do ônibus, e eu pude ler meu jornal à vontade. Os outros passageiros devem ter achado que eu tinha pulgas ou sarnas no corpo. What a shame, pfuf.
*
Passei a semana inteira sem ânimo para sair de casa. Fui acometido por um stress emocional dos brabos (dentre outras coisas, imaginem ficar brigando por telefone das 17:30 às 01:00), e por conta disso perdi excelentes programas: um sarau, um reencontro com camaradas dos tempos do colegial, uma sessão de cinema ao ar livre. C'est la vie: ninguém disse que viver seria fácil. Mas bem que Lady Murphy poderia dar um desconto vez em quando.
*
Outro dia esteve aqui um priminho meu, moleque do alto de seus cinco anos de idade. Quando viu minha coleção de vinis na estante, me perguntou:
20.11.02 Inacreditável. Há muito, muito tempo, mais ou menos quando Papai Noel tinha barba preta, havia uma banda chamada Gene Loves Jezebel que tocava nas FMs em mil novecentos e lá vai cacetada. Pois bem, qual não foi a minha surpresa quando descobri que o grupo ainda existe e, mais ainda, vai fazer alguns shows aqui no Brasil? Este país é realmente pródigo em desencavar obsolescências musicais (vide James Taylor no Rock In Rio e A-Ha no começo deste ano).
A banda é um típico exemplo de one-hit wonder (com a música "Desire"). Ou seja, é um daqueles grupos que só tiveram um sucesso na vida, feito o Brylho ("A Noite do Prazer", aquela do virundum "trocando de biquíni sem parar"), Sigue Sigue Sputnik ("Love Missile F1-11"), Housemartins ("Build", a melô do pa-pa-pa-papel), Bolshoi ("Sunday Morning"), Nena ("99 Red Baloons"), Desireless ("Voyage Voyage"), Fausto Fawcett ("Kátia Flávia") e outras bandas que você encontra compiladas em uma dessas coletâneas do tipo "O Melhor dos Anos 80".
Mas o fato mais grave, e que delata irremediavelmente o quão velho estou ficando (e quantas recordações inúteis eu guardo no bojo de minha memória pop) é a lembrança nítida de uma apresentação que o Gene Loves Jezebel fez na finalíssima do concurso de... Rambo Brasileiro. Sim, meus caros: eu assisti ao Gene Loves Jezebel fazendo um playback de "Desire" durante uma ou outra apresentação de malucos anabolizados destruindo muros de isopor e escapando de explosões fake enquanto Gugu Liberato anunciava outros clones de Sylvester Stallone recebidos sob os gritos histéricos da platéia feminina do "Viva a Noite".
Será que algum companheiro de geração se lembra de ter testemunhado essas cenas? Se sim, manifeste-se. Juntos, poderemos recordar esta e outras reminiscências da época em que Magda Cotrofe era o símbolo sexual do Brasil, Paula Saldanha apresentava o Globinho nas manhãs de sábado, a mamãe ficava com o copinho da Geléia de Mocotó Imbasa, a zebrinha do Fantástico anunciava a cada domingo as surpresas da rodada e eu guardava minhas moedinhas num cofre da Poupança Haspa ou numa carteira emborrachada da Op.
O convívio virtual tem dessas agradáveis surpresas. Adriana, essa mocinha-cartola "de onde coisas inesperadas podem sair", me presenteou com um belíssimo "fanArte" (estou até agora com os olhos boquiabertos). Recomendo fortemente uma visita ao seu metablog, no qual estão expostos mais peças inspiradas por outros blogueiros sortudos que foram agraciados com seu talento e generosidade.
Admito: não nasci para ser blogueiro. Ao menos não se formos considerar a mais surrada e reducionista definição do que venha a ser um blog: "diário virtual". Necas de pitibiriba, mizifio: blog é um instrumento poderoso de comunicação, que democratiza a publicação de conteúdo na Web. Bem, é óbvio que uma ferramenta de utilização tão simples e acessível, não tardaria para ser desvirtuada (como mostra a enxurrada de "confissões de adolescentes" que inundou a bloglândia tupiniquim). Mas o fato é que há muita gente boa que sabe o que fazer com algumas idéias na cabeça e um teclado nas mãos: procure vasculhar a lista de links ao lado esquerdo deste post.
Mas tergiverso, tergiverso. O que eu quero na verdade é provar a minha incompetência em escrever um diário. Inspirado pela experiência do meu pai, que registrou passagens de sua adolescência em um caderno manuscrito (infelizmente extraviado em uma dessas mudanças de casa), comecei a escrever um diário há cerca de doze anos. Logo desisti, ao constatar que sou completamente incapaz de levar a sério uma tarefa dessas. No dia 6 de outubro de 1990, registrei a seguinte passagem da minha vida:
"Hoje eu consegui estalar os dedos pela primeira vez. Nunca me esquecerei deste acontecimento em minhas retinas tão fatigadas. Eu estava assistindo no Gugu a uma apresentação do Banana Split. Elas estavam mais peladas do que vestidas. Legal! Foi em Ibiúna. Fazia um dia quente pra dedéu. Entrei na piscina e fiquei com medo da minha orelha cair, mas ela não caiu. Maneiro. Ah, hoje também aprendi uma coisa muito importante: não se deve esbarrar o cotovelo num copo com Coca-Cola".
Não sei escrever a meu respeito, a não ser fazendo piadas infames. Clássica forma de auto-defesa.
Vasculhando e-mails antigos, encontrei uma mensagem que até poderia virar post (e virou, dã). Ela foi publicada em uma lista de discussão que supostamente serviria como um refúgio seguro para confissões entre amigos próximos. Obviamente, em vez de falar sobre minha vida, redireciono a mensagem para falar de outras paragens. O e-mail é de 27 de novembro de 2000 (mais de dez anos após minha tentativa desastrada de manter um diário).
"Insensatos & Insensatas,
Que alívio. Após uma semana soterrado por trabalhos & provas & matérias de tv & programas de radiojornalismo para fazer, o pior já passou. Depois da tempestade, a bonança. E, falando nisso, Deus, como eu tomei chuva na semana passada. Como sempre acontece, quando levo guarda-chuva, não chove; mas quando o esqueço... Bem, o fato é que, quarta-feira passada, o toró despencou enquanto eu estava dentro do ônibus de volta do banco para casa. Pra piorar a coisa, eu tinha dormido e acordei dois pontos depois do meu. Foi uma das caminhadas mais longas de toda a minha vida.
Normalmente eu até gosto de andar sob chuva. Mas, depois de uma semana cansativa, com os neurônios pedindo arrego e o corpo malemolente feito lagartixa debaixo de sol, eu só queria chegar em casa, deitar e entrar em coma por algumas abençoadas horas de sono. Infelizmente, Lei de Murphy é tiro e queda: 'não há nada que esteja ruim que não possa ser piorado'. Quando desci do ônibus, a chuva caía com raiva e vontade em Sampa City.
No começo, até esbocei tentar me proteger, colocando a pasta que sempre carrego em cima da minha cabeça. Mas caía tanta água que logo percebi a inutilidade do gesto. Não acelerei o passo, já que ia ficar ensopado correndo ou não, e resolvi aceitar toda aquela aguaceira de maneira resignada, caminhando como se não estivesse nem aí. As gotas eram densas e geladas, e corriam nas minhas costas como pequenos cubos de gelo brincando de escorregador na minha coluna. Ao contrário da chuva descrita pelo Sabbag, não havia cheiro de terra molhada. E, mesmo se tivesse, eu não o sentiria, meu nariz estava completamente entupido. Ou melhor, 'endubido'.
Enquanto caminhava, molhado e imbecil, fiquei pensando em todos os guarda-chuvas que perdi em minha vida, suficientes pra montar uma barraquinha de camelô. Recordei do maior toró que tinha tomado até então na vida, quando fui ver os Rolling Stones no Pacaembu e fiquei quase uma hora inteira sob chuva, pulando feito macaquinho com dor de barriga e cantando 'Street Fighting Man', 'Ruby Tuesday' e outros clássicos. E me convenci, definitivamente, da estupidez que é o clichê cinematográfico de mostrar homens apaixonados sofrendo por amor debaixo de chuva. Porra, eu tô com o coração partido e ainda fico me martirizando debaixo do maior dos torós?! Se é pra sofrer, prefiro ficar deitado em minha caminha aconchegante, de preferência debaixo do edredon e ouvindo música sob a penumbra silenciosa da noite.
A segunda vez que tomei chuva nesta semana foi no último sábado, quando fui ao Espaço Unibanco assistir a 'Dançando no Escuro', de Lars Von Trier, que pertence àquela estirpe de filmes que costumo classificar com a cotação '5 lenços'.
E, olha, 'Dançando no Escuro' é um filme que cobra um preço emocional muito grande para assisti-lo. Porque, em seus 134 minutos, o espectador testemunhará um calvário digno de Cristo, honrando a tradição das heroínas cinematográficas de diretores como Dreyer, Mizoguchi e Truffaut; de mulheres sofridas e de garra, as únicas capazes de suportar toda a dureza do mundo em nome de um ideal maior. E o filme é repleto de cenas de cortar a alma, como quando a personagem da Björk começa a trabalhar durante os dois turnos do dia na fábrica, e volta para casa tateando os trilhos da estrada de ferro com os pés, porque já não consegue mais enxergar.
Por meio das imagens de uma mulher cega, Von Trier recusa os apelos melodramáticos tão típicos de Hollywood. E se choramos neste filme, é porque há identificação na dor e na grandeza transcendente da personagem incorporada por Björk. As seqüências musicais do filme, que em longas como 'A Noviça Rebelde' simbolizavam alegria, em 'Dançando no Escuro' ponteiam as seqüências mais angustiantes da narrativa, quando a operária busca refúgio da realidade cada vez mais opressora.
Se lágrimas representam o desabafo de emoções contidas, então 'Dançando no Escuro' pode ser interpretado como uma catarse, ao melhor estilo das tragédias gregas, capaz de fazer com que o choro, colhido nos olhos dos espectadores ao final de cada sessão, seja a exteriorização da tristeza que sentimos em um mundo cada vez mais cínico e desprovido de humanidade. Ou, remetendo àquele e-mail genial da Tati, um mundo repleto de gente nadando na superfície, e de pessoas enfurnadas em suas conchinhas.
E assim, de digressão em digressão, concluo meu desabafo semanal com os versos do Raulzito: 'a chuva quando cai na terra nos traz coisas do céu'.
8.11.02 Os Simpsons chegam, este ano, à sua décima quarta temporada e ao episódio número 300, que será exibido dia 10 de novembro na Fox americana, trazendo como convidados especiais Mick Jagger, Keith Richards, Tom Petty, Elvis Costello, Lenny Kravitz e Brian Setzer (eles interpretam professores de uma certa "Rock & Roll Fantasy Camp").
Para celebrar a ocasião, a revista Rolling Stone publicou matéria de capa com os Simpsons, e pediu ao seu criador, Matt Groening, para que desenhasse paródias de alguns dos mais importantes álbuns da história do rock n'roll. O resultado ficou simplesmente sensacional. Confiram abaixo, respectivamente, a cover e a versão original das capas de "Born in the USA" (1985), de Bruce Springsteen, "Aladdin Sane" (1973), de David Bowie, "Abbey Road" (1969), dos Beatles, e "Nevermind" (1991), do Nirvana.
Somos náufragos do mesmo barco
Anjos traídos em busca da mesma cruz
Duas cabeças ocas que não pensam
Que buscam pela mesma efêmera bênção
Gestos gastos e mal fingidos
Sempre as mesmas rimas e metáforas
Piadas ridas, beijos babados
Como ecos vagos, vácuos de passado
Nossos olhos estão prenhes de farpas
Faíscas que rebrilham em gumes de frases
Vagas rompendo com falésias e mares
Traduzidas em francas ironias lapidares
Com amarga sabedoria e dissabor
Constatamos quão vãs foram nossas palavras
Míticas mímicas, joguetes do amor
Que nos enredou em trevas e trovas
Compositores da mesma canção
Dançarinos da mesma coreografia
Amantes no mesmo colchão
Sorrisos na mesma fotografia
Noites de insônia e ciúmes estúpidos.
Promessas, promessas voláteis e inúteis.
Flores. Bombons. Jantares. Motéis. Traições.
Vozes enferrujadas:
- Você me ama? Você me ama? Você me ama?
O terror indelével das desculpas decoradas:
- Você merece alguém melhor. Não quero estragar nossa amizade.
O sofrimento descascando, despojando o coração.
Amor é um disco riscado de blues.
Amor arma a arapuca, esfrega as mãos, afia os dentes.
Amor faz de nossos corações marionetes,
e gelatina de nossos cérebros.
Amor é foda.
Eterno o tempo inscrito no centro do teu olhar verde prata e céu
Beleza que ao tempo desacata o teu sorriso sombra de um véu
Desenho de giz o vento apagou mas e a cicatriz de um amor?
Restrito jogo sem regra ou juiz que fere alegra seduz desnorteia
Feliz de quem resistir decifrar tua teia estrela em noite negra
Tribalistas. Certamente vocês já ouviram a música de trabalho do indefectível trio Antunes/Brown/Monte, "Já Sei Namorar":
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também
To te querendo como ninguém
To te querendo como Deus quiser
To te querendo como eu te quero
To te querendo como se quer
Em outros termos: pop-cabeça esteticamente correto, mas que não passa de uma ode à putaria com verniz intelectualóide. Discordam? Então leiam este trecho de entrevista concedida por Carlinhos Brown no site do trio:
Brown - O fato de existir um conjunto entre os tribalistas, que é a afinação total e química, traz para o pensamento de equipe a contribuição de um com outro... termina fazendo um novo artífice que não são os três e os três não fariam isso separadamente, o que fosse cada um. Isso é uma soma dos três, que é um... que é o tribalista.
Sei lá, bicho... mil coisas. Chego à conclusão de que, a nível de conceito neo-tropicalista enquanto fomento de uma mentalidade capaz de agregar valor performático a um ménage à trois musical, esse amálgama da tabela de Linus-Pauling com o romance de Alexandre Dumas representa um revival estilístico dos happenings da Pop Art, fundamental para a compreensão ulterior dos trocadilhos concretistas a la Macha Fêmeo (a nível de Omelete Man, veja bem), sintetizando, enfim, tuuuudo de bom que rola na neo-MPB. Porque tudo é tudo, e nada é nada. Ou não.
6.11.02 É brincadeira? Cumpadi Claudio Cremilson me mandou e-mail avisando da patacoada que a governadora eleita do Rio Rosinha Garotinho aprontou. Mauro Rasi e Artur Xexéo, colunistas do jornal O Globo, estão sendo processados pela esposa do Anthony. O crime deles? Enquanto Rasi comentou en passant que dona Rosinha daria um "passa-fora" no marido após assumir o poder, Xexéo sugeriu que o futuro governo carioca implantasse um programa de chapinha e alisamento japonês a R$ 1,00, ironizando a veia popular-demagógica do clã Garotinho. Como resultado, estão respondendo a processos movidos com a clara intenção de intimidar futuras críticas ao governo carioca. Preocupante: há menos de um mês, o Correio Braziliense foi vítima de censura prévia, imposta por uma ação movida pelo governador reeleito do Distrito Federal Joaquim Roriz. E agora essa: pfuf.
Ironicamente, escrevi há dois dias post em que discorria a respeito da importância das crônicas no jornalismo diário. Ao comentar com humor e lirismo os fatos do cotidiano, cronistas como Artur Xexéo e Mauro Rasi aproximam do leitor as notícias que movem o mundo (talvez seja isso que tenha incomodado tanto D. Rosinha). Pois é: a atitude autoritária cometida pela Sra. Garotinho mostra o poder que uma pena afiada ainda possui. E prova que, apesar do momento democrático que vivemos com a tranqüila transição presidencial entre os governos FHC e Lula, é preciso, mais do que nunca, vigiar de perto todas as tentativas de cerceamento da liberdade de expressão.
Cora Rónai está organizando um abaixo-assinado em repúdio à atitude intempestiva da Sra. Garotinho. Os interessados em subscrever este protesto podem participar informando seu nome, profissão e número de identidade nos comentários do blog da Cora: participe você também.
UPDATE: Fernando Pedreira e Arnaldo Jabor também estão sendo processados. Quem será o próximo?
Com "apenas" três semanas de atraso, li hoje e-mail de André Dahmer, colaborador do Lance! (onde é colega do graaaaaande Gustavo de Almeida) e (ir) responsável por uma ótima tira atualizada diariamente: Malvados. Recomendo fortemente um pulo até lá (depois te passo o número da minha conta, André).
Somos bombardeados, diariamente, por toda uma gama de notícias: seqüestros, chacinas, CPIs, escândalos, gossips envolvendo a vida dos "ricos e famosos", terremotos, aumento de impostos, etc etc. Tantos dados confundem, dispersam, afastam o leitor. Será que jornais só publicam notícias ruins? Em meio à era da informação, o problema não é mais de falta, mas sim de excesso de notícias que recebemos. Hoje em dia informa-se melhor quem sabe filtrar o que lhe realmente interessa em meio ao dilúvio de dados que nos é descarregada.
É preciso respirar. E é por isso que as crônicas ainda possuem papel tão importante dentro de um jornal. Tal espaço, antigamente ocupado por escritores do porte de Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector e Nélson Rodrigues, e que hoje em dia é destinado a autores como Mário Prata, José Castello, Tutty Vasques e Carlos Heitor Cony, representa uma pausa mais do que bem-vinda à metralhadora giratória das notícias do dia-a-dia. Porque acrescentam humor e lirismo à objetividade de leads e infográficos. E, mais do que isso, trazem ao jornal o espírito das narrativas literárias (segundo a definição de Luis Fernando Veríssimo, crônica é "a forma jornalística da literatura ou a forma literária de jornalismo").
Tergiverso, tergiverso; movido pelo acaso e pela falta de assunto, inspiração-mor de muitas das melhores crônicas já escritas. Mas concluo dizendo o seguinte: por mais que eu seja viciado em informações, chega uma hora em que é preciso relaxar. E nessas horas, louvo aos céus pelas tiradas espirituosas de um Ivan Lessa, pelos insights luminosos de um Joaquim Ferreira dos Santos, pela veia lírica de um Rubem Alves. Para os leitores de jornais, é um bálsamo poder contar com o viés subjetivo desses cronistas. Porque jornalismo, mais do que a fria alinhavação de números, fatos e fotos, também é a arte de narrar histórias atraentes para o seu leitor. Gay Talese, Marcos Faerman e Samuel Wainer que o digam.
3.11.02 Você está ocioso, desocupado, de bobeira e sem nada para fazer? Então não perca mais tempo! Visite http://inagaki.friendtest.com e faça um teste sobre este incauto que vos escreve. Você descobrirá tudo que sempre quis saber sobre Alexandre Inagaki, mas jamais ousou perguntar (ho, ho, ho!).
Last but not least, recebi dois fansigns de leitoras empolgadas com meu blog. Clique aqui e aqui apenas se você for maior de 18 anos (depois, substitua "Inagaki" pelo seu nome nas URLs acima, dê "enter" e veja o que aparece).
Bacana, bacana! Olha só o banner que cumpadi Amadeu Bocatios, sempre na boa companhia de "Your Soul" Claudia Mattos, criou para linkar este blog. Valeu, cumpadi!
A propósito: Amadeu, mais do que bem assessorado pela talentosa cantora Claudia Telles e por Mr. Raulzito, é responsável pela Revisita da Música Popular Brasileira, sítio dedicado aos talentos de grandes nomes da MPB, principalmente aqueles que foram injustamente esquecidos pela mídia. É mais uma página a ser incluída em qualquer bookmark que se preze.