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31.10.02
Clique aqui e baixe arquivos mp3 com Drummond em pessoa recitando seus poemas.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) completaria hoje cem anos de vida. Em homenagem ao poeta mineiro, que tantas vezes me inspirou com seus versos e crônicas, escrevi em 1998 o poema abaixo, parafraseando alguns trechos de sua obra.


Ao Lutador

Palavras-luz - raios em explosão;
carrossol girodante em espaço de caos
e palmeiras, chuva coruscante sobre a noturna terra,
claríssimo enigma redentor: tua obra.

Foi ontem, foi há muito tempo.
Havia manhãs, jardins. Utopias.
O mundo era um horizonte talhado em neblinadas serranias,
bondes, altares, nuvens esquecidas de passar.
Até que a noite te engolfou, e
tiveste de engolir todo um céu vazio; a vida
consumida em dolorosa digestão,
pedra de minério e barro cravada no peito.
O caminho chegou ao fim. A pedra esfacelou-se.
Mas ficou o teu legado, muito maior do que pensavas.

Porque a vida ainda pulsa - elefante teimoso - na música cristalizada de teus versos
e na terna simplicidade de tuas crônicas.
Porque tu sabias que a vida é constante recomeço,
dociamarga batalha de cada instante:
orquídea bruta desatando-se do chão,
aurora rósea raiando do leite derramado.
Porque tu nos ensinaste que viver é sonhar
(mas o sonho não existe),
e é preciso aprender a rir,
apreender o mundo pela dor mas resistir
porque a vida vale a pena, a vida é bastante.
Porque há sempre um favo de mel a ser extraído
dos cacos do tempo. Porque mesmo não tendo,
tenho esperanças. Porque é preciso, é preciso.
Porque existe o amor
(o amor que move o sol como as estrelas)

Vai, Carlos! e caminha por uma estrada de pó e esperança (ficam tuas palavras, diamantes)



30.10.02
Insônia é uma musa bocejante e repleta de olheiras. Nessas horas, quando seus neurônios estão de bobeira, não há nada melhor do que a Web para fazer o tempo passar enquanto o sono não volta de mansinho. O problema é que, mesmo navegando a esmo, encontro tanta abobrinha que o sono, que já andava esquivo, vai embora de vez.

Por exemplo, vejam a pergunta feita pelo fórum do UOL: "Qual foi a maior prova de amor que você já recebeu?". Não consegui segurar as risadas diante de certas respostas. Exemplos?

. "A maior prova de amor, é quando após uma noite frustante ela diz: 'ISSO ACONTECE COM TODO MUNDO', achando que isso justifica a eca e acaricia o ego"
. "prova de amor é naum fazer nenhuma, pois todas são um baita mico"
. "estavamos num motel e minha namorada saiu de um outro comodo, vestida 'só' com a camisa do meu time do coração"
. "A maior prova de amor, foi quando a minha namorada fez amor comigo durante 7 horas seguidas... ela até sangrou um pouquinho. Mas foi mto bom!"


Pois é, meus caros incautos: amar é pagar micos.

Depois, esbarro com esta reportagem: "Havanir, quanta diferença!". O artigo, que fala sobre Havanir Nimtz, deputada estadual mais votada em São Paulo nas últimas eleições, e não por coincidência pertencente ao mesmo PRONA do Doutor Enéas, destaca em seu olho: "a Havanir de hoje aparenta uns 10 anos a menos do que os 49 completados em 7 de setembro, e está muito mais bonita". É duro, mas não é mole não: a histérica do PRONA virou sex-symbol da política nacional!

Sim, eu morro e não vejo tudo. E se você duvida, recomendo uma visita urgente ao Museu de Preservação dos CDs da AOL, para constatar, embasbacado, que aqueles malditos CDs de "Internet grátis" que não param de chegar pelo correio são avaliados em até 15 dólares por esses malucos. Mas não é tudo. Depois, visite a página de Jimmy Nines, que afirma: "I am the biggest LOSER of all. And I am going to MAKE MONEY on the Internet or I will eat my own shit and DIE". Na boa? Acho melhor ele começar a se acostumar com a nova dieta.

Outro mata-sono bom é esta página: TUCANO NA CUT. O site compila centenas de palíndromos (frases ou palavras que dizem a mesma coisa de frente para trás ou de trás para a frente) criados pelo advogado Rômulo Marinho. Exemplos: "ele pode por acaso sacar o pé do Pelé", "a base do teto desaba", "seco de raiva, coloco no colo caviar e doces" e "Oto come doce seco de mocotó". Durma-se checando frase por frase, e depois tentando criar maluquices semelhantes...



29.10.02
SESSÃO DA TARDE

A atração de hoje é um conto publicado na edição 7 da revista eletrônica [mao unica?], capitaneada pelos irmãos em armas Jorge Rocha e Fábio Fernandes, e para a qual estou devendo uma colaboração há semanas (sou péssimo com dead-lines). Por favor, desliguem seus celulares e não fumem durante a sessão. Bom divertimento. :)


Amar Emburrece

Como todos sabem, homens não são muito providos de inteligência natural. Apaixonados, então, imbecilizam-se ad infinitum - neurônios dançando na boquinha da garrafa. Quando Alechandre viu Sessília pela primeira vez, seus olhos foram imediatamente fisgados. Nada como um belo par de pernas, cabelo chanel, mamilos querendo rasgar uma blusa justa e um sorriso sugestivo para ruir séculos de racionalidade masculina. Quando Alechandre encontrou Sessília dançando naquele barzinho, seu coração sofreu um abalo sísmico. Naquele instante, ele poderia jurar que todas as bocas se calaram, todas as estrelas se apagaram, o mundo inteiro caminhou na ponta dos pés e todas as rádios interromperam suas programações só para tocar The Killing Moon.

Amar é decretar uma chacina de neurônios.

Na condição de melhor amigo da vítima, fui testemunha privilegiada do processo de derrocada de Alechandre. Lembro-me muito bem de sua empolgação juvenil, ao comentar TODAS as suas afinidades com Sessília. E me disse, dentre outras coisas: que ela também era fã de Gaudi, Auster, Gaiman e Clarice; que seu jogo preferido do Atari também era H.E.R.O.; que também comia pão com manteiga e geléia de uva; que quando criança sonhara em ser chacrete, arquiteta e pintora, antes de se formar em Direito; que gostava de yakult, Edward Munch e física quântica; que desistira de ler Ulisses porque cansava demais ficar carregando aquele calhamaço no ônibus; que o que mais lhe doía na vida era a sensação de desamparo e vazio no peito toda vez que um amor acabava, e principalmente a sensação de pensar, "mas acabou de novo?"; que cantarolava Arnaldo Baptista enquanto tomava banho, "hoje percebi que venho me apegando às coisas materiais"; e que, ao ouvi-la cantando justamente AQUELA música, seu coração se encheu de ternura e seus olhos ficaram úmidos. E aí constatei: porra, o cara tinha caído direitinho na arapuca.

Para culminar, ele me diz: "pôxa Auberto, como é que NUNCA nos encontramos antes?". Deus, quantas vezes já ouvimos na vida variações em cima da mesma frase? Ao ouvir aquele clichê a memória pop soprou em meu ouvido-jukebox uma velha canção do Pink Floyd: "I look at you and what I see is me". Oras, todos que se apaixonaram pelo menos uma vez na vida já passaram por essa fase de deslumbramento e assombro. Pena que quase sempre ela passa.

* * *



Mal sabia meu amigo que, a partir do momento em que seus olhos se umedeceram de cega e terna esperança, começava ali sua derrocada na cadeia evolutiva; e que aquele rapaz promissor, um jovem jornalista recém-formado, em apenas duas semanas se veria transformado no mais aparvalhado dos Neanderthais da paixão, capaz de brincar de mal-me-quer com um Haagen Dazs de cheesecake enfiado no meio da testa, e o sorriso mais alegre e estúpido do mundo estampado em um rosto subitamente repleto de espinhas.

Amar não é para amadores.

Quando a gente se esquece do tempo, é aí que ele passa mais depressa. Em questão de semanas testemunhei Alechandre e Sessília percorrerem todos os passos da via-crúcis do amor. E de repente, tudo que os encantava no começo tranformava-se subitamente em motivo para escárnios e ironias corrosivas. Citações de diálogos cinematográficos, antes uma brincadeira particular entre os dois, tornavam-se "manifestações pretensamente intelectuais de erudição frustrada". Pequenas rugas que surgiam diante de um sorriso, antes vistas como irresistível charme, eram agora denunciadas como "testemunhos irrefutáveis da decadência do tempo". Enfim: se antes os olhos brilhavam de paixão, agora faiscavam de rancor, sarcasmo e raiva. Uma incômoda sensação de déjà vu me fazia relembrar olhos castanhos, promessas voláteis e madrugadas insones.

Alechandre passou exatas duas semanas curtindo sua ressaca pós-amorosa em grande estilo. Estatelado na cama, olhava vazio para o teto branco de seu quarto na penumbra, ouvindo álbuns de Zezé di Camargo & Luciano e, o que é pior, identificando-se terrivelmente com TODAS as letras. Era de causar engulhos nas gentes ouvir a voz de meu aparvalhado amigo cantando empolgadamente versos como: "o tempo todo, o dia inteiro/ sinto o seu corpo, sinto o seu cheiro/ e a minha vida é só pensar em você...". Fatos que corroboravam, definitivamente, a minha tese: amar emburrece.

Hoje, três meses depois, Alechandre não pára de falar na Jizele, que tem 25 anos, 271 CDs e "o sorriso mais cool do mundo", segundo suas próprias palavras. Por mais que ele quebre a cara, não aprende as lições. Discutindo sobre a imbecilidade da paixão, Alechandre disse que preferia ser o rei dos débeis mentais a insistir na "medíocre e conformada estupidez de um cético blasé neoliberal", obviamente referindo-se a mim, tsc, tsc. Ah, a verborragia dos apaixonados.

Observando tais cenas, pergunto-me: será que um dia chegarei a tal estado de indolência mental? Espero que não. É preciso estar sempre atento para os riscos da paixão: olho para os dois lados antes de atravessar a rua, não aceito balas nem attachments de estranhas, essas coisas. De qualquer modo, já deixei minha família de sobreaviso. Se um dia eu for capturado pela armadilha do amor, desejo que todos os aparelhos sejam desligados. Não desejo sofrimentos desnecessários.



28.10.02
(pensando alto)

A música torna este mundo mais suportável.

*

Gostaria de sofrer de uma amnésia controlada, que me fizesse esquecer de certos livros e filmes. Algum artifício prodigioso, que me permitisse assistir a "Casablanca" sem saber o que vai acontecer no final. Ou ler "Cem Anos de Solidão" e me deslumbrar da mesma maneira que da primeira vez. Ou gargalhar com uma gag dos Irmãos Marx ou de Woody Allen com prazer sempre renovado. Ou ser surpreendido, punch no estômago, com o assassinato no chuveiro de "Psicose", a revelação da identidade de Keyser Soze em "Os Suspeitos", o turning point em "Um Corpo que Cai". Que me permitisse sentir novamente o orgasmo literário de quando li pela primeira vez "O Jogo da Amarelinha" de Cortázar, leitura que me obrigou a soltar um impropério escandaloso no meio da biblioteca do Bandeirantes:

- Porra, quero escrever que nem esse filho da puta!

*

Idéia para um conto: uma velha que, a cada sessão de cinema que freqüenta, levanta-se antes do final. Porque assim o filme alimentará permanentemente sua imaginação, e ela poderá inventar mil e uma maneiras de terminar a história da maneira que quiser.

*

Vamos combinar uma coisa? Eu não morro, e você também não morre. Simples assim. Fechado?

*

Eu tinha 12 anos de idade, e meus olhos estavam atentos para as coisas do mundo. Pessoas iam às ruas em defesa da emenda das Diretas Já, que restabeleceria o direito do povo escolher seu Presidente. Na TV, assisti a cenas inesquecíveis: Teotônio Vilela, já doente de câncer, soltando pombos em nome da liberdade; Sobral Pinto espargindo vitalidade do alto de seus 90 anos, defendendo com vigor o direito ao voto; Montoro, Brizola, Lula, Osmar Santos, Christiane Torloni e Ulysses Guimarães no palanque, e milhões de pessoas na Sé ou na Candelária, de mãos dadas cantando o Hino Nacional Brasileiro. No meu prédio, todos botavam a cabeça para fora das janelas, batendo panelas e gritando lôas à democracia. A emenda não foi aprovada pelo Congresso. Todas as energias foram então canalizadas para a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, um ano depois. Uma diverculite mal-explicada matou o mineiro antes que ele pudesse assumir a Presidência. E eu chorei como poucas vezes na vida.

Anos depois, fui às ruas junto com os caras-pintadas defender o impeachment de Collor. Mas, sei lá, não foi a mesma coisa. O ceticismo já havia tomado conta de minhas veias.

Pôxa, como eu gostaria de ter chorado ontem.

*

Acordei no meio da madrugada, ainda bêbado de sono, só para anotar uma brilhante idéia que me surgira em um sonho. No dia seguinte, fui ver o que havia anotado no papel.

"Inventar um sanduíche formado por dois hambúrgueres com um pão no meio".

Nunca mais acordei no meio de um sonho.



27.10.02



Quando completei 16 anos, tive a sorte de ser beneficiado por uma mudança na lei, que permitiu o voto a jovens da minha idade. Não pestanejei: desde cedo me interesso por política. Mesmo não sendo obrigatório, fiz questão de tirar o título de eleitor. E digo, com orgulho, que meu primeiro voto foi para Mário Covas, nas eleições de 1989. Ironicamente, foi também a primeira vez em que meu pai, na época com 45 anos, votou para Presidente: efeito colateral da maldita ditadura militar. No segundo turno, fui de Lula. E desde então, meus candidatos à Presidência nunca vencem as eleições.

Em 1994, apesar da simpatia que nutri, desde sua criação, pelo PSDB de Mário Covas, Franco Montoro, Euclides Scalco, José Serra e Tarso Jereissati, não pude engolir a coligação com o PFL, um balaio de gatos herdados da finada ARENA, partido que apoiou os anos de chumbo da ditadura. Nas eleições seguintes, meu voto foi anti-FHC. Mas, como de rotina, fui derrotado junto com o Brasil, que imergiu em oito anos de mediocrizante regime neoliberal, apesar de atenuantes como a queda dos índices inflacionários e os inegáveis avanços em áreas como telecomunicações e saúde pública.

Este ano, para variar, sei que meu voto irá para um candidato derrotado. Menos mal que as opções que restaram para o segundo turno são dois homens de passado digno. Um foi metalúrgico, preso político indiciado pela malfadada Lei de Segurança Nacional, e fundador de um partido efetivamente representativo da classe trabalhadora. O outro foi presidente da UNE, exilado pela ditadura, secretário de Planejamento do governo Montoro, ministro do Planejamento e da Saúde.

A despeito da lamentável campanha engendrada por sua equipe de publicitários, considero sem sombra de dúvida que José Serra seria o candidato melhor preparado para assumir o País, ainda mais depois de ter afastado de sua coligação a corja pefelista formada por ACM, Sarney, Bornhausen e demais asseclas. Mas enfim, não pretendo convencer ninguém disso ou daquilo. Ainda mais depois de uma campanha com clima de torcida de futebol, com acusações passionalmente injustas de ambos os lados.

A charge acima, de autoria de Paulo Caruso e Alex Solnik, foi publicada originalmente na Fundação Perseu Abramo, e data de 1982, ano em que foram reestabelecidas eleições diretas para Governador. É curioso notar como na época Lula ainda era visto como o comunista que iria desapropriar bens e instalar favelados em nossas casas (Collor usou esse temor para aterrorizar com sucesso a classe média tupiniquim em 1989). De lá para cá, o PT atenuou seu discurso e não assusta mais ninguém, com exceção da Regina Duarte. :)

Mas e agora? Bem, "agora é Lula". Mais do que isso, agora é Brasil. Esqueçamos rixas e rivalidades: agora a torcida é por todos nós.



26.10.02
Tartamudeio


Penso em ruivas xipófagas, em guitarras queimando como incensos, em Humphrey Bogart mascando chicletes, no céu iridescente e nos desejos que eu e você sussurávamos um para o outro quando víamos estrelas cadentes relampagueando a noite de um outubro perdido, quando éramos dois adolescentes cercados de espinhas e dúvidas existenciais por todos os lados, receosos do mundo, mas repletos de impulsos juvenis.

Penso em Thelonius Monk morando em uma casa de Lego, em metáforas despojadas e versos sobre abóboras flutuantes, em Cheech e Chong cantando sem sucesso as garotas de um videokê, e que depois da torrente de nãos recebidos terminavam a noite masturbando-se um ao outro. Penso nas gargalhadas gostosas que demos imaginando a cena, na sua risada crepitante que alimentava o fogo das estrelas, em você sentada de cócoras acendendo um cigarro atrás do outro, enquanto eu via a fumaça subir ao céu desenhando efígies de presidentes cassados e trompetistas mortos.

Penso em avestruzes enterrando suas cabeças no deserto australiano, no destino dos siriris depois que perdem as asas, na fúria dos meteoros e no medo de viver. Penso em tonéis de azeite, nos afluentes do Amazonas, na catadupa de idéias desconexas que vêm como uma enxurrada, rompendo os diques da clareza num mar de interrogações. Penso no uniforme do Coringa, na maleta xadrez do Gato Félix, no Linus esperando a noite inteira pela Grande Abóbora como se fosse Godot, nos robôs de Isaac Babel, nos filmes inacabados de Orson Welles. Penso em filmes iugoslavos com legendas em sânscrito, e em nós dois socando pregos.

Penso na raiz cúbica de 270773, no significado de "klaatu barada niktu", na escalação do Guarani em 1978, na cabeça de Robespierre depois da decapitação, no brilho dos olhos de James Joyce ao encontrar a calcinha suja de Nora. Penso em amoras amassadas, em vinicultores chupando uvas e deixando-as secar ao sol, para vendê-las depois como passas. Penso no último mergulho de Jeff Buckley, em Thelma e Louise dando-se as mãos antes de voar para o nada, na cadela Laika latindo para a surdez das estrelas.

Penso no medo que tenho de dançarinos irlandeses e contorcionistas de circo, em quadrinhos velhos de Carl Barks, em melodias tonitruantes, no silêncio de John Cage. Penso em você pedindo provas de amor, na risada que dei ao ler que um homem foi flagrado trepando com um frango congelado, em minhas tergiversações dispersas, em seus olhos dardejando indiferença, em Ian Curtis pendurado pela corda que o enforcou, na etiqueta presa ao dedão de Marilyn Monroe no necrotério de Los Angeles, em carpideiras sorridentes e nas piadas bestas que sempre extraíam um sorriso do seu rosto, mas que já não tinham o mesmo efeito.

Penso em Pasárgada, em Hiroshima, em Yoknapatawpha, em Cracatoa, em Atlântida, em Patópolis, em São Paulo. Penso no encontro de Kublai Khan com Marco Pólo. Penso em olhos de ímã e versos que rimam. Recordo você: tudo penso, e nada falo.



DICA DA SEMANA


Fonte da Juventude encontrada em banheiro do metrô de Nova York!

Tchetchenos e russos se digladiando, o franco-atirador de Washington que matava pessoas a esmo, a censura ao Correio Braziliense, o assassino de Guarulhos ainda à solta, Bush Júnior louco para invadir um Iraque que reelege Saddam Hussein democraticamente (sic) com 100% de votos... O mundo anda destrambelhado, mermão. Diante desse status quo, nada mais coerente do que se informar com um jornal que sabe que a vida é um absurdo: o Weekly World News.

Bomba: grande parte da humanidade tem rabos!

O jornal, uma espécie de "Notícias Populares" da Gringoland, foi citado no filme "Men In Black" como a única fonte confiável de notícias. Pudera, algumas das manchetes estampadas em suas páginas são: "BUNDA DE JENNIFER LOPEZ TEM UM IMPLANTE ALIENÍGENA", "CLONE DE HITLER JÁ TEM SETE ANOS DE IDADE" e "VÍRUS BIZARRO TRANSFORMA COMPUTADOR EM PERVERTIDO SEXUAL".

Yasser Arafat é boiola!

O mundo me soa mais verossímil agora.



25.10.02
Clique aqui para aprender a dança do capeta!

Até que demorou. Alguns paranóicos a la Oliver Stone acusam a canção "Ragatanga", do grupo Rouge, de disseminar mensagens satânicas em suas letras. Segundo esses beócios, o neologismo "aserehe" seria uma corruptela da expressão "eu sou herege". Atentem para o refrão:

Aserehe ra de re
De hebe tu de jebere seibiunouva mahabi
An de bugui an de buididipi


Hum. Pensando bem, será de todo implausível concluir que dessa vez eles acertaram na mosca? Afinal de contas, uma letra que fala em "hebe", "jebere" e "buididipi"... Sei não. Há quem diga que, se você ouvir "Ragatanga" de trás para frente, é possível discernir mensagens como "dólar a cinco reais", "celacanto provoca maremoto" e "Robert Johnson é rei".

Por dúvida das vias, convém desconfiar. Esses sucessos, por mais horrendos que sejam, grudam em nossos ouvidos como malditos Super Bonders do pop-chiclete. Vai saber se Louis Cypher não andou fazendo umas parcerias musicais por aí... =)

UPDATE: Graças a uma dica deixada pelo Edney nos comentários, taí o esclarecimento definitivo: o refrão de "Ragatanga" nada mais é do que uma versão embromation society da letra de "Rapper's Delight", gravada pelo grupo de rap Gang Sugarhill. Escarafunchadores de mensagens subliminares, sosseguem os fachos: confiram a letra original aqui, e voltem a dormir em paz.



24.10.02
Esta nova ferramenta do Toplinks é uma mão na roda para saber a quantas anda a repercussão do seu blog. A propósito: obrigado a todos que me divulgam por aí!


23.10.02
Pensar, mais do que enlouquecer, abunda a cabeça das gentes de idéias...

A psique masculina, por Ziraldo.



Geração Copy-and-Paste


As interpretações literais cometidas por muitos leitores da crônica "A Audácia", em que mestre Luis Fernando Veríssimo critica com fina ironia as repercussões do episódio em que Lula tomou um gole do vinho Romanée-Conti, provam que as pessoas não sabem ler. Entrelinhas, sutilezas e ironias simplesmente passam ao largo da vasta maioria de alfabetizados, que sabem discernir a letra "A" da letra "D", mas compreendem bulhufas acerca da interpretação correta de textos.

A Internet possui sua parcela de culpa nesse processo de emburrecimento interpretativo. Pois, se de um lado trouxe uma bem-vinda revalorização da palavra escrita através da difusão de e-mails, webzines e blogs, por outro viés é a responsável pela criação de uma geração de leitores incapazes de extrair significados entrelinhados em um texto mais trabalhado. É uma leva de internautas alimentados pela papinha do copy-and-paste, que reproduzem frases como se lessem um teleprompter (e dão forward em qualquer texto que encontram por aí), mas são inaptos na arte de articular idéias inéditas a partir da leitura de um texto. Como resultado da não-qualificação desses receptores, somos cada vez mais obrigados a recorrer à muleta dos emoticons para dizer ao leitor: - cara, isto aqui é apenas uma piada, não me leve a sério! :)

Na língua espanhola, cada frase interrogativa é iniciada com o sinal gráfico do ponto de interrogação ao contrário (¿), com o intuito de antecipar ao leitor a entonação correta que ele deve seguir ao ler determinado texto. Imagino que num futuro não muito distante algo similar necessite ser criado, a fim de alertar os leitores sobre possíveis ironias contidas em cada parágrafo.

Será um momento de glória para a humanidade.



Era uma vez um rapaz que sonhava em ingressar na carreira musical. Pensava ele: se a Xuxa, o Latino e o Tião Macalé gravaram discos, por que não eu, que sou quase tão desafinado quanto eles? Na época em que trabalhava como gerente da Blockbuster, cheguei a reunir alguns malucos sem-noção, e formamos um grupo com o singelo nome de Old Kids on the Block (fosse hoje, chamar-se-ia New Kids on the Blog, ho ho). Eu tocava bateria e escrevia as letras, que tinham nomes singelos como "Xipófagos de Amor". Infelizmente o mundo não estava preparado para o nosso som. Dessa época, guardo em gavetas empoeiradas algumas das músicas que compus, como esta que transcrevo abaixo, ins-pirada por um velho sucesso de Peninha (uma das influências seminais de nosso grupo, junto com Rolling Stones, Iron Maiden e Barros de Alencar).


Teu Amor é Como um Alien Dentro de Mim

Tudo começou como uma brincadeira
Que foi crescendo, crescendo, crescendo, crescendo...
E hoje eu me acho
Completamente perdido

Estou andando em círculos pra ver se me encontro
Minha cabeça gira e eu fico ainda mais tonto
E tudo isso porque
Estou amando você

Quantos versos mais eu devo compor
Para demonstrar um grande amor?
Sei que devo estar sendo até piegas
Mas todos que amam são meio bregas

REFRÃO:

Teu amor é como um alien dentro de mim
Que me come e me rasga mas eu gosto mesmo assim
Sei que você deve achar que esse é um lance masô
Mas o que parece insano eu chamo de amor



21.10.02
Imagem originalmente criada pela agência DM9DDB para uma propaganda de catchup da Parmalat, merecidamente premiada no Festival de Cannes.

Clima desgraçado em Sampa City. Bons eram os tempos em que havia uma época certa para cada estação do ano. Atualmente, as quatro estações aparecem em um dia só. De manhã é um calor infernal, daqueles de transformar o cérebro de qualquer um em Geleca. Tudo é sol. Mas eis que uma e outra nuvem surge, como quem não quer nada. Languidamente se espreguiçam no céu, e parecem ser tão inofensivas quanto seu vovô. Ledo engano: é só você pôr os pés na rua, e um pé d'água cai na sua cabeça (e sempre chove quando esqueço meu guarda-chuva). Mas é tempestade de verão. Logo o sol reaparece, junto com o calor desgracento e o ar insuportavelmente abafado. Mas o dia ainda não acabou: ainda haverá tempo para ventar, garoar, trovejar, esfriar e ensolarar novamente. Não entendo como ainda não peguei uma pneumonia.

Mas o pior é na hora de dormir. Se me cubro, sou flambado em fogo baixo e constante. Se durmo descoberto, viro fast-food de pernilongo. Peço, pois, a compreensão dos leitores deste blog. Com o clima mais volúvel que minha irmã na TPM, não consigo escrever nada que preste. Meus neurônios andam malemolentes, e pediram arrego. Esta página virou Sessão da Tarde: só dá reprise.



O primeiro fansign a gente nunca esquece...

Cumpadi André "Marmota", um dos mais fiéis visitantes de Pensar Enlouquece, criou um fansign dedicado a este modesto blog que vos escreve. Valeu, mermão!



19.10.02
Uma música...

... que quando toca me faz pular da cadeira e sair correndo, pra dançar e pular na pista feito débil mental: "Bizarre Love Triangle" - New Order

... que ouço no volume máximo a fim de obrigar os vizinhos a conhecê-la: "Accused of Stealing" - Delgados

... a ser tocada na trilha sonora do filme sobre a minha vida, no exato momento em que beijo a mocinha pela primeira vez depois de longa e excruciante espera: "True Love Waits" - Radiohead

... que deveria ser tocada em cadeia nacional de rádio e televisão: "A Cara do Brasil" - Celso Viáfora

... maravilhosa com letra em francês: "Lo Boob Oscillator" - Stereolab

... cuja cover foi capaz de superar a versão original: "Wild Horses", dos Rolling Stones, com The Sundays

... bacana com nome de mulher: "Alison" - Elvis Costello

... que estaria tocando atualmente em todas as rádios, se vivêssemos em um mundo onde os programadores fossem menos imbecis: "Show" - Ná Ozetti

... dos Beatles, que ao ser regravada ficou tão boa quanto a original: "While My Guitar Gently Weeps" - Jeff Healey Band

... para tocar no meu funeral, enquanto os camaradas recordam casos embaraçosos que protagonizei durante minha vida banal: "Hold on Hope" - Guided by Voices

... para fechar os olhos e sonhar acordado: "The Killing Moon (All Night Version)" - Echo & the Bunnymen

... cujo título é melhor que a própria música: "I Sold Your Dog to a Chinese Restaurant" - Anal Cunt

... ótima para ouvir enquanto toco bateria no ar: "Another Morning Stoner"- And You Know Us by the Trail of Dead

... para ouvir no carro em uma estrada deserta, à noite, com o vento na cara: "Playground Love" - Air

... para matar alguém com requintes de crueldade: "Florentina de Jesus" - Tiririca

... que me faz lembrar de motel: "Baby Can I Hold You" - Tracy Chapman

... para curtir uma tremenda fossa, estatelado na cama com os olhos pregados no branco do teto: "Todo o Sentimento" - Chico Buarque

... que me faz lembrar de uma foda foda: "En La Ciudad de La Furia" - Soda Stereo

... que é brega, mas eu gosto mesmo assim e foda-se: "Pra Não Pensar em Você" - Zezé di Camargo & Luciano

... com letra foderosa e melodia mezzo mezzo: "Gurb Song" - Migala

... com melodia foderosa e letra mezzo mezzo: quase todas do Ira!

... altamente afrodisíaca: "Closer" - Nine Inch Nails

... que me faz lembrar alguém que eu preferiria esquecer: prefiro não esquecer de ninguém

... que eu venderia a alma para ter composto (ok, é exagero, talvez um ou dois dedos do pé): "God Only Knows" - Beach Boys

... para ouvir em dias de chuva, pensando no Tudo e no Nada: "Manhã de Carnaval" - João Gilberto

... que tocou no rádio até torrar o saco e mesmo assim ainda gosto: "Tempo Perdido" - Legião Urbana



17.10.02
War can wait, masturbate!

O Senado norte-americano acaba de aprovar orçamento de US$ 355 bilhões para a defesa. Com tanto dinheiro nas mãos, não admira que Bush Júnior esteja louco para justificá-lo, em sua obsessão por bombardear os cocorutos iraquianos. Contra esse cenário cinza, merecem menção os apelos dos webmasters desta página: Masturbate For Peace. Que um dia, quem sabe, serão reconhecidos pela mesma Academia Sueca que já laureou com o Prêmio Nobel da Paz figuras como Henry Kissinger, Yasser Arafat, Shimon Peres e, mais recentemente, o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter.

O site, que leva a sério o sábio adágio "faça humor, não faça a guerra", apregoa uma teoria que faz sentido: - Não há melhor antídoto para a guerra do que o amor. Oras, todo sentimento real deve vir de dentro - você não pode dar amor a terceiros sem amar a si próprio primeiro. Obviamente, masturbação é a maior expressão de amor próprio. Então é natural que nós, os cidadãos do mundo, unamos forças a fim de nos masturbarmos pela paz.

Dentre os argumentos em prol do onanismo anti-belicista elencados pelo site, destacam-se:

- Se você quer que algo seja bem feito, faça você mesmo.
- O que mais eu faria com 80 GB de sacanagens em meu PC?
- Porque eu não consigo fazer um boquete da paz em mim mesmo
.

Segundo os mentores do site, cerca de 4.000 petições vindas de 60 países (incluindo o Brasil, é bóbvio) já foram enviadas para a página (você também pode encaminhar a sua). Faça você também a sua parte. Mas cuidado com o teclado. :)



15.10.02
Por onde anda Luis Gê?

"O CULPADO É O GOVERNO!". A tira acima, criada pelo genial Luis Gê, foi publicada originalmente na edição 17 da revista Chiclete com Banana, em fevereiro de 1989. Na época, José Sarney, provável presidente do Senado (ou ele, ou a Roseana) em um provável governo Lula, era o Presidente do Brasil. O final de seu mandato foi marcado por denúncias de compras de votos de parlamentares, com o propósito de votarem a favor de um quinto ano de mandato para o seu governo (a emenda acabou sendo aprovada). Tirando-se esta contextualização, a charge poderia ter sido desenhada hoje. Infelizmente.



Passar roupa é pura adrenalina!

Um dos aspectos mais interessantes da Internet está na sua vasta amplitude de assuntos. Você nem precisa procurar: navega ao léu, e de repente esbarra com os sites mais excêntricos possíveis. De roupas feitas com papel higiênico (moda é uma merda) até FAQ sobre plantas carnívoras, passando por bolhas de plástico virtuais, museu de assentos de privada e fotos de pessoas comendo insetos, você pode até concluir que já viu de tudo neste mundo.

Ledo engano, mon ami, ledo engano. Veja isto: World Extreme Ironing Championship. Uma modalidade que, segundo seus criadores, "une as emoções de um esporte radical com a satisfação de uma camisa bem-passada". A foto acima mostra o vencedor do primeiro campeonato mundial deste, ahn, "esporte": um inglês que passou roupa no topo de uma das montanhas dos Alpes Franceses. A galeria de fotos do site mostra algumas das combinações mais esdrúxulas: são esportistas empunhando ferros de passar enquanto andam de BMX, esquiam na água, praticam snowboard ou bungee jump.

Por certo os brasileiros breve começarão a dar as caras no extreme ironing, dando um trato na roupa amassada enquanto surfam de trem, fazem embaixadinhas, se esquivam de balas perdidas...



13.10.02
Assine djá!!!

Spam Zine VIVE.



12.10.02
Questionários são legais, além de servirem como excelente opção para blogueiros sem a menor inspiração para escrever. :) Aguardo por suas respostas nos comments.


QUAL A COISA MAIS EMBARAÇOSA QUE VOCÊ JÁ FEZ NUM RESTAURANTE?

Na verdade, essa aconteceu em uma lanchonete. Estava eu com uma mocinha que estava paquerando há tempos, quando pedi um daqueles sanduíches de massa folhada com presunto e queijo. A tragédia aconteceu quando dei a segunda mordida. Simplesmente TODO o recheio saiu da massa, e ficou balançando feito pêndulo pra fora da minha boca. Jamais esqueci do olhar que ela me deu depois dessa pagação de King Kong.



VOCÊ JÁ ROUBOU ALGO DE UMA LOJA? O QUÊ, E POR QUE RAZÃO?

Na minha época de moleque, eu e meu irmão adorávamos surrupiar Confeti, Mentex e outras porcariazinhas nas Lojas Americanas da vida, por três motivos básicos: a) falta de mesada; b) falta de vergonha na cara; e, c) tudo que é proibido é mais gostoso. Outra para meu currículo de delinqüente: roubei a primeira Playboy em que a Maitê Proença apareceu, porque não tinha idade suficiente para comprá-la.



SE O MUNDO ACABASSE HOJE, O QUE VOCÊ FARIA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA?

Depois de uma descerebrada farra com os amigos, combinaria um novo encontro com a galera. Lá em cima, num sarau com Tom Jobim, Clarice Lispector e John Coltrane, ou no inferno, numa jam com Miles Davis, Jimi Hendrix, Robert Johnson e Renato Russo.



QUAL SERÁ O SEU EPITÁFIO?

"Aqui, contra a vontade".



SE VOCÊ SOUBESSE QUE NUNCA MAIS ESCUTAR MÚSICA DARIA A VOCÊ DEZ ANOS A MAIS DE VIDA, VOCÊ PARARIA?

Nem morto.



DÊ CINCO EXEMPLOS DE SITUAÇÕES QUE TE DEIXAM FELIZ.

1 - fazer uma mulher sorrir;
2 - ver o meu Bugrão fazer gol;
3 - encontrar os amigos e falar muita besteira;
4 - receber elogios fundamentados por alguma coisa que escrevi, ou por alguns dos meus trabalhos;
5 - fechar os olhos, ouvir boa música, receber uma lufada de brisa no meu rosto e viajar pra longe, bem longe...



CITE TRÊS SITUAÇÕES QUE SERIAM MAIS ENGRAÇADAS COM A INCLUSÃO DE MACACOS.

1. Sessões de exorcismo da Igreja Universal.
2. Discussões nos programas da Márcia Goldschmidt ou João Kléber, do tipo "meu filho é gay", "apanho do meu marido e gosto", ou "tenho um caso com minha sogra".
3. Shows performáticos do Arnaldo Antunes.



QUAL É O PERSONAGEM DE QUADRINHOS MAIS CHATO DE TODOS OS TEMPOS?

Da Disney, merecem citação o Coronel Cintra (policial bundão que só conseguia resolver casos com a ajuda do Mickey) e o Esquálidus. Da Turma da Mônica, há o Nico Demo e o Xaveco, que nunca disseram a que vieram. Por fim, destaque especial para Olívia Palito, uma magrela sem-vergonha e totalmente dependente dos homens; qualquer probleminha, já berrava "socorro Popeye", pra depois ficar se insinuando para o Brutus.



SE VOCÊ PUDESSE FAZER UM LIVRO, FILME OU MUSICA CHEGAR À MÃO DE TODAS PESSOAS DO MUNDO QUANDO ELAS FIZESSEM 13 ANOS, QUE LIVRO/FILME/MÚSICA SERIA?

Um livro: "Crime e Castigo", de Dostoiévski. Um filme: "Os Sete Samurais", do Kurosawa. Uma música: "In My Life", dos Beatles.



QUAL FOI A PIOR INVENÇÃO DO SÉCULO 20?

Muita coisa merecia ser citada, mas vou destacar: bomba atômica, refrigerante Convenção sabor abacaxi, e-mails com correntes, Windows 95, campos de concentração, filmes com Chuck Norris, comerciais de 1406 e a cerveja Malt 90.



FALE SOBRE SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO. SE NÃO POSSUI UM, INVENTE.

Tenho um ornitorrinco chamado Epifânio que gosta de ouvir música dodecafônica e sofre de gases, e uma lagartixa, a Leda Zeppelin, que possui sexualidade meio indefinida e uiva nas noites de lua minguante.



8.10.02
RÁPIDAS RASTEIRAS

- Celebrou-se muito o fato das urnas terem enviado para o merecido limbo dinossauros da polititica como Paulo Maluf, Iris Rezende, Newton Cardoso, Fernando Collor e Orestes Quércia. Menos, Batista, menos. Em contrapartida, a Bahia reelegeu ACM, a.k.a. Toninho Malvadeza, para o Senado. Jáder, o Barbalho, foi reconduzido a Brasília pelos eleitores paraenses. São Paulo consagrou Enéas 56 com 1,5 milhão de votos, e de quebra mandou para a Assembléia Legislativa Coronel Ubiratan, o (ir)responsável pela ação que matou 111 homens na rebelião do Carandiru. O Rio de Janeiro elegeu Rosinha Garotinho, governadorazinha de dois diminutivos, e ainda destinou oito anos de Senado ao bispo Crivella. Pergunto: devemos comemorar o quê, cara pálida?

- Ainda falando no Enéas, o homem da bomba atômica brasileira, sua expressiva votação arrastará consigo mais cinco candidatos do PRONA. Dentre eles, fulgura o nome de Vanderlei Assis, que entra para a História como o deputado federal eleito com a menor quantidade de votos: 275 (quase o tamanho da torcida do XV de Jaú). Inacreditável: São Paulo, estado com mais de 25 milhões de eleitores, possui 70 representantes na Câmara de Deputados. Graças aos incautos imbecis que votaram em Enéas com a justificativa de ser um "voto de protesto", quase 10% de seus representantes na Câmara sairão desse PRONA. Que belesma!

- Recordar é viver. Enéas Carneiro saiu do anonimato graças a uma entrevista dada no Jô Soares Onze e Meia. Eu assisti a esse programa. Chamado pela produção do Jô por ser um dos inúmeros candidatos nanicos à Presidência em 1989 (ao lado de sumidades como Marronzinho do PSP, Celso Brant do PMN e Livia Maria do PN), Enéas arrancou-me boas risadas, por conta de sua dicção peculiar e de uma performance em que mediu as batidas cardíacas do Derico (doutor Enéas é cardiologista). Essa foi a impressão deixada pelo programa: um cara engraçado e inofensivo. Anos depois sua verdadeira face foi se revelando: um homem autoritário, defensor da "tradição, família e propriedade" e da bomba atômica, que foi arrebanhando votos literalmente na base do grito. Ah, que saudades de outros representantes do voto de protesto, como o rinoceronte Cacareco ou o Macaco Tião. Estes ao menos não elegeram SEIS deputados federais.

- Rôla, singelo codinome utilizado pelo candidato a deputado federal pelo PGT de Sergipe, teve 20.454 votos. Em grande parte, obtidos graças ao slogan de sua campanha: "O povo quer Rôla, Rôla neles!". Por pouco não faz companhia ao Jáder na Câmara Federal: daria uma dupla do Barbalho.

- Essas urnas eletrônicas e as malditas filas fomentadas por elas alimentaram o lado Unabomber que há dentro de mim. Ah, que saudades das cédulas de papel.



Blog não dá dinheiro, mas as compensações que tenho recebido por conta dele merecem um momento Mastercard: não têm preço. A citação na coluna do Gravatá foi bacana, mas confesso que fiquei mais contente ao descobrir, dentre outras coisas, que:

- cumpadi André Rosa, mais conhecido como Marmota, colocou este blog como sendo seu pai virtual no BlogTree. Que tremenda responsa: agora preciso dar bons exemplos. Bem, desde que ele não me peça mesada...

- Daniela Abade me cita como inspirador de sua nova empreitada no Mundo Perfeito: a digitalização das tiras do Fradim, criação inesquecível de mestre Henfil.

- a mesma tira que postei logo abaixo rendeu ainda uma citação legal de Fausto Rêgo, a.k.a. Repórter Mosca. Bacana, bacana!

- este blog tem recebido visitas de internautas da mais fina estirpe.



6.10.02
A Graúna de Henfil, sempre pertinente


5.10.02
Agora entendo por que alguns colegas mantêm blogs secretos. Às vezes dá vontade de escrever coisas inconfessáveis. Alguns o fazem, até. Mas, à semelhança dos reality-shows, expõem verdades artificiais. Escamoteadas sob metáforas e citações pop, ou hiperbolicamente dramatizadas, de modo a atrair a atenção no meio do dilúvio de conteúdo gerado na Web.

Confessar-se em público tem lá as suas razões terapêuticas. É uma mensagem em uma garrafa jogada no mar virtual, à espera de alguém que se identifique com as mesmas dores. A mesma história de sempre, enfim: procuramos por nossos iguais. Nessas horas eu me lembro de uma colega de trabalho, que vivia perguntando aos outros:

- Você não está com uma cara boa hoje. Você está bem?

Ok, não duvido que ela podia ter lá as suas boas intenções. Mas me soava extremamente detestável, quase resvalando no sádico, a abordagem da intimidade alheia com essa extirpe de pergunta. É como se fulana estivesse farejando por histórias tristes e autocomiserativas, desejando sentir-se sentir "bondosa" ao oferecer o ombro para lágrimas alheias, ou ao receitar lições plagiadas de livros de auto-ajuda. Não sei, provavelmente estou sendo injusto pra caralho, mas o fato é que há gente neste mundo que se deleita em fazer caridade a fim de olvidar suas vilezas, suas mesquinharias, seus arroubos de egoísmo ou altruísmo hipócrita. Cansam-me os amores artificiais e as pessoas que exorcizam seus demônios às custas das costas de terceiros. E não, não quero me afundar num abraço de afogados.

Não odeio ninguém. Não desprezo ninguém. E invejo as pessoas que não retroalimentam seus abismos interiores, e conseguem se satisfazer com uma esfiha no Habib's, uma Kaiser no boteco da esquina, um filme do Stallone no Supercine. Mesmo porque se todo Kenny G insistisse em ser Miles Davis, se toda Fernanda Young quisesse ser Virginia Woolf, ou se cada Dunga teimasse em ser Pelé, certamente tentaria cortar os pulsos. É preciso ser realista para deixar de sofrer. E, pfuf, esse papo de "artista atormentado" ou "incompreendido pela sociedade" não serve para mim.

Eu só quero paz. É pedir demais?



4.10.02
Língua


Língua que falo
Língua que amo
Cópula fértida
Febril fêmea
Flamante fruta
Língua que grita
Voz que brota
Do fundo do fundo da gruta
Grito de puta
Que brada: língua!

Língua que te quero fala
Dulserpentemente lasciva
Lassa lânguida
Essa língua nua
E nunca à míngua

Crime que nos redime
Pecado orgasmítico
Original
Oraginal
Oraganal
Luz que te quero lava
Luz mais que luz:
Laz!

Paz
De pau na vagina
Que pulsa
Labareda promíscua
Língua que se abre escancarada
Vértice obsceno de A
De vulva
Que envolve
A lua
De gozo lácteo
Que jorra
Porra e luz
Expulsa

Língua que falo e calo
Cabaço oculto
Que exploro e deslindo
Vórtice voraz
De adaga afiada
Que sabe o que faz:
Língua que te quero laz.

(publicado originalmente no Spam Zine edição XXX - especial FODA)



P(h)oder. É o que move o mundo.


Favas contadas, mas preciso confessar que estou remando na contramão do consensual. Meu candidato à Presidência, a despeito da experiência administrativa e do passado honroso, tem o carisma de uma tigela de chuchu. Pior: quando esboça um sorriso, é tão natural quanto uma jarra de suco Tang. De quebra, deu ouvidos a um "publicituto", e achou que encher os demais candidatos de saraivadas a esmo seria a melhor estratégia para subir nas pesquisas. Pois é, deu no que deu. Se dona Roseana Sarney não tivesse se enredado naquele episódio imbecil do milhão de reais no cofre de sua empresa, certamente estaria no segundo turno (e provavelmente se elegeria). Felizmente escapamos dessa praga, e só lamento que não tenham encontrado maracutaia similar na biografia da Garotinho.

Torço, desesperadamente, para que Lulinha Paz e Amor não decepcione as altas expectativas colocadas sobre seus ombros. Ricardo Setti, colunista do no mínimo, reproduziu esta semana a declaração de um ex-ministro sobre a provável vitória do PT: "A melhor coisa que poderia acontecer ao Lula seria perder a eleição. Governar vai destruir a biografia dele". A frase reproduz, ipsis litteris, meus pensamentos. A edificante história de um metalúrgico que chega à Presidência do Brasil renderia um filme melado em Hollywood, mas ver o PT de mãos dadas com José Sarney, PL, Orestes Quércia, Roberto Requião e Inocêncio Oliveira não é exatamente a mais bonita das histórias.

Eu só espero que todo esse neófito contigente de petistas, arregimentados pela campanha impecável tecida por Duda Mendonça (o mesmo marqueteiro responsável pela façanha de eleger Paulo Maluf e Celso Pitta prefeitos de São Paulo), não creia que o Brasil vá mudar do vinagre para o vinho já a partir do primeiro dia de mandato do Lulinha Paz e Amor, mesmo porque o PT Coca Light de 2002 tem pouco a ver com o PT de 1989, ano em que o acéfalo eleitorado brasileiro preferiu collorir. Não existem milagres. A reforma agrária não será imediata, o Brasil não vai romper com o ALCA sem mais nem menos, os funcionários públicos não receberão o aumento que esperam, e as mudanças, quando e se chegarem, serão paulatinas e graduais. E esse hipotético governo petista, para aprovar tais reformas, inevitavelmente terá que negociar com nosso indefectível Congresso Nacional, sempre fiel ao lema cunhado pelo falecido deputado Roberto Cardoso Alves: "é dando que se recebe".

Atualmente só tenho uma convicção: Aécio Neves repetirá os passos do avô e chegará à Presidência em 2006, com algum pefelista como vice. Que eu esteja errado. Enfim. Ao menos toda essa campanha serviu para que Lula cunhasse a mais antológica de todas as frases já proferidas em uma campanha presidencial: "a única bomba atômica que eu quero é uma que quando explodir saiam flores". Flower power é isso aí.



3.10.02
Broken Things Stay Broken, mais uma ilustração do site Exploding Dog

Todo o tempo do mundo


Estrela cadente
Pegadas na areia
Rabisco de giz
Sessão de cinema
Dois jovens amantes
E o mundo nas mãos



They fuck you up, your mum and dad./ They may not mean to, but they do./ They fill you with the faults they had/ And add some extra, just for you.

PREDILETOS DA CASA - V

A primeira vez que tive contato com a poesia de Philip Larkin foi por meio de um programa exibido na TV Cultura, no qual o ator Laurence Olivier, pouco antes de sua morte, recitava alguns poemas selecionados. Cada vez que Olivier recebia algum verso de Larkin para ser lido, ele, que parecia desconhecer sua obra, simplesmente se deleitava, perguntando aos produtores: "quem escreveu isso?". Após a leitura de "This Be The Verse", Laurence não se conteve. Riu gostosamente, e sentenciou: "genial". Foi o mesmo pensamento que tive, ao ouvir os seguintes versos (perdoem a tradução tosca):

Eles te fodem, a mamãe e o papai.
Não era a intenção, mas eles o fazem.
Eles te fazem dos erros que cometeram
E ainda acrescentam outros, só teus.


No final, o poema arremata:

O homem passa sua miséria adiante,
Que se aprofunda como siri na areia.
Cai fora enquanto é tempo,
E não vai nessa de ter filhos.


Fui atrás de mais versos deste homem, e não me arrependi. Philip Arthur Larkin (1922-1985) é considerado o maior poeta inglês do período pós-guerra. Sua obra, com a qual me identifiquei de imediato, caracteriza-se pela linguagem coloquial, à moda do nosso Drummond. Larkin, ao contrário da maioria dos poetas contemporâneos (concretistas que o digam), era avesso a experimentações pós-modernistas ou citações eruditas. E criticava, com razão, aqueles que supervalorizam a técnica em detrimento do conteúdo da própria poesia. Contra o hermetismo dos que buscam a aprovação de restritos círculos literários, Larkin cunhou versos que, sem perder a densidade, agradam tanto a estudiosos como a não-literatos, denunciando a alienação do homem na vida moderna com forte senso humanista.

Philip Larkin merece urgentemente ser melhor conhecido por estas bandas. Concordará comigo quem ler poemas como "High Windows", de 1974. Os versos, que publico logo abaixo, podem (devem) ser lidos na versão original, disponível aqui.



Janelas Altas - Philip Larkin

Quando eu vejo um casal de jovens
E imagino que ele fode com ela, e que ela
Toma pílulas ou usa diafragma,
Eu sei que este é o paraíso

Sonhado por qualquer velho, a vida inteira -
Vínculos e gestos deixados de lado
Como utensílios ultrapassados,
E todos os jovens deslizando pelo grande tobogã

Em direção à felicidade, sem parar.
Eu me pergunto. Se alguém me olhasse
Há quarenta anos, e pensasse,
"Assim será a vida; sem mais Deus ou suores no escuro

Por causa do inferno, ou ter que esconder
O que pensamos do padre. Ele e a sua turma
Descerão todos pelo longo tobogã abaixo
Como malditos pássaros livres".

E, imediatamente antes das palavras,
me vem a imagem
de janelas no alto.

As molduras de sol,
e, para além delas,
o ar profundamente azul

que mostra nada,
e que não está em nenhum lugar,
e que é infinito.



2.10.02
Bacana, bacana! (© Di Fraia)

Reconhecimentos são sempre gratificantes. Ainda mais quando meu blog vira destaque na home-page do Blogger Brasil na companhia de colegas como o Eduardo Stuart, do Pulso Único, Joca Reiners Terron, do HOTEL HELL, cumpadi André Rosa de Oliveira, do Marmota, Mais dos Mesmos, Holly Golightly e a intrépida trupe do Momento Google, e Rafael Capanema, do sutil como um paquiderme. Aos novos leitores, minhas boas-vindas: quaisquer dúvidas, comentários, sugestões e remessas de dólar serão bem recebidos em meu e-mail pessoal. Aos leitores já íntimos da casa, o meu muito obrigado pelas visitas e comentários.



Aqui em Pensar Enlouquece, procuramos servir bem para servir sempre. Devido ao sucesso que meu conto Bons Amigos (postado em 25.09) fez junto aos incautos leitores deste blog, resolvi republicar aqui um outro texto. This is Love é a segunda parte de uma trilogia de textos sobre amor que escrevi há cerca de um ano e meio, iniciada com Amar Emburrece (disponível no site da excelente revista eletrônica [mão única?]) e finalizada com Bons Amigos, publicada anteriormente pela e-magazine Falaê!.

Leia no volume máximo.



This Is Love


Hoje não quero mais pensar, e fico com uma puta inveja dos hare krishnas, que passam o dia todo entoando aqueles mantras hipnóticos, hare hare hare hare, e esvaziam a cabeça de toda manifestação supérflua dos neurônios, esses bichinhos amaldiçoados que ficam jogando squash no meu crânio, ah como eu sinto inveja dos cachorros que sorriem como naquela canção do Roberto, arfando com a língua de fora, despreocupados como um velho hippie emaconhado, pedindo meras migalhas de brownie em troca de carinho ilimitado, sem aquelas velhas cobranças que exausperam meus ouvidos, "você me ama?", "você me ama?", maldito mantra dos amantes inseguros, se bem que falar em "amante inseguro" é como dizer "monopólio exclusivo", pura redundância, mas enfim, só sei que nada sei, baby.

O café já esfriou, a piada perdeu a graça e as batatas fritas murcharam. A noite está tão quieta que chego a ouvir o ponteiro dos segundos se arrastando no relógio, ligo a tv pra abafar o barulho do silêncio, recordando com saudade dos tempos em que assistia a comerciais de facas Ginsu e meias Vivarina, nada era mais eficaz pra desligar as tomadas da minha cabeça, bastava sentar na poltrona, relaxar e acionar o screen saver do meu cérebro, e pensar que cheguei a comprar uma caixa de Didi Seven, publicidade é a lobotomia dos desocupados. Mas agora está passando um filme do Truffaut e o que eu menos quero é pensar na imensa estupidez da paixão.

Palavras não servem pra nada, baby, cá estou eu tentando tecer digressões inúteis sobre a vida sexual das taturanas de Botswana como se pudesse desviar a atenção do sentimento confuso que sinto por ti, uma fresta de luz no meu coração que ilumina e assusta e alimenta meus sonhos e me faz engolir um M&M atrás do outro, como alguém que entope de moedas uma jukebox tocando velhos discos riscados de blues.

Há momentos em que te amo, e outros em que desejo estourar teus miolos. Definitivamente isto não é nada saudável, mas até aí eu gosto de Doritos Nacho e pastel de feira, assisto à novela das sete e ouço pagode de seis em seis horas, estaria o meu lado masoquista rompendo os diques da sanidade e decretando um golpe de estado dentro da minha cabeça? Catzo, são três da matina, há muito já virei abóbora e estou em frente da televisão dando risada das piadas do Otávio Mesquita, isto definitivamente está ficando grave. Tô mal, fodido e, pra não contrariar o clichê, mal pago, já que minha conta bancária há muito está menstruada, só no vermelho, e isto talvez explique as cólicas sacolejando na minha barriga feito britadeira de bolo. Cólicas ou amor? Vai saber, talvez o amor seja um bicho que nos engravida, e depois seu feto fica dando chutes dentro da barriga da gente feito um centroavante treinando pênaltis, afinal de contas amor é uma caixinha de surpresas, mas treino é treino e jogo é jogo.

(continua no post abaixo)



Ah que saudades dos meus tempos de solteiro. Se eu pudesse dirigir uma De Lorean e voltar no tempo, certamente permaneceria em meus onze anos de idade, quando minha maior preocupação era tentar encaixar as argolinhas nos aros do Aquaplay. Aos onze anos eu era um imbecil, o tempo passou e eu continuo sendo o mesmo imbecil, só que mais experiente, mas de que vale a experiência se vivo cometendo os mesmos erros, me apaixonando por mulheres complicadas? Cabeça de mulher é que nem o clima em São Paulo, impossível de se entender. Ontem choveu, fez sol, ventou e esfriou, as quatro estações num mesmo dia, haja vitamina C pra encarar essa porra de El Niño.

Bem, vá lá, talvez o complicado seja eu, sou teimoso e arrogante e burro demais pra admitir. Mas, caralho, por que toda porra de relacionamento tem que ser tão complicado? Talvez o ideal fosse viver à base de sexo e amizade, nada além disso, chega de cobranças e neuras e inseguranças e ciúmes e essa necessidade doída de ter aquela menina sempre do meu lado, afinal de contas pra que serve o amor? O bebê de proveta tá aí, os cientistas já estão clonando ovelhas, nossos órgãos reprodutores em breve estarão ultrapassados, crescei-vos e multiplicai-vos por que neste planeta entupido de gente? Não seria melhor se proibissem o amor, que inspira tantas novelas mexicanas, canções de dor de corno, Sabrinas e Barbaras Cartland da vida?

Bah, que idéia de jerico. O que seria da Meg Ryan sem o amor? Não arranjaria um só papel, a coitada. E como eu poderia viver sem as canções melancólicas do Morrissey, do Ray Charles, do Burt Bacharach e do Roy Orbison, que fazem a trilha sonora das minhas insônias azuis, das minhas leituras em diagonal dos xerox da faculdade, dos meus banhos, dos meus sonhos acordado? Porra, noites de sexo descompromissado me dão um puta vazio, malditas relações McDonald's que enchem a barriga mas não nutrem. Yeah, agora eu sei que tô fodido mesmo e tô gostando pra valer de ti, garota. E não é que caí na cilada do teu sorriso, na arapuca do teu olhar, na armadilha do teu sexo? Meus dedos coçam, e eu sei que daqui a um minuto vou ligar pra tua casa só pra ouvir a tua voz, e viajar de novo por um planeta onde o sol brilha eternamente e as pessoas se locomovem em slow motion.

É, eu sei que vou sofrer mais uma vez. Mas também sei que, ao teu lado, as noites acabam em abraços e sorrisos que fazem com que eu durma com toda a paz do mundo.

Tô fodido.